Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

domingo, abril 01, 2007

Pequena receita para ressacas de amor

(Para D., como uma lágrima a fugir do coração)

— 1 cigarrilha Romeo y Julieta mini, de Alvarez y Garcia.
— cinco cigarros John Player Special (preto).
— 1 garrafa de mini-bar de vodka Absolut.
— 2 garrafas de mini-bar de Fonseca Porto, Tawny Port.
— 1 garrafa de mini-bar Mateus Rosé.
— 2 comprimidos Apton 20.
— algumas (muitas) lágrimas (orgulhosamente verdadeiras).


Mãos nas mãos
com o Douro em fundo
tu e eu sabemos
que tudo está dito

Mãos nas mãos
com o Douro em fundo
tu e eu sabemos
que nem tudo é fúnebre

Mãos nas mãos
com o Douro em fundo
tu e eu sabemos
que apenas custa

o singelo momento
em que os meus olhos
encontram os teus
e o teu abraço

vem de encontro a mim
enquanto os teus lábios
beijam minha face
e os teus cabelos

cheiram a promessas
feitas d’utopias
que eu sei fatais
como as armadilhas

do amor eterno
como as armadilhas
da lua velhaca
do mar traiçoeiro

E quando tu partes
eu fico a pairar
como se os meus passos
já não fossem meus

E olhos nos olhos
mas já sem te ver
preciso de ti
das tuas memórias

Caminho na rua
e fumo um cigarro
como um Romeu
órfão de Julieta

Depois fumo mais
tenho um maço preto
que tinha doirados
nos Lotus do sonho

Ando pelas ruas
sem saber porquê
e os cães que ladram
sabem que te amo

O nome da rua
é Guerra Junqueiro
como se poético
fosse o nosso amor

Por fim chego ao ‘Douro’
que já não tem água
mas um cemitério
com gatos e gente

E sem saber como
sentado na cama
como um pugilista
que não sabe o ringue

solta-se uma lágrima
que me molha os lábios
e sei que preciso
de saber de ti

Então abro a porta
do meu mini-bar
e bebo de um fôlego
um Absolut

E depois desisto
da sobriedade
e bebo dois Tawny
sem ser por maldade

E encho a banheira
d’água muito quente
deito-me lá dentro
a pensar em ti

No dia seguinte
no regresso a Lísbia
sei que vai doer
como sempre dói

Mas sei a ternura
com que me disseste
que as minhas mãos
te deram calor

E fico a pensar
que sofrer é fado
tocado ao relento
fumado ao luar

E quando me deito
anestesiado
a sonhar contigo
ainda acordado

Sei que vai ficar
tanta coisa boa
que choro com gosto
o que já vivemos

E quando sonhares
teus sonhos privados
lembra-te de mim
com saudades do vento

Porque
mãos nas mãos
com o Douro em fundo
tu e eu sabemos
que tudo está dito


Luís Graciña, 29/3/2007, 03h18m

4 Comentários:

  • Às 11:21 da manhã , Blogger Maríita disse...

    Lo bueno del caso, es que todo pasa, hasta los dolores de amor...

    Besitos o mejor dicho beijinhos

     
  • Às 2:54 da tarde , Anonymous Luís Graça disse...

    "Time's a healer", diziam os Genesis. Não há-de ser nada. Já estou habituado.
    Obrigado pelo apoio.

    É pena não haver Evax para os dias difíceis do amor, aqueles em que nos reencontramos e aqueles em que nos despedimos.

    Só dói quando a vejo, quando a ouço, quando a abraço, quando não a abraço, quando penso nela, quando estou perto, quando estou longe.

    Por isso nem é muito complicado.

     
  • Às 1:23 da tarde , Blogger a. moreno disse...

    «O rio Douro é um rio de sangue por onde o sangue do meu povo corre», dizia o poeta Joaquim Namorado. De sangue e de lágrimas - pelo que sabemos. E a quem o dizes... Ai malecón, malecón...

     
  • Às 11:18 da tarde , Anonymous Luís Graça disse...

    Pois é...
    Não há-de ser nada...a vida continua, como dizia o Teodoro Marques da Silva.

     

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