Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

quarta-feira, setembro 19, 2007

GANDAS ORDINÁRIOS: FECHARAM A “PREMIÈRE”





É ao som dos meus amigos do Dixie Gang (Pimenta da Terra, Live, Valado de Frades) que escrevo esta crónica.
Porque faz todo o sentido celebrar a morte da “Première” com uma marching band. Os funerais em New Orleans podiam ser uma celebração do que de bom o falecido tinha alcançado.

Sou português, escritor, 45 anos. Não me chamo Bernardo e não sou de Santarém, mas vou pegar o touro pelos cornos. Preparem-se porque vem aí “bernarda”, ao som de “Bourbon Street Parade”. E talvez esteja mesmo no bourbon (bebido em doses industrais) o segredo para compreender o encerramento da “Première” a quatro número de chegar à centésima edição.

É preciso estar muito bêbedo, muito drogado ou ser muito incompetente para fechar a única revista de cinema que existia neste pequeno rectângulo à beira-mar plantado.
É preciso estar muito bêbedo, muito drogado ou ser muito incompetente para desaproveitar uma equipa da qualidade da “Première”, começando pelo director José Vieira Mendes, prosseguindo no redactor principal Luís Salvado e continuando no resto de uma equipa que todos os meses se esforçava, com paixão, para dar o melhor possível ao leitor.

É isso que vos falta, senhores: paixão. Falam de globalização, falam de “a vida é assim”, “os tempos mudaram”. Em verdade, em verdade vos digo: quando os vermes estiverem a comer o vosso corpo putrefacto, gostava de saber para que vos serviu a globalização, a implementação, o dowsizing, a deslocalização, a descontinuidade. O vosso problema é este: não gostam de cinema, não sabem falar português e preocupam-se mais com a gravata que vão usar ao almoço do que com as estreias da semana.

Para vós, cinema é pipocas e Coca-Cola, é bidões de jovens que se desabituaram de pensar e que gastam mais dinheiro nos produtos derivados do que nos cinemas. Para vós, cinema é um produto.



Senhores: vós desrespeitais os leitores; vós desrespeitais a equipa da “Première”, vós desrespeitais o serviço público que é manter a única revista de cinema existente. Plataformas digitais? Net? Não brinquem comigo. Citando o meu amigo Miguelanxo Prado, glorioso autor de BD, arquitecto e homem de bem “se pudesse levar o computador para a praia ou para o jardim, tudo bem”.

Não dá lucro? Como não dá lucro, com os números que são apresentados no PÚBLICO pela voz do editor José Vieira Mendes?
Se não dá, é porque o vosso filme é outro. Tendo um “produto” bem distribuído, recheado de potenciais sinergias, com uma equipa dedicada e de alto gabarito, como é que CONSEGUEM que não dê lucro?

O fim da “Première” americana em papel é grotesto; o zumzum do fecho da “Première” francesa é assustador, o fim da “Première” portuguesa é um escândalo.

Não se trata as pessoas como sacos de lixo que se colocam à porta da Luís Bívar, para serem removidos pela camioneta do lixo, de madrugada. Por mais argumentos que adiantem, só vos posso dizer: sois mais do que medíocres, sois vocações naturais para a incompetência. Sois os vossos piores inimigos. Não sabeis o que fazeis. Pior: nem existe no vosso espírito a menor suspeita. E suspeito mesmo que nem sequer sabeis o nome do realizador de “A suspeita”. Vós apreciais outro tipo de comboios. O comboio das aparência, o comboio das reuniões depois do almoço, o comboio dos sorrisos amarelos.

Vós sois um cruzamento de Frankenstein com Pedro Santana Lopes: monstros da “gaffe”, titubeantes nos passos desajeitados, inventores de razões para ir com a maré.

Sois felizes? Se sois, é porque não gostais de cinema.

Quem está a mais no cinema não é a “Première” e a sua Redacção. Sois vós.



Sou muito devedor da “Première”. Primeiro, da francesa. Depois da portuguesa. Porque não deve ter havido um único artigo sobre cinema que tenha escrito para a revista de bordo da Portugália (PGA Magazine) sem pedir um conselho ao Luís Salvado, sem ouvir uma opinião do José Vieira Mendes. O Luís Salvado poupou-me horas e horas de buscas na Net. O Luís Salvado em 30 minutos dizia-me tudo o que eu precisava de saber.

Sou muito devedor ao Luís Salvado por todo o empenho e dedicação que colocou na semana em que organizámos o “Filotoon”, um festival de cinema de animação que decorreu de 7 a 13 de Outubro de 2002 na Sociedade Guilherme Cossoul. Todos gastámos o nosso dinheiro e o nosso tempo: eu, o Luís Salvado e o Gastão Travado.
E ganhámos mais uma gloriosa memória da nossa amizade. Comigo a sair de casa em cima da hora das sessões, porque a selecção de voleibol de Portugal estava a fazer um brilharete no Mundial.

Sou muito devedor ao Luís Salvado por me ter apresentado ao Michel Picha, há meses, no Maria Matos, a seguir à projecção da sua última longa-metragem de animação. E por ali ficámos durante duas horas e meia, a falar de cinema, a falar de Hergé, a falar da vida.

Conheço o José Vieira Mendes há mais de 20 anos. Conheço o Luís Salvado há pouco menos do que isso. Claro que sou amigo deles, mas isso não influencia o que escrevo. Vós haveis desaproveitado a qualidade, a troco não se sabe bem de quê.

Tende a decência de me processar, para eu ter o prazer de aparecer em tribunal com António Garcia Pereira, se ele tiver tempo e paciência de aturar um antigo aluno numa causa tão “pequenina” como esta.

E podeis ter a certeza de que vou levar muito tempo a falar.



Deixem que vos confesse uma coisa: sou da fornada 1975/1980 do Liceu Camões; sou neto do comandante Ayres Nunes, que saía da barra da Ilha de Moçambique a dar com um estoque na cabeça dos tubarões que seguiam na esteira da lancha que ia recolher os náufragos dos navios afundados pelos U-Boat alemães. Mas se eu vos falar de Wolfgang Petersen vocês pensam em cinema e em submarinos? Ou acham que é um novo modelo de uma aparelhagem da Bang and Olufsen?

Haveis acabado com a “Première”. Haveis acabado com considerável parte da vossa dignidade. E dai graças a Deus por Eduardo Prado Coelho ter falecido. O seu “Fio do Horizonte” por certo vos reduziria a estilhas. Eu disse estilhas, não disse pastilhas. Parem de pensar nos produtos que podem vender nos bares dos cinemas.

Pensem cinema!
Sabeis quem foram os irmão Lumière? Suspeitais?
Eu suspeito que nem com Thomas Alva Edison e os Lumière bem juntinhos havia luz suficiente para abrir o vosso espírito.

Acabar com uma revista é fácil. Tão fácil como acabar com a vossa dignidade. E nem vos conheço. E se pensarem em me chamar nomes, não se esqueçam que a Dra. Cristina Rosa me entrevistou para chefiar um dos vossos projectos em finais dos anos 90, já num processo de selecção final.
Não devo ser assim tão bronco e ressabiado.

Porque não fui escolhido? Porque não avancei com uma proposta financeira. Porque é muito possível que tenham arranjado uma pessoa mais indicada. Porque a “Première” ainda não existia na altura e a “Quo” não era propriamente “my cup of tea”. E eu não tinha filhos para criar.

Eu hoje estive na sala de Redacção da “Première”. E assisti a uma enorme lição de dignidade dada pelos presentes. Uma serenidade enorme, um espírito de dar o máximo até ao fim. Meus senhores, eu aposto dobrado contra singelo de que vendem 100 mil exemplares da “Première” numa semana, no número de Outubro. Se se derem ao trabalho de fazer essa tiragem.



Eu sei que se os deixarem, o José Vieira Mendes, o Luís Salvado e o resto da equipa vão fazer um último número a todos os títulos memorável. Mas se calhar não há interesse nisso.

Viva o Cinema! Viva a “Première”! Abençoados os pobres de espírito, porque é deles a noite da 24 de Julho e não vão para o King Triplex, a Cinemateca ou para o Quarteto perturbar as sessões de quem gosta de cinema.

Eu sei que o mundo está a mudar. Mas Dick Hard não é silenciável. Dick Hard é neto do comandante Ayres Nunes. Dick Hard leu muita BD. Dick Hard tem a fúria de Ardente em “A trompa de névoa”, Dick Hard tem a cabronice de Corto Maltese em “Fábula de Veneza”. Dick Hard tem tanto fascínio por cinema quanto Dirk Bogarde pelo pequeno marujinho.

O vosso espírito economicista está como os canais dessa Veneza pestilenta: à espera da morte. Adornado na Ponte dos Suspiros.

Meus senhores, chamo-me Dick Hard, para vos servir. À espada, à pistola, à estalada, à cabeçada no céu da boca. Aguardo que nomeiem o fantasma de Marlon Brando como vosso padrinho. Perceberam o trocadilho ou apenas conhecem a Angelina Jolie e o Brad Pitt?

Moro nas Avenidas Novas. Sou facilmente detectável e abatível.
Aproveitem agora, que eu estou de costas.

Mas a “Première” não conseguiram vocês matar. Ficou para a história do cinema em Portugal.

Não sou um leão, não sou uma estrela, não sou um leão ao vento, nem tudo o vento levou. Sou um homem que gosta de cinema e desabafou.

Calmamante. Vocês nunca me viram chateado. Furibundo, eu até sou homem para ver três vezes seguidas um filme de Manoel de Oliveira e simular que não doeu nada.

Sem rancores, deliciem-se com a vossa mediocridade. Já sei que o vosso sono não é perturbável por nada. Para isso era preciso ter consciência.

Dick Hard, 18/9/2007, no meu bunker das Avenidas Novas.



— Adolfo, Pequim já está a ferver?
— Não, os Jogos são apenas em 2008. Há tempo.

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