Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

domingo, setembro 16, 2007

Teatro

UM NATAL ESCALDANTE
OU
É NATAL, NINGUÉM LEVA A MAL


(Um Auto de Natal nas Seychelles)




PERSONAGENS:

Pai Natal — Um velhinho gordo e muito bêbedo, de nariz vermelhusco. Um gorro de Pai Natal na cabeça, botas de Pai Natal nos pés. Calções de banho à Pai Natal.
Menino Jesus — Atleta louro, de cabelos aos caracóis e olhos azuis, praticante de windsurf.
Diabo — Criatura subversiva, com um panamá na cabeça, por onde lhe saem os corninhos. Umas bermudas às florinhas.
Deus — Ser de longas barbas e uma túnica branca.
Belmira — uma stripper contratada.
Arménio — Proxeneta da Belmira.


por


DICK HARD





(Ilhas Seychelles. Areia e palmeiras em fundo. O Diabo está deitado numa rede, a ler a Playboy. O Pai Natal está sentado numa cadeira de praia, muito bêbedo, com um copo de Margarita numa mão, sonolento. Tem uma arca frigorífica ao seu lado. Deus está de volta de um grelhador, a assar salsichas. O Menino Jesus chega da água, com uma prancha de windsurf. Ouve-se música hawaiana)

MENINO JESUS — (a arrastar a prancha com uma certa dificuldade) — Ouve lá, ó Deus, podias dar aqui uma mãozinha...
DEUS (sem olhar para o Menino Jesus, a cuidar das salsichas) — Obrigado. Já não tenho idade para essas coisas...
MENINO JESUS — Não te faças de novas. Sei muito bem o que fizeste. És muito engraçadinho !
DEUS (a disfarçar) --- Sabes muito bem que não fiz nada.

(O Menino Jesus afasta-se e sai de cena, com a prancha. O Diabo pára de ler a Playboy e dirige-se a Deus)

DIABO — És terrível. Então isso faz-se ao Menino Jesus ?!?
DEUS — O que é que eu fiz ?
DIABO — Não te armes em sonsinho. Eu vi-te muito bem a abrir as águas quando o miúdo içou a vela. Coitado do puto, as miúdas todas a olhar e ele em seco.
DEUS — Oh, isso ! Uma brincadeira inocente. A praxe de Coimbra é muito pior. Já para não falar em Barrancos. Se o Menino Jesus é homem para fazer windsurf também é homem para aguentar uma brincadeira. É Natal, ninguém leva a mal.
DIABO — E depois eu é que sou mau.
DEUS — Não, sou eu !!! Quem é que meteu piri-piri na "Margarita" ali do velho ?

(Aponta para o Pai Natal, que está a ressonar como um porco. Faz-se uma pausa, para que se possa ouvir o ressonar do Pai Natal, severamente amplificado)


DEUS — Este "man" não acorda nem à lei da bala. Ele bebeu a "Margarita" com o piri-piri ?
DIABO — Que nem ginjas. Também já tinha despejado três minis, duas Super Bock e uma garrafa de tinto do Cartaxo. Mais piri-piri menos piri-piri vai dar ao mesmo.
DEUS (prova uma salsicha) — Eh! pá, mas dá um mau aspecto do caraças. Temos uma imagem a defender. Passam aí as pessoas e o Pai Natal ali a roncar que nem um lorde, todo esparramado na cadeira. Já viste o exemplo para os miúdos ?
DIABO (atira a Playboy para a areia, levanta-se, vai direito a Deus, tira duas salsichas e espeta-as nos corninhos) — Esta porcaria nunca mais está pronta. Tenho de meter isto na cabeça, para ver se despacho as coisas. E quanto aos miúdos, não te preocupes. Estás nas Seychelles. Isto é só gajas de mamas à mostra, não vale a pena preocupares-te com a moral.
DEUS — Desculpa lá, mas eu criei toda a gente nua. O mal foi a Eva ter desaquietado o Adão.
DIABO — Não sejas moralista. Deixa lá o velho beber uns copos. Nunca mais passo férias contigo ! Estava tão bem lá no Inferno. Ainda por cima iam lá tocar os "Iron Maiden" e os "AC/DC". Tu és todo cheio de nove horas, não deixas ninguém gozar as férias como deve ser.

(Faz vozinha de falsete)

"O Menino Jesus já fez a digestão? Ainda não pode ir ao banho. o Menino Jesus já penteou os caracóis? O Menino Jesus para aqui, o Menino Jesus para ali". Eh! pá, deixa o puto. És todo coisinho e depois pregas-lhe partidas indecentes.
DEUS — Desculpa lá, mas não te admito lições sobre a forma de educar o meu filho. Além do mais, tu foste expulso do Céu porque davas maus exemplos aos outros anjos. Se te convidei para vir passar férias com a malta foi só para fazer a vontade ao puto, que tinha saudades tuas. Mas se te começas a portar mal, fica sabendo que te lanço uma praga e te transformo em sapo.
DIABO — Ai que medo! Pensas que me metes muito medo? Era só esperar que uma gaja qualquer me desse um beijinho para eu me transformar num príncipe.

DEUS (dá outra dentada na salsicha) — Então está bem. Vai fazendo das tuas e depois queixa-te.
DIABO — Tu estás com a mania que és o Deus do Antigo Testamento. Não é nada disso. Estamos no século XXI, velho. É preciso acompanhar os tempos.
DEUS — Eu até já tenho e-mail, vê lá tu: http://www.Godsavethe wales.com.
DIABO — Isso não quer dizer nada. O Pai Natal, que é um velho bêbedo e carunchoso, também tem um e-mail.

(O Pai Natal acorda, estremunhado. Atira fora o copo, mete a mão à arca frigorífica, abre a tampa, tira uma lata de cerveja, abre a tampa, arrota grandemente, dá um gole, vira-se para o outro lado e adormece instantaneamente. Põe-se a roncar em stereo)

DIABO — Este gajo é uma autêntica esponja.
DEUS — O alcoolismo é muito triste. O homem ficou assim depois de um acidente de trenó, na Noite de Natal de há cinco anos.
DIABO — Não soube de nada.
DEUS — Passa aí umas cervejas que eu conto-te.

(O Diabo dirige-se à arca frigorífica do Pai Natal e tira duas latas de cerveja. Quando a tampa se fecha, o Pai Natal acorda e vira-se)

PAI NATAL — Ahn?!? O que é? Está na hora do jantar ? É mais um Jameson com duas pedras de gelo, se faz favor.

(Vira-se para o outro lado e volta a adormecer)

DIABO (leva as cervejas. Dá uma a Deus e bebe a outra. Vêm os dois à boca de cena, enquanto dialogam) — Está de todo.
DEUS — O homem sofreu o seu bocado. Como eu te estava a dizer, o tipo teve um acidente de trenó, há uns cinco anos. Ia a voar ali pelas bandas da Costa da Caparica, chocou com um disco voador cheio de marcianos. Ele não sofreu nada, mas uma das renas bateu de cabeça e ficou-se logo. As outras três ficaram perturbadas. Uma meteu-se na cocaína e até dava pena ver aquele nariz sempre a pingar. Não durou seis meses. Além do mais, caiu um pacotinho de cocaína no presente dos miúdos, numa chaminé...

DIABO — Ai ela ainda trabalhou um Natal?
DEUS — Pois, o acidente foi no Verão. Andavam a exprimentar uma melhorias que tinham feito no trenó. Das renas que sobraram, uma meteu baixa psiquiátrica e a outra ficou-se com uma cirrose. E o Pai Natal começou a beber também. Até hoje.
DIABO — Isso é uma história dos diabos!
DEUS — O quê, também têm disso, lá no Inferno?
DIABO — Não, foi força de expressão. Mas bebe-se bastante, por acaso. Sabes como é. O calor puxa. E depois é tudo malta com muitos pecados. Puxa à bebida.
DEUS — No Céu também andam a fazer abaixo-assinados. O movimento mais forte é o S.P.T.
DIABO — O que é isso?
DEUS — É um grupo de pressão favorável à sangria. "Sangria Para Todos".

(O Menino Jesus regressa à cena, a ler uma revista de surf)

DIABO (para o Menino Jesus) — Então, ó puto, tens engatado muitas gajas?
MENINO JESUS (distraído) — O quê?!?
DIABO — Gajas, miúdo, gajas !
MENINO JESUS (baralhado) — Gajas, o quê?
DIABO — Ai, valha-te Deus, que é como quem diz, valha-te o teu pai. Estás mais tenrinho que um bife do lombo depois de levar com o martelo.
MENINO JESUS — Não percebo nada do que estás a dizer.
DIABO (para Deus) — Ouve lá, o teu filho está um bocado envergonhado para a idade. Não achas que lhe devíamos arranjar uma miúda para ele se iniciar nas lides ?
DEUS (zangado) — Deixa o miúdo em paz. Não quero cá orgias infernais. Viemos passar o Natal às Seychelles para descontrair, não foi para armar confusão.
DIABO (persuasivo) — Mas qual confusão ! Isto não dá confusão nenhuma. Miúdas giras é o que não falta por aí. Talvez haja uma ou duas que não interessam nem ao Menino Jesus, mas o resto é tudo material de primeira.


MENINO JESUS (volta a sair de cena, aborrecido com a conversa) — Vou mas é ler a minha revista de surf. Vocês só têm conversas porcas.
DEUS (surpreendido, para o Diabo) — Estás a ver isto ?!? Tu é que estás para aí a dizer baboseiras e o meu filho vira-se contra mim.
DIABO — A culpa é tua. Reprimes o miúdo em demasia. Eu sei que não dou o exemplo, mas a tua forma de ver as coisas é demasiado exagerada. O miúdo está a precisar de ir à tropa, para se fazer um homem. Onde é que já se viu ? Está todo apanhadinho pelo surf, não liga às miúdas...
DEUS — Não te preocupes com isso. As coisas acontecem quando tiverem de acontecer. Além do mais, sou contra a tropa.
DIABO — És é um grande hipócrita. E o Serviço Celestial Obrigatório?
DEUS — Só te fez bem.
DIABO — Duvido muito. Seis meses a ir à missa todos os dias, a entoar salmos, ajudar as velhinhas a atravessar a rua. O pior de tudo foi a semana de campo, passada na Assembleia da República, a dar apoio espiritual aos políticos.

(Ouve-se um arroto monstruoso. O Pai Natal acorda. Levanta-se da cadeira, espreguiça-se. O palco fica todo escuro, com um holofote a incidir exclusivamente sobre o Pai Natal. Ouve-se "Noite Feliz". O Pai Natal dá saltinhos a ritmo, de um lado para o outro do palco. Dois minutos depois, a luz regressa. Deus e o Diabo estão à volta das salsichas)

PAI NATAL — Então, esse jantar, é para hoje?
DIABO (tira uma salsicha dos corninhos e come-a) — Aqui não há criados. Queres jantar, ajuda na cozinha, ó chulo das crianças !
PAI NATAL (irritado) — Ó Diabo, tu não me irrites! O que é isso de estar a chamar-me chulo das crianças?
DIABO — É o que tu és, minha esponja bêbeda equipada à Benfica. Tanta fome no Mundo, tanto analfabeto...e o que é que tu fazes uma vez por ano? Vais distribuir brinquedos. Abre os olhos ! Para que é que servem os brinquedos na Etiópia? Devias era arranjar fundos da UNICEF, para acabar com a pobreza. Os miúdos querem lá saber dos presentes.
PAI NATAL (abraça-se a Deus, a chorar. Deus faz-lhe festinhas na cabeça) — Não é verdade, não é verdade. Ele está a mentir, não está?
DEUS — Está, pois. Deixa lá que ele é mau. Vai para o Inferno, quando acabarem as férias.


PAI NATAL (voz de miúdo birrento, para o Diabo) — Mau, vais para o Inferno.
DIABO — Isso dá-me cá um abalo do pífaro. Não me aquece nem arrefece.

(Regressa o Menino Jesus, com outros trajes. Vem de camisa às florinhas, bermudas às florinhas e uns ténis)

MENINO JESUS (para o Diabo) — Já há jantar?
DIABO — Mau, agora o puto também pensa que eu sou a sopeira de serviço. Olha lá, enquanto tu andas a fazer surf, há pessoas a trabalhar para ti. Vê lá mas é se tens juízo...
MENINO JESUS (muito queque, embaraçado e humilde) — Desculpe, tio. Não queria ofender. É que a fome já vai apertando.
PAI NATAL — Tenho sede.
DIABO — G'randa bêbedo ! Passou a tarde toda a mamar e a roncar, mal acorda já está com sede. Velho inútil. Chulo das crianças !
PAI NATAL (dirige-se ao Diabo, perturbado e começa a desabafar) — Madraço! Palhaço! Não sabes o que custa a vida. Com sete anos já eu andava nos Restauradores a vender balões às crianças. Sou órfão de pai e mãe. Trabalhei nas minas da Panasqueira, embarquei para a Noruega, na pesca do bacalhau. Tu não sabes o que custa a vida. Não cheguei a Pai Natal à custa do nome de família. Dei no duro. Tudo o que tenho saiu-me do corpo. Palhaço !
DIABO (levanta-se, vai direito ao Pai Natal, encosta-lhe a cabeça à fronte, dá-lhe uma turrinha à futebolista) — Vê lá se não te dou com os cornos ! Não te admito que me insultes, estás a ouvir, ó velho carunchoso?

(Menino Jesus mete-se no meio, a separar. Nesse momento chega uma miúda toda boazona, chamada Belmira)

BELMIRA (voz insinuante) — Desculpem. Eu não queria incomodar. Este é que é o bungalow 666?
DIABO — Sim, porquê ? Posso ser-lhe útil?
MENINO JESUS (para ela) — É a menina Belmira, não é?
BELMIRA — Foste tu que me chamaste, fofinho?
MENINO JESUS (dá-lhe dois beijinhos na face) — Exactamente. Tenho o prazer de te apresentar o Pai Natal...
PAI NATAL — Desculpe, não tenho prenda nenhuma para si. Não me avisaram que havia visitas...
BELMIRA — Ora essa! Eu é que sou o vosso presente de Natal, não é, querido? (para o Menino Jesus)
MENINO JESUS — Nem mais. Este senhor aqui de barbas é o meu pai, mas podes tratá-lo por Deus. E aquele ali de panamá e corninhos ao sol, tipo caracol, é o Diabo.
BELMIRA — Olá, simpático.
DIABO (aproximando-se do Menino Jesus e segredando-lhe) — Olha lá, pelo preço que combinaste achas que dá direito a uma geral?
MENINO JESUS — Ó tio, não é nada disso. A Belmira veio só para fazer um showzinho de strip e nada mais. Só para tirar um pouco da melancolia da noite, estão a perceber?
PAI NATAL — Eu quero é ponche! Quero ponche no sapatinho!
DIABO — Os cornos do meu pai é que tens ponche. Não bebes mais nada hoje, odre das antiguidades.
DEUS — Por amor de mim, parem já com a discussão, que esta menina até fica mal impressionada connosco. Então, qual é a sua profissão, se me é permitido perguntar?
DIABO (para o Menino Jesus, em surdina) — O teu pai ainda não percebeu nada, pois não?
MENINO JESUS (para o Diabo) — Não te preocupes, que não demora nada.
DIABO — Vai ser bonito.
BELMIRA (para Deus) — Eu tiro a roupa.
DEUS — É alfaiate ?
BELMIRA — Não é bem.
DEUS — Costureira?
BELMIRA — Quase.
DEUS — Estilista?
DIABO (para o Menino Jesus) — Lá estilo não lhe falta, lá isso é verdade.
DEUS — Desisto.
DIABO (provocador, para Deus) — Tens a mania que sabes tudo.
DEUS (para o Diabo) — Cala-te. A conversa não chegou à cozinha.
BELMIRA — Eu sou uma striper.
DEUS — É uma... striper. Aqui? Nas Seychelles, onde toda a gente faz topless? Qual é a lógica?
BELMIRA — Foi o seu filho que me contratou, para alegrar a noite.
DEUS (para o Menino Jesus, fazendo um gesto imperioso) — Ó filho, chega aqui, se faz favor.

(O Menino Jesus aproxima-se, surpreendido e leva logo um estalo. Deus põe um dedo à frente do nariz e admoesta-o)

DEUS — O que é que eu te disse sobre o dinheiro mal gasto? O que é que eu te disse? Em segundo lugar, quem é que pediu para contratar uma striper? Esta noite é dedicada à família. Temos de estar todos juntos. Foi o cabo dos trabalhos para nos juntarmos e tu fazes logo isto. Deixei o S. Pedro aflitíssimo no Céu, praticamente sem pessoal, o Diabo deixou o Inferno sem ar condicionado, o Pai Natal só vai distribuir os presentes amanhã e o menino contrata uma striper, uma estranha, numa noite tão especial?
BELMIRA (embaraçada, para Deus) — Desculpe, eu não queria causar incómodo. O melhor é ir-me embora...
DEUS (agarra Belmira por um braço) — Não vai nada, a menina não tem culpa nenhuma. O meu filho é que é um desmiolado. A menina vai fazer o seu trabalho, com toda a dignidade. Mas o meu filho vai amargá-las.
(Para o Menino Jesus)
Olha lá, posso saber como é que pagaste à menina?
MENINO JESUS (cabeça baixa, muito comprometido) — Passei lá pela Tesouraria e pedi um adiantamento.
DEUS — E quem é que deu o adiantamento ao menino, quem foi?
MENINO JESUS — Foi o S. Tomé.
DEUS — Ó pá, isto é ver para crer! E o S. Tomé deu-te o adiantamento sem mais nem menos?
MENINO JESUS — Eu disse que era para fazer um grande festival de windsurf natalício e ele colocou na rubrica "diversos".
DIABO — Nós temos uma ilha nas Caraíbas só com empresas da tanga, para limpar dinheiro. Evitam-se estas confusões todas.
BELMIRA — Ai, não discutam mais por minha causa. Nem me sinto bem.
DEUS — Tem muita razão. Já acabou. Quando quiser, pode começar o seu trabalho.

(Deus, o Menino Jesus, o Diabo e o Pai Natal sentam-se nas cadeiras. Belmira começa a tirar a roupa, ao som do coro infantil de Santo Amaro de Oeiras: "Pra todos um bom Natal, pra todos um bom Natal, desejo um bom Natal, para todos nós". Belmira acaba o strip e Deus põe-lhe uma manta pelas costas)

DEUS — Ponha lá qualquer coisinha em cima de si, que isto à noite arrefece um bocadinho.
PAI NATAL — Por isso é que convém tomar um groguinho, está a ver?
DIABO — Cala-te, semáforo alcoólico!
BELMIRA — Então, então, o meu strip não os pôs mais bem dispostos?
MENINO JESUS — Então não pôs?!?
PAI NATAL (bêbedo, levanta o braço em sinal de virilidade) — Isto um gajo quando é novo...
DEUS — Olhe, tenho pena de a deixar ir sozinha pela noite fora. Porque é que não passa o Natal cá com a gente?
BELMIRA --- Muito obrigada. Não estava à espera. Nem sei o que dizer.

(Sentam-se todos à volta de uma fogueira. Ouve-se a música: "Os meninos à volta da fogueira...")

DIABO (para Belmira) — Quer dizer, isto nem na noite de Natal é dia de folga, pelos vistos?!?
DEUS (para o Diabo) — Não sejas malcriado, mafarrico de uma figa. A menina Belmira é nossa convidada.
DIABO (para Belmira) — Ó menina Belmira, não me diga que se ofendeu...
BELMIRA (sorridente, para o Diabo) — Não, não...esteja à vontade. Uma mulher com a minha profissão está habituada a ouvir tudo. E cara alegre.
MENINO JESUS (tentando moderar o Diabo) — Ó tio, veja lá se consegue ser um bocadinho decente com a Belmira, está bem?..
DIABO (chateado) — Sou sempre eu, sou sempre eu...uns são filhos, outros são enteados...

PAI NATAL (a gritar, de um momento para o outro) — Quero ponche! Quero ponche! Quero ponche! Hoje é noite de Natal ou não é ? Que merda de noite de Natal é esta em que não há ponche?
DIABO --- Ai, o caraças! O raio do velho está de todo. Pensei que estava quase a dormir, voltou a dar-lhe! Queres o quê, ó reservatório sem fundo?
PAI NATAL (levanta-se, a esbracejar) — Ponche! Ponche! Ponche!
BELMIRA (muito estúpida) — Um cliente meu tem um carro desses. Um Ponche 911 S, um bocado antigo, mas muito bonito.
PAI NATAL (olha para Belmira, espantado) — Isso bebe-se? (desequilibra-se e cai no colo de Belmira)
DIABO (para Menino Jesus) — O velho está a fazer-se mais bêbedo do que está. (Depois, para o Pai Natal) Ó velho, table dance é paga à parte, não aproveites para roçar as bermudas na menina, estás a ouvir ?
PAI NATAL (volta a levantar-se e desata a saltar a pés juntos, furioso) — Ponche! Quero Ponche!
DIABO (levanta-se e vai buscar uma garrafa, que dá ao Pai Natal) — Levas uma Super Bock morna e já vais com sorte, para ver se te calas. Porra que o homem é chato!

(Entra em cena o proxeneta de Belmira, ARMÉNIO de seu nome. Usa um chapéu à Humphrey Bogart, um bigodinho ralo, um palito nos dentes. Casaco branco, calças pretas, camisa branca, gravata vermelha, sapato preto bicudinho, envernizado. Nos dedos, uma data de "cachuchos". Andar gingão e modos desafiadores e rufias)

ARMÉNIO — Desculpem lá, isto aqui é que é as ilhas Seis-Reles?

(Ficam todos espantados a olhar para ele. Niguém responde)

ARMÉNIO (ar de "pintas" ) — Ai que isto começa mal, ó bacanos! Para já, estão aí no bem-bom com a minha funcionária e eu não tenho népias nartol nos bolsos. Para começar, tá mal. Vamos ver se a gente endireita as coisas já, para esta janaria toda não dar porcaria.

(O Diabo levanta-se e dá uma cabeçada no Arménio, que cai para o solo e desata num berreiro, a fazer-se de vítima)

ARMÉNIO — Ai a minha cabecinha! Ai a minha cabecinha! Coitadinho de mim que sou um infeliz. Toda a gente me quer fazer mal e eu que sou incapaz de fazer mal a uma mosca. Venho dar com a minha namorada no meio duma festa e sou logo agredido. Eu vou matar-me! Eu vou matar-me!
BELMIRA (levanta-se e vai acariciá-lo no solo, preocupada) — Ai, estás bem, amor? Magoaram-te muito?
DIABO (mãos nos bolsos, ar enfastiado) — Foi só uma marradita de nada...
ARMÉNIO (para Belmira) — Também não vales nada, Belmira. Vieste esfolar uns cabritos para as ilhas Reles e faltaste ao caldinho que eu tinha preparado em Fornos de Algodres, para os amigos...
BELMIRA (carinhosa, a afagar Arménio) — Ó amor, não foi por mal, mas sabes que esses teus amigos nunca pagam nada e passam a noite toda a apalpar-me e a mandar bocas foleiras. Amor, isso não é Natal, não é nada...e sabes que tenho de estar em forma para a noite do "ribeirão"...
ARMÉNIO — Qual ribeirão, qual carapuça! É "réveillon" que se diz, minha ignorante. Tu nem sabes que Paris é a capital da França!
BELMIRA (ofendida) — Sei, sim senhor. Até falam lá todos francês e tem aquela coisa muito grande, a Torre de Fel.

(Arménio levanta-se, tentando readquirir a dignidade. Belmira sacode-o. O Diabo aproxima-se, só para gozar, mas Arménio está desconfiado)

BELMIRA (voz meiga, para Arménio) — Ó Armeninho, não vale a pena zangares-te, que estes senhores são gente de bem. Vê lá que nenhum deles me tentou apalpar. Ofereceram-me a ceia da noite suada e uma manta para me cobrir, depois do "show". Olha, ali é o Menino Jesus, que foi quem me contratou, o papá dele, que é Deus, o senhor Diabo e o senhor Pai Natal...
PAI NATAL (aproxima-se de Arménio, que continua desconfiado. O Pai Natal abraça-o e Arménio protege a cara, com os braços, receoso) — Dá cá um abraço. És cá dos meus. Por acaso não tens ponche, pois não?
ARMÉNIO (perplexo, para Belmira) — O que é que ele quer?
BELMIRA (encolhe os ombros) — Quer um carro. É de telhas... tem estado toda a noite nisto. Não ligues, que ele está um bocadinho bêbedo.

PAI NATAL (exasperado) — Bêbedo são os cornos do teu pai, ouviste, ó vaqueira...remadora...rameira, rameira é que é ! És uma rameira e tu és um chulo, ó Adérito. E podes levar as duas gémeas contigo. Não valem uma orelha das minhas falecidas renas, estás a perceber ?
ARMÉNIO (baralhado) — Renas, mas quais renas? O bacano tem renas a render?
MENINO JESUS (conciliador, para Arménio ) — Ó senhor Arménio, não vale a pena estar a arranjar problemas numa noite tão bonita. Porque é que não se senta e toma uma bebida connosco, para descontrair?
PAI NATAL (quer ir bater a Arménio, mas o Menino Jesus agarra-o) — Não bebes mas é nada, meu g'anda cabrão! Não trazes ponche, não bebes nem mais uma pinga. Vai beber para a tua adega, ó labrego! Eu estou aqui muito sossegado e não gosto do teu focinho. Hoje é Páscoa e eu quero licor de ovo ! Quero ponche! Quero ginginha! Quero...

(Pai Natal adormece de repente e cai para cima de Belmira, a roncar. Ouve-se novamente o ronco supersónico, desta vez ainda mais amplificado)

BELMIRA (pede ajuda a todos, quer ver-se livre do Pai Natal) — Ai quem me ajuda? Ele é tão pesado...
DIABO (continua a um canto, muito chateado, de mãos nos bolsos) — Ainda dizem que o álcool se evapora...
BELMIRA (atira o Pai Natal para o solo) — Livra! Isto não é tudo álcool. Há p'ráqui muita carne!
DIABO (chateado, para Deus) — Mania de vir passar o Natal para as Seychelles, só podia dar barraca. A esta hora podia estar no quentinho do Inferno, eu e as minhas labaredazinhas...
DEUS — O que é que eu tenho a ver com esta confusão toda?
DIABO — Ora! Se és omnisciente, omnipotente e omnipresente tens as pastas todas dos problemas. Tudo é contigo!
DEUS — Essa é uma bonita maneira de ver as questões, não haja dúvidas.
DIABO (muito convencido) — Eu cá não tenho dúvidas nenhumas.

(Belmira e Arménio retiram-se)

BELMIRA — Se não me levam a mal, eu e o Arménio vamos andando...
DIABO — Vão pela sombra...
DEUS — Apareçam!
MENINO JESUS — Qualquer coisa, tem o meu contacto!
ARMÉNIO (entredentes, para Belmira) — Vamos embora, antes que o bêbedo acorde e o outro me dê uma marrada.

(Saem. Menino Jesus, Deus e o Pai Natal voltam a sentar-se ao pé da fogueira e ficam a dialogar filosoficamente)

MENINO JESUS (para o Diabo) — Ó tio, para si o que é o Natal?
DIABO — O Natal é o grande encontro dos povos.
DEUS — Não, senhor. Isso são os Jogos Olímpicos e o Mundial de Futebol, que são de quatro em quatro anos. O Natal é todos os anos.
DIABO (malicioso, tentando apanhar Deus em contradição) — Explica lá uma coisa. Se o Natal é quando um homem quiser, não és tu que podes fixar a data...
DEUS — Vê-se mesmo que não queres perceber o significado da frase.
DIABO — Então explica-me.
DEUS — O Natal deve ser todos os dias.
DIABO — Isso era óptimo para o comércio. Aliás, quando o Pessoa dizia que o melhor do Mundo são as crianças estava a cometer uma grave imprecisão.
MENINO JESUS — Então porquê, tio?
DIABO — Já viste bem todo o egoísmo que as crianças põem no Natal? Em primeiro lugar, são umas materialistas da pior espécie. Passam semanas a babar-se só a pensar no Natal. Depois, não possuem pinga de espiritualidade. Querem lá saber do nascimento de Cristo ! Depois, ficam todas invejosas dos brinquedos dos outros meninos. O Natal é um grande estímulo para a hipocrisia, para o surgimento de um espírito de liberalismo selvagem.
MENINO JESUS — Ó tio, quando eu nasci foi tão bonito. Eu na manjedoura, uma vaquinha e um burrinho a tratarem de mim...
DIABO — Se fosse na Alfredo da Costa poupavas na vaca e no burro...
DEUS — Tu gostas é de dizer mal. Devias ir para político.
DIABO — Safa! Farto deles estou eu, lá no Inferno. Não se pode dar um passo que aparecem logo aos pares. Agora andam em campanha, a concorrer para Satanás-mór, vereador das Superfícies Ardentes e governador do Departamento de Queimados, Marginalizados e Mal Pagos.

(Pai Natal acorda. Levanta-se, aproxima-se da boca de cena, espreguiça-se. Menino Jesus, Deus e o Diabo observam-no. O palco fica às escuras e um foco incide apenas no Pai Natal, que inicia monólogo final, com voz muito meiga, virado para o público em tom cúmplice)

PAI NATAL — Era uma vez um país onde todos os dias eram Natal. As pessoas não gostavam todas umas das outras, mas disfarçavam bem. Havia dias de chuva, mas a esperança do sol nunca morria. O Mundo não era perfeito, mas todos tentavam esquecer esse problema...

(Acende-se outro foco. Pausa. Pai Natal cala-se. Pouco depois, Arménio ocupa o lugar do foco)

ARMÉNIO (voz grossa e decidida, panfletária) — Não devemos ser chulos do Natal. O Natal é dar.
BELMIRA ("entra" para outro foco, aparece agarrada à cara) — O Natal é receber. Ai, amor, foste tão bruto...
MENINO JESUS (mais um foco) — O Natal sou eu.
PAI NATAL — E eu.
DEUS e O DIABO (em coro) — Então e nós?
PAI NATAL — Vocês têm o resto do ano. O Natal é um balde de ponche!

(O grande final. Menino Jesus canta "P'ra todos um bom natal"; Pai Natal canta "Jingle Bells"; Deus canta "Noite feliz, noite de paz". Dura dois minutos. Pára. Foco incide sobre Diabo, que canta Meat Loaf, do álbum "Bat out of hell" : In a hot summer night would you offer your throat to the wolf with the red roses ?. Diabo abana-se por todo o lado. Saem todos. Cai o pano. A assistência começa a aplaudir. Pausa de dez segundos. Sobe o pano. Aparece Belmira, sozinha, em playback de George Michael: "Last Christmas I gave you my heart, but the very next day you gave it away...". Arménio, Menino Jesus, Diabo, Deus e o Pai Natal chegam-se à boca de cena, dão as mãos e acabam a cantar: "É Natal, é Natal, e todos lá vão, vão comprar os seus presentes ao Conde Barão).


LAST CHRISTMAS - G...

Meatloaf - Bat Out...





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2 Comentários:

  • Às 6:53 da tarde , Anonymous Álvaro disse...

    Ó Luís, acho que tás um bocado acelerado. O Natal começa só em Outubro.

     
  • Às 12:07 da manhã , Anonymous Luís Graça disse...

    Resposta mais banal para o Álvaro:
    Natal é quando um homem quiser. E eu quis.

    Resposta mais elaborada para o Álvaro: há planos camarários para começar a celebrar o Natal no dia em que começa o Outono. Tal como Humberto Coelho ou outro grande "stopper" do futebol mundial, o truque é jogar em antecipação.

    Resposta que corresponde à realidade: nem sempre há cabeça para andar à procura das fotos para as reportagens do I Sexy 2007. Além do mais porque ficaram todas (400 e tal) metidas num só disco, com várias pastas.

    Nesse caso, recorro ao meu arquivo pessoal de contos e outras pérolas literárias. Agora apareceu-me à frente este texto teatral e pensei assim: porque não?

    O curioso da questão é que as pessoas pensam que eu ando a escrever imenso numa fase da minha vida em que não ando a escrever peças de teatro, não tenho nenhum romance planeado, nenhum livro de poesia lírica individual em perspectiva, nem tampouco contos ando a escrever.

    Tenho é escrito muito em workshops de teatro e também tenho correspondido na área das crónicas aos pedidos para o site (actualmente parado) "Cidades Crónicas" e, bem recentemente, para a revista "Os meus livros".

    E os poemas vão saindo.
    Obscenos ou líricos.

    Ainda assim, brevemente sairá mais um livro de contos. Já estão todos publicados aqui no Ganda Ordinarice:"Dick Hard, detective privado, Agruras & Azares, Lda".
    Mas será uma edição muito reduzida, para coleccionadores, para não ficar "agarrado" financeiramente.

    Basicamente, será para eu ficar com os contos em forma de livro. E mais uns cem amigos.Nem sequer haverá distribuição pela Comunicação Social, salvo uma ou outra excepção. E mesmo essa, muito bem pensada.

    Mais tarde, de alguma editora se interessar, pode ser que haja uma segunda edição. Mas também podem ter a certeza de que terão de "pagar à cabeça".
    Estou a ficar mauzinho.

    E muito bonzinho em projectos colectivos com amigos. Nesse particular, há dois que tenho em grande consideração: um de poemas meus e do Jerónimo Nogueira, com fotos do Guilherme; outro que será a última edição da "Poetânea" (número 7), em que participarei com prosa, daqui a uns meses.

     

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