Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

quinta-feira, julho 12, 2007

Contos do Dick Hard - IV

DICK HARD NA SIERRA NEVADA


--- Porra, vai-te mas é para o catano, meu!
--- Vai tu!
Pois é, Dick Hard não podia imaginar que aquelas férias na neve de Sierra Nevada iam colocar em risco a sua carreira existencial.
--- Vamos comer as gajas no barracão do guarda, vamos comer as gajas no barracão do guarda, vamos comer as gajas no barracão do guarda...estás satisfeito, agora?
--- Ó Rick, mas tu achas que eu fiz de propósito?
--- Isso não me interessa. És uma merda de homem, é o que tu és.

Talvez o leitor(a) não recuse uma pequena analepse, que é o mesmo que dizer flash-back, em termos cinematográficos.

( “Bem, para falar em analepse temos de encarar o ponto de vista linguístico ou literário e estas coisas muito dificilmente podem ser consideradas literárias ou do domínio da linguística”

Luís Graça )

As férias na neve de Dick Hard e do seu primo Rick Dart (argumentista de filmes porno amadores, de orçamento reduzido e excitação garantida, S.A) estavam planeadas há anos. Primeiro, Dick Hard andara muito entretido com uma investigação à mulher de um ornitologista, que punha os cornos ao marido com um pelicano. No ano seguinte tinha sido ferozmente espancado por um gangue de ladrões de alpista. A seguir, formou-se a firma “Cabeças no ar” e Rick Dart não podia seguir para férias na altura em que se estava a rodar o primeiro filme: “’Bora lá, Maria, é rápido”.
Finalmente, nesse ano é que foi. Puseram as mochilas dentro do Lotus Europa rosa-choque de Dick Hard (“é antigo e apertadinho mas vais ver o que é isto na estrada, ó palhação Rick”) e abalaram até Sierra Nevada.




Como não se estava na época alta, Dick e Rick conseguiram alojamentos em conta e sem grandes problemas. Chegados ao quarto, Rick (que estava numas férias de neve pela primeira vez) proclamou, embevecido pelo manto branco que parecia querer cobrir o universo e arredores:
--- Bem, man, isto aqui é mais branco do que eu a jogar na lotaria!
--- Grande descoberta, és o meu primo mais inteligente!
--- Sempre quero ver se isto tem tantas gajas como dizes. Para já, na recepção está um gajo.
Na recepção do centro de neve “ Uno Skizito con 2 pedras de hielo” trabalhava um mexicano refugiado político: Pablo Barracuda, homem de metro e 90 e maus modos, que acrescentava uns “cobres” ao ordenado tratando do barracão do guarda, que só trabalhava na época alta.
Em contrapartida, a empregada panamiana era um espanto de mulher, perene no seu corpo de jovem promessa sexual, tanto mais que ainda nem tinha direito a voto. Rick Dart conseguiu dar-lhe uns “linguados” meio à traição ao final do dia, mas não mais do que isso.
--- Assim não levas nada, Rick. Temos é de levar as gajas para o barracão do guarda. Tenho comigo a chave-mestra para investigações penetradoras. Se dá em todas as fechaduras portuguesas, também há-de dar no barracão.Como é que se chama a outra empregada?
--- Qual?
--- Aquela loura espanhola de mamas grandes, que tem um brinco em forma de caveira e usa maquilhagem escura?
--- A...a..Viviane!
--- Isso! Está feito. Tu já começaste com a panamiana, eu trato da Viviane. Convidamos as gajas para uma descida de esqui e depois subimos até ao barracão do guarda.
--- Olha lá, ainda são uns 3 quilómetros ou mais!
--- Pois claro que são. O barracão do guarda tem de estar no ponto mais alto das pistas, ó idiota às riscas! Queres ou não comer as gajas?
--- Quero.
--- Então tem de ser como eu digo. Aqui no hotel as gajas não podem, porque dá muita “bandeira”. Com a pouca frequência de turistas, elas podem ser topadas pelo mexicano. Olha, o instrutor de esqui esteve a contar-me que despediram uma sueca de Estocolmo que tinha a mania de fazer “boca-doces” às excursões dos colégios de Madrid.
--- Pois é, os tempos não estão para brincadeiras.





Os tempos não estavam para brincadeiras, mas Dick e Rick estavam. No final do terceiro dia de férias conseguiram levar Rosalia del Clitoris (tinha havido engano no registo, o nome correcto era Rosalia del Cantoris) e Viviane até ao barracão do guarda, depois de uma tarde bem passada, dividida entre algum ski e muito sku.
Os portugueses estranharam quando viram as duas empregadas boazonas todas de negro. Desde o fato de esqui até ao rímel, passando pelos esquis, luvas e gorros. Esquisito como o caraças. Parecia que tinham caído no filme “Os canhões de Navarone”. Bem, isso era o menos. Lá dentro do barracão, com a lareira acesa (porra, o barracão do guarda havia de ter lareira!) e as gajas nuas, as férias até iam saber a ginjas! Está bem que o esqui era giro; que até dava um certo estilo chegar a Lisboa e dizer que se tinha estado na neve, mas a cereja no topo do bolo eram as gajas. Até parecia mal chegar à mercearia do Jorge e não ter nada para contar. Dick Hard parecia estar a ver a cena:
--- Então, conta lá, sempre “agasalhaste o palhaço” lá em Espanha?
--- Não deu, Jorge, fica para a próxima. Mas foi porreiro. Fui com o meu primo, sabes, aquele que escreveu os argumentos de “Mete agora, meu amor, é mesmo a sério”, “Traseiros empinados II, o regresso do martelo-pilão” e “Fúria sexual delinquente”.
Era o que faltava! Férias de esqui sem gajas não eram férias de jeito. Certo que Rick e Dick podiam sempre fazer um pacto de silêncio e inventar umas fodas virtuais com muito escabeche e algum molho à espanhola, mas isso seria como beijar a mão à decadência, mal esta virasse a esquina do insucesso.
O barracão era bastante amplo. Quando lá chegaram a noite tinha caído, mas não se aleijara, porque a neve estava fofa. As miúdas tinham levado um cestinho com uns bocadillos de jamon serrano, umas garrafas de vinhaça, umas frutas, assim a modos que merenda nocturna. A coisa prometia. Dick queria acender a luz, mas as miúdas não deixaram. Disseram que à luz da vela era mais romântico.
--- Ustedes já cá estiveram, é isso?
Elas disseram que não, que era um tractor, negaram. Néribi, nestum, não sabiam, não queriam saber e tinham raiva a quem soubesse. Era uma “première” como deve ser, mas elas queriam luz de velas para o truca-truca com sabor a neve.





Depois, acenderam umas velas que estavam em cima de uma mesa. O barracão ficou tenuemente iluminado por sombras fantasmagóricas. Elas começaram a despir-se. Rick e Dick sentaram-se num banco corrido ao pé da lareira e apreciaram o panorama.
Viviane, toda nua, bombokas como bazookas, cabelos longos a escorrer de crinas pelas costas, foi à sua mochila e tirou um chicote. Bateu com ele no chão e dirigiu-se aos primos.
--- Vê lá mas é o que fazes com o caralho do chicote! Brincar é uma coisa, aleijar é outra! Não vim para Sierra Nevada para aparecer com vergões nas costas no health-club. Ai a porra! ---disse Dick, um bocado a sério, um bocado a brincar.
Mas não teve hipótese. Elas sacaram dos algo enregelados pilinhos dos meninos e começaram uma inspirada sessão de trabalhos manuais. Ora, um homem fica logo perdido, quanto mais dois!
Mal deram por eles, estavam amarrados. Sabe-se lá como. Eram cordas que davam a volta ao banco, passavam por cima da lareira, iam prender-se numas argolas na parede, era complicado dizer, estava escuro. O certo é que estavam presos e bem presos.
Nessa altura, a porta abriu-se e o rosto fechado de Pablo Barracuda deu à costa. Vinha mascarado de capuchinho vermelho e tinha uns sapatos de tacão-agulha, vermelhos, a condizer com a indumentária. Pablo abriu-se num sorriso e deu dois beijinhos a cada uma das miúdas.
--- Bueno, niñas.
E vá de lhes obsequiar um porradão de notas de euro, que as pesetas já eram. Rick e Dick não estavam a achar piada nenhuma à situação. Mais ainda quando repararam nos posters das paredes do barracão: tudo cenas de tortura, submissão, fotos de Hitler, os Kiss, Maradona a dar toques numa bola e Lady Sonia (“Hello, I’m Lady Sonia, the masturbatrix)”.
As miúdas foram-se embora e os dois primos, nessa altura bastante fodidos dos pirolitos, ouviram os esquis das perversas empregadas a cortar a neve daquelas paragens malditas.

(não está mau para piroso, pois não?)

A voz de Pablo Neruda ouviu-se: “Vou lá fora mijar e já venho. Vejam lá se descontraem, que dói menos e a carne fica mais tenrinha”.





--- És uma merda de homem, Dick, é o que és.
--- Calma, não te armes em mete-nojo. A situação resolve-se.
--- Ai sim? Então diz lá como.
--- Simples. Diênde.

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