Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

quinta-feira, julho 20, 2006

A JÓIA E O COVEIRO

Passam três minutos das 18 horas do dia 15 de Julho do ano de 2006.
Palco número 1.
“Ela é fantástica. Aplausos para Ti Fáni Hópequins, que veio da França. Ela é fantástica”.
Disse o Miguel, o “speaker” português que divide o palco 1 com o incontornável “speaker” espanhol, o actor Roberto Chivas, que fez 29 anos no dia da festa de apresentação do Salão. Com direito a bolo de aniversário e tudo.
Entra em palco Tiffany Hopkins, nome de jóia, voz de veludo, coração de ternura. Francesinha “mignone”, com aspecto de tudo menos de estrela porno. Uma menina a caminho do quarto de século, com o encanto de uns seios “perky” (como diriam os ingleses), pequeninos, perfeitos e arrebitados.
Vem de vestido preto, elegante no seu metro e 60 e picos (ou muito perto disso). Tão elegante como quando a conheci no Jardim do Tabaco, na festa de inauguração. Ficámos a falar junto ao Tejo, com o rio de ouvido arrebitado, atento às malandrices.


O rosto é granítico, vem a fumar, com cara de má, sem um sorriso. Eu, na primeira fila entre o público, máquina fotográfica em riste, sorrio para dentro. Sim, eu sei que é a fingir. Tiffany é uma jóia de moça, um doce.
“Eu sou muito tímida. A sério”, diz ela, por entre dois goles na “flute” com tinto de Porca de Murça.
Os olhos são assim para o azul-esverdeado ou o esverdeado-azul.
“És muito atento”. Sou.

Adiante. São 18 horas e cinco minutos. Tiffany dá o cigarro que trazia na mão, para compor a pose de menina má. Mas descai-se e sorri quando abdica do cigarro.
Vai-se despindo. Desafia o público com o olhar. Tiro ou não tiro?
Tira o top. Chama alguém da audiência. Sorri.


Sobe ao palco Daniel Braz, coveiro de profissão, nascido em França, morador na Póvoa de Santo Adrião. Daniel não desce à cova dos leões. Daniel sobe ao palco da leoa.
Uma leoa meiga, ternurenta, que o despe todo. Todo? Não. Uns boxers resistem ainda e sempre às mãos invasoras de Tiffany, não obstante a publicidade enganosa do simpático “speaker” Miguel.


“Ele vai ficar todo nu”.
A interacção entre Daniel e Tiffany é muito boa. Daniel acaricia suavemente as pernas de Tiffany mas não tenta manobras mais arrojadas, como “ferrar na passarinha” de uma estrela porno, coisa que aconteceu noutro palco, no dia anterior, nas palavras de um amigo portuense.
Tiffany cheia de água, toda nua. Daniel cheio de água. Daniel de boxers molhados. Os corpos ritmicamente encaixados. Com respeito, com devoção, com ternura, com humor. Assim até dá gosto.
Ao segundo sinal serão 18 horas, 14 minutos e zero segundos.
Pi, pi.



Tiffany termina a sua actuação. Levantam-se. Abraçam-se. Sorriem. Agradecem ao público. Tiffany oferece uma toalha para Daniel se secar.

Seca-se. Atira T-shirts ao público. Retira-se como entrou. Elegantemente. Como a grande estrela que é. Como a “petite copine” francesa que deveria ter povoado a minha adolescência nos Campos Elíseos.
Daniel desce à terra. Felicito-o. Pergunto-lhe se a publicação das fotos nos jornais não lhe vai trazer problemas.


“Nada. Foi espectacular. Ela é francesa. Eu nasci em França, nos Vosges. Foi espectacular. Só me dá muita pena não ficar com uma foto de recordação. Agora já acabou tudo”.
Encontro um camarada jornalista. Trocam de número dos telemóveis.
Parece que se vai conseguir qualquer coisa para o Daniel.
Ainda bem.

É tão belo o poente no Tejo, quando uma jóia e um coveiro decidem namorar, nem que seja por dez minutos.

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