Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

quarta-feira, junho 27, 2007

Contos do Dick Hard - I

DICK HARD NA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA

Um frio de rachar. O céu azul.
Um copo de Super Bock Stout.
Podia estar-se pior. Mas o tédio invadia de comichões existenciais o detective mais ordinário a oeste de Paços. No guardanapo de papel, Dick acabava de escrever mais um dos seus poemas: “Se vou às putas/nunca me venho/não se deve gozar/com quem trabalha”.
Dobrou A BOLA sem saber porquê (deixou o exemplar em cima da mesa do snack-bar) e pôs-se a passear sem rumo e a dizer piropos fora de moda às miúdas que saíam da escola secundária com o cio juvenil a tiracolo:
--- Não sabia que as flores andavam.
--- Vai prò caralho que te carregue, ó velhadas!
Primeiro, Dick estranhou um insulto tão hard da parte da miúda. Já não se podia ser galante. Depois pensou que a juventude não estava tão mal como isso. A miúda tinha revelado um trocadilho inteligente, misturando a frase “Vai para o Diabo que te carregue” com “Vai prò caralho”. A nível subsconciente talvez Dick tenha pensado: “Ó Diabo, estão a mandar-me prò caralho”.
Por norma, quando o mandavam para o caralho, Dick não ia. A menos que fosse muito bem pago, que houvesse bom uísque e o caminho fosse de primeira e não tivesse muitas portagens.
Fosse como fosse, estava na hora de ir tomar um copo às Docas. Meteu os pés a caminho e desceu do Largo do Rato. À porta da Assembleia da República deparou-se como uma manifestação de lésbicas.
--- Ó amiga, desculpe lá a pergunta. Esta manif é contra quê?
--- Contra o custo de vida.
--- Isto realmente está pela hora da morte.
--- Pois é, já não se pode comprar um strap-on sem andar na esquina a render.
--- Um quê? Um pónei?
--- Cavalo é você! Um strap-on, um dildo de cintura, um caralho para te meter na peida, já estás a perceber agora, ó panasca?
Porra que a tarde não estava a correr bem. Cada vez que falava com uma miúda era insultado. Estava ele nestes preparos mentais quando a manifestação avançou de forma inexorável e entrou para as galerias da Assembleia da República, onde ia ser debatida uma moção de censura do Bloco de Esquerda, contra o aumento do preço dos strap-on. O PP estava decidido a contra-atacar com uma proposta de subsídio ao lubrificante KY. Por seu lado, o PS tinha José Sócrates pronto para reivindicar a substituição do Y de KY por um I, na defesa da língua portuguesa. Dizia-se à boca pequena que Edite Estrela estava na base da conjura.Claro que o PSD não se podia ficar. Corria nos bastidores que Pedro Santana Lopes entrara já em acção, planeando uma orgia de desagravo.
Pelas 17 horas, serviram chá e bolinhos nas galerias, uma iniciativa da nova maioria. Dick Hard ficou muito bem impressionado, mas a maior parte das lésbicas recusou:
--- Camaradas, recusem os bolinhos. Não se deixem comprar.
--- Ó biscoito, acalme-se lá. Uns bolinhos caem sempre bem...
Ainda Dick não tinha acabado de proferir estas palavras e já estava a levar com um tabuleiro na tromba.
--- Vê lá se este tabuleiro te cai bem...
Passados 20 minutos, a ordem voltou ao parlamento. Cerca de 30 manifestantes detidas, os feridos mais graves a caminho do hospital, Dick Hard a caminho do posto de primeiros socorros a náufragos da Assembleia da República.
O posto de primeiros socorros a náufragos da Assembleia da República era numa sala amplamente adjacente aos Passos Perdidos, quase ao lado da secção de Fodidos e Manchados.
Dick, com um nariz à Belenenses, a escorrer o muco azul que lhe vinha da aristocracia materna (a Marquesa de Massage-Massoterapie), entrou pé ante pé, com o lenço bem colado à penca.
--- Entre, faz favor. O senhor é mais uma vítima das fufas, não é?
Dick olhou em volta e só não se beliscou porque tinha uma mão a agarrar o lenço e a outra no bolso, tentando acalmar os ânimos do Dick mais pequenino, em plena fase de crescimento espontâneo, como se tivesse acabado de tomar um batido de Fercol ou um cocktail de Viagra.
A enfermeira era um ser humano de amplo recorte espiritual. Uma boazona de alma. Talvez ajudasse ter as medidas de Bo Derek, um decote à maneira e vestígios mal disfarçados de “Malizia” (La Perla), que nisto de lingerie Dick Hard raramente tinha dívidas e (quase)nunca se masturbava, como diria o professor Cathedral.
--- Umas vacas malhadas, é o que elas são. Estou fartinha de manifestações. Estou por aqui de manifestações. Ora deixe lá ver o narizinho...
Dick estava sentado na marquesa (que não a senhora sua mãe, que Zeus a tenha em ripanço) e nem teve tempo de se opor ao avanço irresistível dos dois seios.
(Será que havia silicone por ali?)
A enfermeira Dália disse a Dick, com uma voz muito meiga:
--- Coitadinho do meu amiguinho, que tem o narizinho partidinho...
Com mil desvelos embrulhados em carícias, Dick foi alvo de meigas atenções pela menina Dália dos sapatos de tacão-agulha e um coisinho com o nome dela a roçar-se no peito direito: “Dália Florinda, enfermeira-chefe”.
Penso nasal acomodado ao septo narizento do senhor Hard, a menina Dália, muito terna, pediu a Dick que descontraísse.
--- Vou dar-lhe uma anestesiazinha a cheirar, está bem, amiguinho?
Antes que Dick pudesse dizer alguma coisa, Dália Florinda embebeu-lhe profundamente o focinho com uma mão-cheia de clorofórmio de última geração, modelo com jantes especiais.
Depois, virou Dick de barriga para baixo, prendeu-lhe solidamente as mãos com correias e despiu-lhe as calças:
--- Venham, minhas amigas, vamos experimentar os novos strap-on no rabinho deste idiota...
Dick Hard acordou umas horas depois, com o rabo a doer-lhe intensamente e Paulo Portas a sorrir-lhe:
--- Quero que saiba que tem a minha máxima solidariedade. Disponha.
No outro dia, o caso era manchete no “24 Horas”, “Tal e Qual” e “Correio da Manhã” : “Cidadão violado na Assembleia”, “Provocador castigado por enfermeira”, “Confrontos na Assembleia acabam anal”.








Luís Graça



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2 Comentários:

  • Às 8:35 da manhã , Anonymous Anónimo disse...

    podemos ter uma impressão do seu blog?

    Já agora ouvimos a sua sugestão e trocamos o canguru que tinhamos cá por casa por 2 crocodilos...

    Boa Viagem...

     
  • Às 2:32 da tarde , Anonymous Luís Graça disse...

    Há vários tipos de impressão.
    Se se referem a impressão como OPINIÃO, acho muito bem que tenham, mesmo que seja uma má impressão.

    O meu amigo Marcelo Teixeira, actualmente editor da Oficina do Livro (publiquei lá o 'Neura 2004') foi um dos muitos putos que colaboravam no DN-JOVEM que foi aos Encontros da Primavera, em Amarante,1987. Uma grande manifestação cultural, que juntou escritores consagrados com jovens aspirantes a escritores.

    E andou por lá a perguntar a toda a gente:
    "Queres a minha impressão sobre o Encontro?".

    Nós dizíamos que sim e ele dava-nos um pequenino quadradinho branco de plástico, com uma impressão digital de um dedo dele.

    Quanto à outra impressão, vulgo "print", gostava de lhes saber responder. É que eu não percebo nada de blogues e são os amigos que me tratam disto. Mas se conseguirem fazer a impressão, em termos técnicos, façam favor. Não há problema nenhum. Na boa.

    Quanto aos contos do Dick Hard (que são 14 na totalidade, escritos há dois anos), tudo indica que vão passar a livro. Aguardo resposta de uma editora na segunda-feira. A acontecer, será publicado no período natalício, prevendo-se que no período da Feira do Livro saia o meu "Diário Sexual de um escritor frustrado", que é o link Sexo na Noite.

    Os "15 desatinónimos para Fernando Pessoa" podem ler na íntegra, já está todo publicado.

    Gostei de vos conhecer. Para além de serem umas miúdas muito giras fisicamente, também revelaram sentido de humor e fair-play.

    Eu ainda fiquei um bocado bom na loja das fotocópias. Mas lá vim para casa com tudo.

    Espero que descansem bem.

    (Devo dizer aos leitores do blogue que não me refiro a questões sexuais com as meninas. Elas estavam quase sem dormir por motivos de trabalho e eu quase na mesma, ainda com os sonos trocados. Portanto, não é descanso de terem sexo comigo.O que não abonaria nada a favor delas. Sou muito melhor a fazer humor do que amor. Mas sou muito bom em massagens. Costumo mandar SMS para os meus amigos e amigas que dizem assim: "Tem uma massagem nova. Para usufruir, ligue 200".
    E depois os gajos e as gajas vêm a minha casa e eu dou-lhes uma massagem.

    Olhó canguru fresquinho! Na compra de dois cangurus, ganhe um caimão do Alasca, um jacaré de Singapura ou um Cornetto de Pêssego Selvagem.

     

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