Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

sábado, agosto 11, 2007

Contos do Dick Hard - IX

DICK HARD E OS FILMES DE TERROR

Dick Hard considerava-se boa pessoa. O facto de adorar filmes de terror não tinha nada a ver com o caso. Mas ele lembrava-se bem de que a sua mãe o advertia na sua tenra adolescência: “Ai, não percebo como podes gostar de filmes de terror. Que sádico!”.
Dick Hard respondia-lhe: “Isto é cinema. Sádicos são os gajos que ficam na estrada a ver os acidentados a esvair-se em sangue”.
Por acaso até era verdade. Hard só gostava de ver sangue no cinema.
Um dia, por mero acaso, andava a passear na Net e deu com um blog chamado “AfundaçãodasRosasPúrpuras.fodespot.bom proveito.come”.
Um miúda chamada Madre Mia confessou, num comentário a um post, que os filmes de terror a excitavam particularmente. O Dick ficou a coçar a cabeça um bom bocado. Olha! Afinal, os filmes pornográficos das meninas são os filmes de terror.
Mas o que se passa com as miúdas? Vêem um gajo a ser todo agatanhado pelo Freddie Mãozinhas-de-Tesoura e começam a ficar molhadas? Vêem o Cristóvão Lee às dentadinhas no pescoço das virgens e desatam a meter o dedo na grutazita? Vêem os piratas a rasgar o nevoeiro com más intenções e metem a mão na sarda do namorado? Pelo andar da carruagem, têm orgasmos múltiplos quando assistem à versão restaurada do “Nosferatu”, do grande Murnau.
E depois os homens é que são os tarados. Olhem bem para isto: um gajo anima-se quando vê gente na pantalha a ser feliz, quer dizer, a coiso-e-tal. Filmes pornográficos. Pois. Malta a ter sexo. Elas dizem que é estranho. Que está mal. Está-se mesmo a ver.
O que está bem é ficar excitado ou excitada a ver filmes de terror. Olha que porra! Os filmes de terror são para ter medo, não é para ficar excitado!
“Eu, quando estou com medo, perco a tesão toda!”, disse o Dick Hard para um amigo, numa noite de copos.
“Eu, quando vejo um filme de terror, arrepio-me toda. Mais do que isso só nos pré e pós-coitais”, disse a Madre Mia para a blogosfera.
O Dick Hard nunca levou uma namorada para o escurinho do cinema, a ver um filme de terror, com a intenção de se aproveitar dela. Pelo contrário, até levava camisas de manga comprida. Uma vez tinha assistido ao “Por favor, não me morda o pescoço”, do Polanski, e chegara a casa com os braços todos arranhados pela namorada. E era uma comédia de vampiros!

A partir daí, namoradas em filmes de terror, só com manga comprida. Mas qual sexo! Ele gostava de filmes de terror e queria ir ao cinema. As namoradas eram ciumentas e também queriam ir, porque não tinham confiança nele. Na volta, elas sabiam que havia miúdas que ficavam excitadas. Mas não era o caso das namoradas de Hard.
As namoradas de Hard ficavam com as mãos frias, roíam as unhas, agarravam-se ao Dick, suspiravam, ficavam com a boca seca. Sexo? Nada disso!

(Ouviu, sua Madre Mia?)

(Eu por acaso estou a ouvir ‘Cool velvet, Stan Getz and strings’. Só levei três anos até perceber que podia ouvir um CD e escrever no Word, tudo ao mesmo tempo. Sou uma vocação tecnológica nata. Quando acabar o CD — são 72 minutos — conto rematar o conto).

Um belo dia, Dick Hard conheceu uma prima de Madre Mia, chamada Mia Madre, que lhe entrou pelo escritório dentro com uma mini-saia da Mary Quant, muito “sixties”, em xadrez. E um par de “melões” de se lhes tirar o chapéu em Almeirim!
— Senhor Hard, o meu nome é Mia Madre, mas pode tratar-me por Mummy. Vim recomendada por uma amiga. O marido andava a traí-la e o senhor arranjou provas para o divórcio.
— Faça favor de se sentar, D. Mia Madre.
Mia Madre sentou-se de perna cruzada à Sharon Stone e sorriu com os dentes todos, por sinal bem bonitos:
— Trate-me por Mummy, por favor. Posso tratá-lo por Dick?
Hard começou a descontrair-se, a ver o filme:
— Mummy, ponha o meu Dick na sua boca as vezes que quiser.
Dick estava a ver o filme todo, mas nunca pensou que Mummy se irritasse com a lentidão dos filmes de Manoel de Oliveira e pegasse num comando virtual para um “fast mais-do-que-forward-que-se-faz-tarde”.
Quando deu por ele, Mummy estava de joelhos na carpete esburacada do escritório do Hard. E não tinha nada que ver com a eleição de Bento XVI.
Pode-se dizer que foi agradável, tirando a ‘boca’ final, sem más intenções, mas algo perturbadora:
— Ó Dick, soube-me tão bem. Mas pilinhas assim cabem-me na cova de um dente!
— Mas...Mummy, são 17 centímetros! É a média europeia, padronizada!

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Mummy era um caso de força. Uma mulher fatal nada fatela. Tinha começado a urdir a sua teia conspirativa. Levou Hard a comer uma “Banana Split”, depois de ter chupado a dele na cena anterior, como os leitores e leitoras puderam observar imaginariamente.
A ideia era esta: arranjar provas falsas para se poder divorciar do marido e sacar-lhe a nota. Fazia-se o que fosse preciso. Contratava-se putas, tirava-se fotos, ameaçava-se. Também havia o plano B:
— Mas, Dick, eliminá-lo meigamente, como por acidente, sem sofrimento desnecessário, é apenas um gesto de caridade. Afinal, ele tem 71 anos...
— Minha cara Mummy, o meu nome é Hard. Dick Hard. E nunca me meti num assado sem acabar cozido. Ou melhor, mais do que fodido. Estes contos são patrocinados pelo JB e a tradição ainda é o que era.
— Dick, você está cansado. Teve um dia duro. Eu sei. Ter um dia duro é hard como o caralho. Vamos ao cinema. Depois vamos jantar. E lá para a noitinha falamos melhor.
Dick franziu o sobrolho. Mas acabou por se deixar convencer. Mummy estava demasiado bem maquilhada para que ele pudesse resistir ao seu olhar. A instâncias de Mummy, acabaram a ver “The thing”, de John Carpenter. “Veio do outro mundo”, no título português. Uma coisa assim meio “Alien”, com um lavagante à solta a provocar baixas atrás de baixas.
Sempre que o bichinho aparecia, Mummy remexia-se na cadeira e emitia pequenos gemidos, nada parecidos com gemidos de pavor. Palavra de honra, a senhora dona Mia Madre, Mummy para os amigos, estava a ficar excitada como o cacete, para falar brasileiro corrente!
Sentados na última fila, não perturbavam nenhum espectador. Até porque os espectadores eram apenas Dick Hard e Mummy, numa sala obscura de subúrbio de Lisboa.
Mummy fez voar a mini-saia da Mary Quant. Mummy tirou o soutien e mostrou vaidosamente o seu magnífico par de seios amestrados. Mummy empalou-se em Hard sem meiguices. Mummy para cima, Mummy para baixo, Mummy a vir-se como uma vaca malhada em pleno cinema. E o lavagante a despachar gajos na tela, com quem bebe imperiais num final de tarde de Verão.

A transpiração a escorrer pelas costas de Hard, o ar condicionado avariado. E Mummy a vir-se como uma vaca malhada em pleno cinema. E o lavagante a despachar gajos porque sim, porque estava no argumento.
Vinte minutos depois, Mummy despegou-se de Hard, recuperou a roupa e a dignidade, sentou-se no seu lugar, deu um beijinho na testa de Dick e disse:
— Já estou melhor.
No ecrã, The End. Acabou o filme, acabou-se a papa doce. Não há mais terror para ninguém.
— Sabe, Dick, adoro ver filmes de terror. Mas é raro o dia em que consigo ver o filme até ao final. Fico tão excitada! Uma vez fodi um arrumador em plena plateia. Havia umas sete ou oito pessoas a olhar. Ele estava muito comprometido, até deixou rebolar a lanterna pela sala.
— E depois?
— Depois, uma miúda de trancinhas aproveitou para apanhar a lanterna e começou a masturbar-se com ela.
— Também devia excitar-se com filmes de terror.
— Não. Era conhecida de uma amiga minha. Vim a saber por acaso que ela gostou foi de nos ver a foder. Não teve nada a ver com o filme de terror.
— Que era?..
— Já nem me lembro. Acho que era o “Tubarão”.
Dick e Mummy estavam a sair do cinema quando um grupo de quatro homens mal encarados se aproximou e um deles exibiu um crachat a Dick:
— Boa-noite, nós somos da Polícia de Costumes e tivemos uma queixa de que os senhores teriam praticado sexo durante o filme. Confirmam e conformam-se?
— Mas que estado policial, kafkiano, orwelliano e pidesco é este? Já não se pode dar uma stickada em paz, na última fila?
— Meu caro senhor: para sexo existe o lar. O cinema é para ver filmes. E nem quero entrar em considerações de carácter moral. Que tipo de homem é o senhor para se excitar a ver filmes de terror? Eu vim com a minha mulher ver o “The thing” e tive de deixar o filme a meio, que ela se estava a sentir mal.
O diálogo nem estava mau de todo, para variar. Foi aí que Mummy se meteu na conversa:
— Tu tens cara de quem está mesmo a precisar de um bom broche!

(Então, menina Mummy! Por favor! Essa frase era dita em “Good morning, Vietnam”. Olhe o nível, por favor. Se quer ser ordinária, ao menos não plagie)

O agente da Polícia de Costumes não achou piada, mas ainda engoliu.
— A senhora vai manter-se calma, está bem?
— A senhora vai manter-se calma mas é os colhões do Padre Inácio. A senhora ainda te mete mas é o leque pela peida acima, que bem precisada deve estar — disse Mummy, com muito ardor, com muita alma. Era daquelas pessoas com um grande formato corporal e um feitio difícil. E tinha o coração ao pé da boca. Saía-lhe muita coisa sem ela querer. Porque no que toca a entrar ela queria sempre.

(Porra, Luís, trocadilhos obscenos deste nível? Que se lixe! Já não se pode descer mais)

Quando os quatro agentes da Polícia de Costumes desataram à chapada a Mummy, Dick tentou meter-se à frente e foi o que podem imaginar. Acordou na esquadra, umas três horas depois, com Mummy a olhar para ele e a ser fodida à canzana por um toxicodependente que tinha gamado um auto-rádio.
Esfregou os olhos, porque nem queria acreditar.
E ela, descarada, para Dick, com olhar de Dalila a desafiar Sansão:
— O kékefoi, pá? Nunca viste?
Nessa altura, começou a doer tudo a Dick. Sentou-se na cama de metal e ficou a observar. O toxicodependente veio-se, vestiu as calças, sentou-se na cama ao lado de Dick, sorriu (mostrando os dentes cariados) e disse:
— Tá-se bem, man. A tua gaja fode que é uma maravilha. Por acaso não tens nada que se fume?
É o que dá embrulhar-se com mulheres que se excitam a ver filmes de terror.



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4 Comentários:

  • Às 7:23 da manhã , Blogger Geraldes Lino disse...

    Olá Graça
    Depois de ter lido mais este conto, e de ter sorrido com frequência, ocorreu-me o seguinte comentário:
    A donzela Mia Madre, prima da Madre Mia, a tal do "bom broche" (a marca "bomboca" virá daí?), plagiou a tal frase do tal filme. E tu assimilaste brilhantemente a ideia do Franquim quando criou Fantasio e o primo Zantafio, na série do Spirou, digo eu...
    GL
    O que é que achas? Diz, Graça (esta cacofonia parece um trocadilho "à Luís Graça;-)

     
  • Às 11:33 da manhã , Anonymous Luís Graça disse...

    Já nem sei, Lino.
    Sei que agora ao reler o texto ainda fiquei um bocado arrepiado com o vocabulário.

    Lembro-me que este foi escrito mesmo ao bater da tecla (que é o habitual, mas este ainda foi mais).
    E com a missão específica de o dedicar à tal senhora que frequentava o mesmo blogue que eu.
    Acho que é um conto um bocado menos conseguido do que muitos outros da série do Dick Hard, embora os cinéfilos possam apreciar as referências.

     
  • Às 7:26 da manhã , Blogger bolas de sabão disse...

    :) só este conto me podia animar depois de um dia de trabalho. eu, francamente, nos filmes de terror durmo... ***

     
  • Às 4:12 da manhã , Anonymous Luís Graça disse...

    Ontem fui ver o "Hostel II", do Eli Roth.
    A violência do primeiro era uma advertência séria. Por isso não fui apanhado desprevenido.

    O segundo é igualmente um belo exercício de estilo.

    Um dos produtores é o Tarantino.

    Um dos principais actores é o que fazia de farmacêutico apaixonado pela Teri Hatcher em "Donas de casa desesperadas" (só para ver a interpretação dele já vale a pena ver o filme).

    O gaugue de miúdos é interpretado por miúdos brasileiros do morro.

    A grande estrela das comédias eróticas dos anos 70 e 80, Edwige Fenech, faz uma "pontinha", como professora de pintura, numa aparição muito fugaz.

    E as interpretações femininas são convicentes.

    Uma boa "Hostelaria".

     

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