Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

sexta-feira, julho 27, 2007

Contos do Dick Hard - VI

DICK HARD NO CENTRO DE ESTÉTICA

Dick Hard não podia ser considerado minimamente um metrossexual. Em primeiro lugar porque não gostava de andar de metropolitano. Depois, porque nunca tinha tido sexo em plena carruagem.
Por isso, quando a sua amiga Lolita lhe disse que não era preciso ser metrossexual para a acompanhar ao Centro de Estética, Dick Hard encolheu os ombros e deixou-se guiar, de braço dado, pelas labirínticas ruas de uma Lisboa antiga que já se mentalizara em aceitar um centro de estética.
O “Miminhos do Corpo” era um centro bem catita, com clientela do mais seleccionado. Esposas de gestores, viúvas de ex-traficantes de droga arrependidos, namoradas de seguranças de escritoras de livros de auto-ajuda, funcionárias de organismos estatais em vias de decomposição.
E como um centro de estética não tem de ser necessariamente dedicado às senhoras, o “Miminhos do Corpo” era bissexual, por motivos financeiros: tinha uma secção para senhoras e outra para cavalheiros. Era importante não descurar o negócio.
Lolita tocou à campainha e ouviu-se a voz de Vincent Price no filme de terror “O gato miou três vezes”. Dick não percebeu bem a frase, mas era assim a modos que a atirar para o horripilante. Se fosse levada a sério. Com o Vincent Price era difícil levar o terror a sério. Que raio de ideia para um toque de campainha!
A porta abriu-se e na recepção estava uma loira do mais terrífico que se podia imaginar. Ver aquela menina e não poder saltar-lhe para a espinha com imediatismo era algo digno de um filme de terror com Boris Karloff ou Cristóvão Lee.
O Dick mais pequenino pôs-se aos saltos dentro das calças de ganga do dono:
— Ó pá, eu quero! Ó pá, eu quero! Ó pá, eu quero!
Dick deu-lhe a meia-volta do costume (como indicado no livro de Alberto Moravia, “Eu e ele”) e sossegou o personagem.
Lolita dirigiu-se à Vânia Vitória (a menina da recepção que provocava erecções à velocidade da luz) e sorriu:
— Olá, o meu nome é Lolita Esplendores e tenho marcação de “Revisão Total Especial” para as 16 horas. Hoje trouxe um amigo meu. Gostaria de saber se é possível inscrevê-lo num programa especial de “Trate de si, cavalheiro”.
— Pois é, D. Lolita, sem marcação para o seu amigo vai ser um pouco difícil. Hoje é um dia mau. Tem estado tudo cheio. Sabe como é, sexta-feira, dia de sol, vésperas de Primavera. As pessoas saem de casa com vontade de se tratar bem.
— Veja lá o que se pode fazer. Eu quase arrastei o meu amigo...
Dick Hard não estava particularmente interessado em levar com um tratamento de estética e não tinha percebido se Lolita lhe ia pagar a sessão. Por isso, nada melhor do que jogar pelo seguro:
— Deixe estar, não se incomode. Eu vim só acompanhar a minha amiga...outro dia, talvez, com mais calma e disponibilidade...
— Ó Dick, deixe-se de coisas. Eu é que o convidei, não lhe vou dar uma seca enquanto espera por mim...só desisto se não puder mesmo ser...
A menina da recepção fez um sorriso especial de corrida (entre o malicioso e o vampírico) e disse com um ar muito estão-a-percerber:
— Vou esgotar todas as possibilidades, D. Lolita. E que tipo de “Trate de si, cavalheiro” pretendia? O “Miminhos banais” ou o “Miminhos especiais”?
— Ah! o “Miminhos especiais”, claro. Devo uns favores a este meu amigo e hoje decidi compensá-lo.
— Pois muito bem. A D. Lolita pode ir entrando para o gabinete “Dali” e o massagista vai lá ter consigo. Depois ainda vai fazer unhas e cabelo, não é?
— Exacto. Deixo-lhe então o Dick.
— Pode ficar descansada. O senhor Dick, se quiser, pode sentar-se ali na sala de espera, a folhear umas revistas. Já lhe digo o que consegui ou não consegui.
Enquanto Lolita desapareceu no horizonte, Dick dirigiu-se à sala de espera e escolheu um sofá com vista para o balcão da recepção, onde a loira fabulosa se atarefava em telefonemas. Quando ela desligou o telefone e fez menção de dar a volta ao balcão, Dick agarrou numa revista rapidamente e pôs-se a folhear, para não dar aquela “bandeira” de estar a “galar” a chavala despudoradamente.
— Boas notícias, senhor Dick. Consegui uma marcação daqui a 15 minutos, para o gabinete “Monet”.Queira acompanhar-me.
Dick levantou-se, suspirou e pensou para com os seus botões:
Botão 1: acompanhava-te e era com batatas, mesmo sem ser canibal.
Botão 2: acompanhava-te era a Vale de Lençóis, minha boazona.
Botão 3: acompanhava-te até ao Inferno, se me desses essa pachacha presumivelmente deliciosa.

A loira deliciosa depositou Dick, com um sorriso matreiro, no gabinete “Monet”, que tinha uns quadros muito foleiros com nenúfares, em tons de rosa e verde. Uma coisa super-pirosa.
Depois rodou os calcanhares nas sandálias tipo romano e pôs-se na alheta, em desfile afastatório tipo passarela. Até dava gosto observar o diálogo profícuo entre as duas bochechinhas do rabo. Qual Mário Soares, qual carapuça!
Dick tirou o casaco, pendurou-o num cabide todo estiloso e sentou-se num sofázão fofíssimo. Estava ainda a tentar tirar as medidas ao espaço quando um plasma do último modelo se pôs a falar, mostrando um grande plano de uma morena de olhos verdes e cabelo curto, com uns brincos em forma de caveira e um sotaque do Rio de Janeiro:
— Olá, isto é uma gravação. Bem-vindo ao gabinete “Monet”, onde vai receber uma sessão de hora e meia do programa “Trate de si, cavalheiro”, versão “Miminhos especiais”. Parabéns pela sua escolha. Vai ver que não se arrepende. Aqui no “Miminhos do Corpo” damos o nosso melhor para que se sinta no Paraíso. O meu nome é Bruna Brasil. Estarei consigo dentro de dez minutos. Até lá, vai ouvir sons seleccionados. Começaremos com Mozart, depois passamos a Prokofiev e acabamos com Bela Bitoque.
Mal o rosto desapareceu, o plasma começou a trasmitir imagens de paisagens maravilhosas, com a sala totalmente às escuras. As luzes desligaram-se num ápice.
Dick recostou-se e fruiu de todo aquele luxo. Se era a Lolita a pagar, tudo bem. É verdade que Dick a ajudara numa altura difícil da vida dela, fazendo umas vigilâncias gratuitas ao cabrão que estava casado com ela e lhe punha os cornos várias vezes ao dia. Se a Lolita queria retribuir assim, tudo bem. Dick já tinha atirado o barro à parede, mas a Lolita não se desbroncava. Nada de sexo. Só amizade. Ora bem. Que viessem de lá os tais miminhos especiais.
Como o gabinete dispunha de uma marquesa, Dick calculou que ia receber uma massagem, com sons reconfortantes. E a tal Bruna Brasil era bem bonita. Uma hora de massagem, talvez seguida de duche...nada mau!
Estava nestas cogitações quando uma fatia de luz cresceu pelo solo luxuosamente atapetado do gabinete “Monet”. A porta abriu-se e Bruna Brasil (senhores ouvintes, 1 metro e 80 de tentação, vestida num fato de cabedal preto, com um decote mais do que generoso) entrou com um candelabro na mão.
Em passo lento e coleante, foi-se aproximando de uma série de velas. Curiosamente, Dick nem tinha reparado nas velas, que estavam por trás do sofá, junto da marquesa. Uma a uma, Bruna foi dando à luz e dois minutos depois estavam as 16 velas acesas.

Depois chegou-se a Dick e deu-lhe dois beijinhos nas bochechas:
— Oi, tudo bem? Bruna... prázê...
Dick gargarejou para fora da boca qualquer coisa parecida com dois roncos de timidez, embrulhados no mais puro deslumbramento.
— Muito prazer... Hard, Dick Hard...
Bruna tomou-o pela mão e levou-o para a marquesa. Despiu-o. Fê-lo deitar-se de costas. Depois amarrou-o com fitas de seda. Dick ficou todo nu, expectante, com a cabeça ligeiramente levantada, assente numa almofada, de forma muito confortável.
Nessa altura, um ecrã em frente da marquesa deu início à programação. Que era, nem mais nem menos, o show ao vivo que Bruna lhe ia proporcionar. Uma série de câmaras, disfarçadas no gabinete de forma perfeitamente competente, iam captando vários planos do strip-tease de Bruna Brasil.
Dick suava como se lhe estivessem e enfiar mostarda pelo pacote acima. Ai, meu rico coração! Olha que preparos! Era o sorriso de Bruna a saltitar de meiguices, era um grande plano dos seios (ai, que me dá uma coisa e me fico aqui), um longo passeio pelas pernas abaixo, pelas pernas acima (ai, ai, ai...ainda acabo por terminar antes de começar), sabe-se lá que mais...
Bem, até se sabe. Bruna ficou toda nua (aí uns 15 minutos depois, que tortura mais suave) e subiu para a marquesa. Percorreu todo o corpo de Dick a golpes de lambidela e depois meteu na boquinha acolhedora o membro hirto do senhor Hard.
Estava nisto há uns 20 segundos, não mais (e o ecrã a dar tudo em grande plano, o melhor era fechar os olhos, era cedo demais para ir ao Paraíso) quando começou a tocar uma sirene.
Dick ficou parvo. Bruna levantou a boca do coiso de Dick, arregalou os tímpanos, vestiu uma expressão decidida no rosto e saiu a correr do gabinete:
— Outra vez! É a terceira vez esta semana! Alarme de incêndio! Corra! Temos de sair. Venha para a recepção!
Venha para a recepção?!? Então a chavala deixa-me aqui amarrado, sai embrulhada num robe e eu fico aqui tipo cobaia de grelhador, se isto estiver mesmo para arder?
O ecrã desligou-se, adeus música suave, adeus velinhas, acenderam-se as luzes todas. Foi-se a magia. Dick tentava desesperadamente desamarrar-se quando três monstros culturistas entraram no gabinete:
— És o Dick Hard?
Dick desconfiou que nada de bom estava para lhe suceder e por isso saiu-lhe a resposta da praxe:
— E se fosse? Quem quer saber?

À noite, no bar “Afoga-Desgostos”, do seu amigo Adérito, Dick contou tudo em pormenor, porque ele e Adérito já tinham passado por muitas:
— Foda-se, Adérito! Ganda melão. A gaja a fazer-me um bico de luxo, eu no Paraíso, um dia do caralho. Depois a puta da sirene a tocar, entram os três culturistas, paneleiros do caralho, e põem-se a perguntar se eu sou o Dick Hard. Eu respondo assim um bocado envinagrado, eles vão-se-me ao casaco, tiram a carteira, confirmam que sou mesmo eu e vá de embute. E eu ali amarrado. A cabrona da seda é mais resistente do que se pensa. De qualquer forma, elas eram três elefantes e apanharam-me numa altura má...
— Mas tens a certeza que a coisa foi planeada?
— Meu, estou convencido de que a Lolita não teve nada a ver com o assunto. Nem o centro de estética. Aquilo foi estudado. O cabrão do ex-marido da miúda deve estar a vigiá-la há colhões de tempo. Viu-me a entrar, deve ter chamado os gorilas, a história de eu ter ido para a sessão só facilitou. Tocaram o alarme de incêncio, aproveitaram a confusão e serviram-se. Na volta, apertaram os gasganetes à miúda da recepção e ficaram logo a saber onde eu estava.
— Dick, sabes que eu te digo sempre o que tenho a dizer. Já te tinha avisado dos perigos dessas cenas de vigilâncias de adultério...
— Man, é a minha vida...
— O gajo foi porco, essas merdas não se fazem. Se queria, marcava um homem-para-homem contigo. Até aceito que mandasse uns chavais darem-te um correctivo, afinal perdeu a mulher à tua conta...agora o que ele te fez...
— Palhaço de merda. E logo os três. A Bruna Brasil só voltou passados uns 45 minutos e deu com a marquesa toda cheia de sangue...
— Ainda te dói muito o rabo?
— Foda-se, Adérito! O kékachas? Foram 35 pontos no hospital...
— Man, deves ter batido o recorde da Laura Diogo com o Reinaldo...
— Isso foi boato.
— O tanas é que foi!
— Tá bem, merda! Dá aí mais um vodka...a Bruna era tão bonita...logo vi que era bom demais...
— Sabes porque é que as tuas histórias acabam sempre mal?
— Porquê?
— Para o Luís Graça não ser acusado de machista, como a Gotinha.







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