Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

segunda-feira, julho 09, 2007

Contos do Dick Hard - III

DICK HARD NA LOJA DE ‘LINGERIE’

Dick não conseguia resistir a uma boa loja de “lingerie”. Ainda não tinha percebido se gostava de mulheres por causa da “lingerie” ou gostava de “lingerie” porque imaginava o recheio.
Tinha a cabeça cheia de DIM, Malizia la Perla, Lise Charmel, Triumph, o diabo a sete. Tudo o que era “lingerie” marchava. Preferia a “lingerie” negra e simpatizava sobremaneira com as meninas que respondiam aos inquéritos nas revistas masculinas: “No corpo --- lingerie negra”.
Um dos grandes momentos do seu dia era quando descia as escadas rolantes do Monumental e dava com a montra da loja de “lingerie”, que se despia dos seus segredos para ele.
Dick tinha adorado Silvia Saint de “lingerie” azul num dos seus primeiros filmes para a Private. Talvez fosse mesmo o primeiro. A Silvia na casa de banho, a ser encavada por...olha, quem era ele? Varreu-se.
Nessa noite, Dick andava a tentar comprar o jornal há que tempos e foi por acaso que deu com uma nova loja de “lingerie” no centro comercial. Os manequins estavam todos de “lingerie” vermelha, com aqueles fiozinhos dentais bem apetitosos. Uns soutiens pequeninos e meiguinhos. Até dava vontade de ser caruncho, para poder comer os manequins com algum proveito.
Entrou.
A menina que estava ao balcão era uma mulatinha de metro e sessenta, bem proporcionada, de lábios carnudos. Tinha um decote mais do que generoso e Dick imaginou que fosse obrigada a vestir uma “lingerie” que a loja tivesse.
--- Posso ajudá-lo?
Podia e de que maneira. Dick pensou, como um trovão: “Podes. Ajoelhou, tem de rezar. Isto como ‘entradas’, tipo cocktail de camarão. Depois, põe-te toda nua encostada ao balcão e vê lá se eu digo em bom português ‘água vai’. Para rematar, como sobremesa, pede à tua colega que me esgalhe ao pessegueiro como se fôssemos conquistar Olivença a 1 de Janeiro”.
A colega era uma loira estilosa, matulona, que devia saber sexo oral em várias línguas. Ficou a olhar para Dick com ar curioso e divertido. E Dick respondeu com a ultra-banalidade do quotidiano:
--- Obrigadíssimo. Estou só a ver.
E depois suspirou:
--- Infelizmente.

A loira matulona ouviu e não desperdiçou a “deixa”:
--- O senhor disse infelizmente...
E Dick, um bocado embaraçado:
--- Pois disse.
--- Infelizmente porquê?
Aí, Dick lançou os cavalos em longo tropel, devotado ao risco, como se estivesse em plena planície, num filme de John Ford:
--- Infelizmente porque não é possível vê-las a passar modelos para mim. Caso contrário, eu tinha motivos para comprar a loja toda.
O destino reserva-nos imensas surpresas. Não é que as miúdas fecharam a loja e levaram Dick para o apartamento que dividiam? Levaram é uma forma de dizer. Foi Dick que lhes deu boleia para o Cacém no Lotus Europa rosa-choque, a cair aos bocados. Mas o bocado que caiu para cima de Dick era muito bom. Concretamente, a perna e o seio esquerdos da mulatinha, que um Lotus Europa é assim a modos que a atirar para o rés-do-chão, um carro com apenas uma assoalhada. Três à frente é realmente tropa a mais.
No apartamento, se três podem ou não ser muitos, outra surpresa estava reservada a Dick. Uma amiga da mulatinha, uma ruiva de olhos verdes, que trabalhava numa perfumaria, estava sentada nas escadas do prédio:
--- Até que enfim, mulher, estava à tua espera há não sei quanto tempo...
--- Olha, Mimi, apresento-te o senhor Dick Hard. Detective particular, sócio do Belenenses e perito em “lingerie” --- disse a mulatinha, que se chamava Maria Armanda, mas não sabia cantar “Eu vi um sapo”, mesmo que fosse da ADSL.
--- Por favor, não me envergonhem. Eu estou muito longe de ser um perito, limito-me a gostar da modalidade...
--- Não seja modesto, por favor. Nós bem vimos como o senhor devorava com os olhos os manequins da montra. É preciso saber de “lingerie” para devorar uma montra como o senhor fez...
“Ou isso ou ser muito tarado sexual”, pensou Dick para com os seus colhões.
Maria Armanda meteu a chave à porta e ficou com o traseiro empinado virado para Dick, que meteu as mãos nos bolsos e iniciou uma partida não patrocinada de bilhar de bolso.
Ponto da situação: entraram os quatro no apartamento. Dick, Maria Armanda, a ruiva de olhos verdes e loira estilosa.
--- O Dick e a Mimi podem sentar-se aí a beber qualquer coisa, que eu e a Ana vamos preparar a “lingerie” para o desfile.



Desfile? Qual desfile? O desfile. Mas qual desfile? O desfile.
Enquanto a ruiva de olhos verdes (a Mimi) e o Dick estavam bem sentadinhos no sofá a beber umas cervejas, a Ana (a loira estilosa) e a Maria Armanda foram ao quarto preparar as coisas.
O pequeno Dick tinha acalmado, entretanto, por força de uma conversa banal com a Mimi. Mas alembrou-se de se alevantar de novo num arrepente quando a Maria Armanda entrou de “lingerie” branca, a contrastar com a sua tez de chocolate. E atrás vinha a Ana, de “lingerie” verde, a condizer com os olhos arregalados da Mimi, postados na primeira fila para a erecção-surpresa de Dick Hard, o detective mais obsceno a oeste de Paços.
--- Ó Mimi, se quiseres descontar aquela dívida que tens para mim, podes fazer uma atenção ao Dick...depois acertamos os pormenores...
E a Mimi, que parecia uma miúda suburbanamente decente, explorada oito horas por dia numa perfumaria e sem perpectivas de vida, transformou-se numa emérita sugadora com olhos de vórtice.
Enquanto Maria Armanda e Ana davam voltas e mais voltas numa valsa de “lingeries” sortidas, Mimi subia e descia, de cabeça, ao ritmo de 20 centímetros de homenagem, haste em riste, corações ao alto.
Passados dez minutos de alguma contenção orçamental do fluido seminal, Dick esvaiu-se num repucho tipo fonte luminosa e foi acertar na fotografia do pai de Maria Armanda, dos tempos da guerra colonial:
--- Ena pai, em cheio na farda... --- disse a Ana, que levou uma estalada da Maria Armanda.
--- Toma lá, que é para não gozares! --- afinfou-lhe a Maria Armanda, que adorava o pai, já falecido, apesar de ele a enrabar docemente todas as sextas-feiras à noite, enquanto era vivo, no regresso da churrascaria onde trabalhava.
A Ana ficou assim um bocado para o fodido com a atitude da Maria Armanda, mas -- sabe-se lá porquê --- foi “marrar” com a desgraçada da Mimi:
--- Estás a ver, Mimi? Se fosses uma miúda normal e tivesses engolido nada disto tinha acontecido!
--- Olha lá, Ana, eu não tenho culpa nenhuma que a Maria Armanda te tenha ido ao focinho. E quem te dera a ti fazer os homens vir de repucho. O único ‘bico’ decente que fizeste foi quando estavas bêbeda e já nem te lembras...
Dick Hard, de sarda a esmorecer no calor da discussão (mas ainda com ela de fora) quis arrefecer os ânimos e meteu-se no meio das miúdas, exactamente na altura em que Ana vinha de jarra das flores em punho:




--- Ai agora!
--- Não, os agapantos não! --- gritou Maria Armanda, que todos os dias de manhã ia colocar agapantos na campa do pai.
Foi mesmo com os agapantos em cheio na carola que Dick levou. E fez ligação directa com o outro lado do sonho, desmaiando em directo para a plateia de três chavalas que acabaram por ver a noite fodida sem foder um caralho.
No outro dia de manhã, Dick acordou com um saco de gelo derretido na cabeça e um recado de Maria Armanda:
“Desculpa, Dick, isto foi uma noite demasiado má para ser verdade. Espero que, ao menos, o broche te tenha sabido bem. A Mimi é boa rapariga, mas já estou pelos cabelos com a Ana. Ainda continuo com vontade de te foder. Liga-me”.
Todo fodido da cabeça já Dick estava.





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