Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

sexta-feira, agosto 03, 2007

Contos do Dick Hard - VII

DICK HARD NA PRAIA

Não pode ser só trabalho. Um homem precisa de descansar dos adultérios, das cobranças difíceis, das tretas todas. Vai daí, quando o sol começa a espreitar com mais verga nas radiações, cheio de si, armado em brilhante, é altura de lhe fazer a vontade e acostar à praia.
Pega-se no Lotus Europa rosa, ganha-se coragem de meter o guarda-sol pela janela (e um bocado sai vidro fora, é uma chatice com a Polícia) e vai-se até aos areais deste nosso imenso Portugal, com 800 quilómetros de costa e muitas mais costas nuas de magnificente putedo profissional ou amador, que enxameia de sensualidade decadente este país à beira-mar bem lixado.
Um gajo mora na capital e tem duas hipóteses de apanhar solinho e enviar-se de cacholada para as águas mais ou menos poluídas que existem no cardápio solene das praias de Portugal. Ou Linha do Estoril ou Costa da Caparica.
Atravessar a ponte à hora de ponta é mesmo do caraças, para não dizer outra palavra mais feia, no caso dos que não foram bafejados pela beleza fálica, que é uma miríade só ao alcance dos mais afortunados. Um bacamarte bonito é uma coisa altamente difícil de conseguir. Geralmente, é uma questão de sorte. Um bacamarte bonito é de origem. Um gajo ou tem ou não tem. O objecto, em si, já apresenta limitações estéticas apreciáveis.
O truque é um gajo meter-se na ponte ao contrário dos movimentos do maralhal. Quer-se dizer, o pessoal está todo a vir para Lisboa, é hora de ir até à Costa. Aí pelas cinco da tarde, para apanhar o pôr-do-sol. O sol a pôr-se é muito bonito. Pode ficar tipo rodela de laranja (sem vodka), pode ficar tipo bola rósea, como se fosse papelinho de lustro recortado de uma aula de Educação Visual.

Bem, Dick Hard chegou à Praia do Rei com ardores republicanos na ponta da sarda. Eram religiosamente 18 horas e 7 minutos quando se baldou do seu Lotus, panamá às bolinhas, chinelos paneleiros de marca, um saquito com um semanário, para armar ao pingarelho. E a toalha grandalhona ao ombro, a publicitar uma multinacional qualquer.
Pousou.
Afinfou-se de óculos escuros Ray-Ban e ora toma lá com um pesquisar as redondezas, numa primeira espiolhada. Gajas, algumas. Boas, várias. Ou isso ou tinto. Assim como assim, sentir o cheiro da maresia na tromba já era bom.

Uma flausina dos seus 40 anos veio fazer-se ao Hard. Mas o Hard é parvo que nem um Dick, já se sabe. Armou-se em esquisito e deu-lhe para ser simplesmente educado e moderadamente simpático, à espera de ver se caía algo de melhor na rede.
— Tem horas que me diga, por favor?
O relógio no pulso da gaja, ali à disposição, valha-me o Criador...
— São 18 e 20, minha senhora...
— Ai, não me trate por minha senhora, que me faz mais velha...Alice, muito prazer.
E vá de estender a doce manápulazinha para o nosso Dick. Mas depois deu-lhe para se baixar e exibir o mamalhal.
— Vá lá, um beijinho. Estamos na praia...
O Dick sentado com o semanário na mão, a ler sobre as agruras da bola, a gaja a baixar-se e a mostrar tudo o que lhe ia dentro do bikini. Dois beijinhos na bochecha do Dick, nada fugidios, daqueles em que os lábios colam mesmo à pele, aspiram um bocadito tipo Hoover, com muita meiguice.
E o Dick a pensar: se isto é assim na bochechita, com este à-vontade generoso, como não será na hora da verdade, na zona da verdade, simulando deglutir em silencioso vaivém? Só pode ser bom.
Alice sentou-se numa posição agradavelmente provocadora, como se não soubesse o que estava a fazer. Sabem muito, estas quarentonas que andam por aí a boiar.
E se primeiro era “Alice já não mora aqui” (lembrava-se de ter visto o filme, mas não se lembrava nada do filme) depois principiou a olhar a Alicinha com outros olhos. Altura média, uma data de sardas pelo corpo fora, numa simpática pintalgância. Tez branquinha da Fonseca, mas já marcada por uns diazitos de praia.

O pior era o cabrão do sorriso. O cabrão do sorriso é que fecundava o panorama todo. Ai o cabrão do smile. Le sourire era mesmo topo de gama. E ninguém gama o cabrão do sorriso para o resto da tarde desta sexta-feira abençoada pelo astro-rei! Palavra de Hard! Só se não puder ser!
Tirou os óculos Ray-Ban, numa de exibir um olhar lúbrico. E perfeitamente normal. Mas quando o sol bate, o olhar fica mais bonito. Isso e as cenouras.
E a Alice que caíra de pára-quedas, numa de baldas:
— Costuma vir muito para aqui?
— Às vezes, Alice, às vezes.

Pois. Patati, patatá. Aí uma hora de patati, patatá. E depois a Alice foi buscar quatro shots de vodka ao bar por cima deles. Ó minha senhora, tenha termos! Quatro shots, assim, todos de uma assentada?
— Olhe, Dick, apetece-me fazer loucuras. Quero sentir um calorzinho dentro de mim...

Ai, ai, ai...que é lá isso? Levas com o tratamento, olá se levas...

(Luís Graça pede desculpa aos leitores e leitoras com uma maior exigência literária. Na realidade, nem lhe apetecia escrever nenhum conto. Por isso, é natural que a qualidade da prosa possa deslizar para níveis de escrita mais rasteiros. As nossas desculpas mais humildes)

Mais cinco minutos de conversa e a Alice desfez-se num sorriso com olhar de “Vamos, querido?” em anexo. Nenhum equívoco possível. A língua em navegação de cabotinagem pela bordinha do pequeno copo de shot.
Depois agarrou a cabeça de Dick com todo o cuidado, encostou os seios fofos ao peito dele e segredou:
— Aqui?
O raio da balzaquiana (pronto, está bem, é mais nos trinta, mas a terminologia fica-nos na carne e na carola) é mesmo estoirada de todo, pensou Mr.Hard. Há para aí umas 200 ou 300 pessoas no areal e ela nestes convites. Mas o Dick não sabia bem o que fazer e saiu-lhe:
— Aqui... o quê?
— O quê?!? Então, Dick, que falta de imaginação...
— Ó Alice, eu até queria, mas aqui à frente de todos não consigo...não quer ir até minha casa?
— Não, Dick. É aqui e agora.

Dick pôs-se a olhar em volta. Fim de tarde, mas ainda uma horita de luz, à vontade. Gente a passar de um lado para o outro. É óbvio que não havia hipótese de fazer a coisa sem ninguém dar por isso.
Eureka!
Desatou a correr e disse para Alice:
— Só um momento. Já venho.
Uns cinco minutos depois regressou com uma pá e um balde de plástico. Ofegante. Alice ainda lá estava.
Levou uns bons 25 minutos a escavar um buraco de cerca de metro e meio de profundidade e mais metro e meio de largura. Depois disse a Alice para se enfiar lá dentro, de frente para o mar. E que se apoiasse confortavelmente à borda. Imediatamente posteriormente, pediu a Alice para tirar a parte de baixo do bikini.

— Já estou a gostar mais do seu comportamento, Dick...
Alice despiu a parte de baixo do bikini verde-alface e ao mesmo tempo desembaraçou-se da bolsa de cintura. Mas antes tirou uma caixinha de “Durex Avanti” lá de dentro.
Dick Hard saltou para dentro da cova, com as bermudas azuis com flores brancas já em estado de solidariedade eréctil para com o dono. Abriu a braguilha e sentiu desde logo os dedos sábios de Alice a vestirem-lhe il signore Avanti, que é pela honra da pátria.
Depois, Dick estendeu o toalhão atrás de si, tapando o ângulo de visão a qualquer inimigo que se aproximasse traiçoeiro pela retaguarda.
E então deslizou garbosamente para dentro da melhor amiga de Alice, uma grutazinha delicadamente húmida. E foi aquela hesitação cadenciada de “entro? saio?entro? saio? entro? saio? cha-cha-cha, apita o comboio...”.

O sol nesse dia estava róseo. Era apenas meia-bola, com sabor a sorvete de morango. O céu de um verde “podes seguir e bom proveito”. O vento disfarçado de brisa “anti-constipações”. Em resumo, fim de tarde conjugado em “penetro-a quase perfeito”.
Alice sem saber que horas eram, de novo. Os braços esticados a arranhar a areia. A boca aberta em sucessivos sobressaltos. Dick a tapar-lhe a boca com a mão cheia de areia, sempre que passava gente alguns metros à frente.

— Ganda pancada, meu, viste aqueles dois dentro do buraco? O gajo do panamá tem mesmo ar de estúpido...
— Man, há gajos pra tudo!
— Só a pachorra de escavar. Um gajo adulto a brincar com baldezinho e pá... man! E a gaja está toda vermelha! Na volta também andou a escavar...

Dick. Alice. Dick em movimento oscilatório para a frente.
Alice. Dick. Alice em movimento oscilatório para trás.
Dick. As mãos de Dick fechadas como ostras em volta dos seios de Alice.
Alice. As mãos de Alice fechadas como ostras em volta das nádegas de Dick.

E o sol, ao longe,quase a dizer adeus: “Um, dois, esquerdo, direito! Um, dois, esquerdo, direito! Hop! Deis! Hop! Deis!”.

(É claro que as coisas estão demasiado normais para terem acabado assim. Obviamente. A tradição ainda é o que era)

Nessa altura, um grupo de putos passa a correr, seguido de um Golden Retriever. O filho da puta do cão deu-lhe para agarrar no toalhão e fugir praia fora com ele. Dick ainda estava a pensar no que fazer quando o puto mais pequenino lhe deu um pontapé na carola, sem querer, no meio da corrida:
— Zé, Guiléme, espéem pu mi, espéem pu mi!
E Dick, já a passar-se dos carretos:
— Ai, foda-se, cabrão do puto! Deu-me em cheio!
E Alice, ainda em plena função e desejosa de um final feliz:
— Não pares agora! Não pares agora! Deixa lá a toalha!

Sem toalha, muita coisa se via da esplanada do bar:
— Eh! Aqueles dois estão a foder!
— Onde?
— Ali, naquele buraco!
— Bora lá ver melhor!

E foram ver melhor. E Dick deu por eles e parou. E Alice, na iminência de parar de ser fodida, ficou pior do que fodida, por terem parado de a foder:
— Vão-se embora, seus palhaços! Respeitem a privacidade das pessoas!
— Ganda privacidade! No meio da praia! Vai foder pra casa, ó cota! Tás cheia de sardas no corpo! E só tens uma na racha!
— Boa, meu! Gimme five! Ah! Ah! Ah!

A coisa podia ter ficado por ali. Mas não ficou. Alice atirou com areia para os olhos dos “espreitas” bêbedos. E eles quiseram “molhar a sopa” na tromba de Alice. Dick meteu-se no meio, numa de boa fé e sarda apressadamente metida para dentro, com a Durex a baloiçar de um lado para o outro e a pilinha mole.
Pois. Um gajo meter-se no meio nunca é boa ideia. A menos que seja numa orgia de amigos conhecidos há muitos anos.
Enfardou um bocado, Dick. Mas não lhe partiram nada.
E quando acabou de enfardar apareceu o Golden Retriever com o toalhão todo rasgado na boca, a dar ao rabo, com um ar muito amigável, a desafiar para a brincadeira:
— Arlequim! Dê o toalhão ao senhor! Já! Arlequim! O senhor desculpe. Só agora vimos que ele levava isto na boca.
Foda-se! Puta de tarde!

(Pois é. Chamar nomes à tarde é muito feio. A tarde pode vingar-se)

Nessa altura chegou um gajo de cor (um preto, caralho), enorme, com um brinquinho minúsculo na orelha, fardado de motorista:
— Então Dona Alice? O seu marido está raladíssimo...corremos tudo à sua procura.
— Deixe-me em paz, Jarbas. Eu fodo com quem eu quiser. E não diga mais nada. Já teve a sua parte, mas não soube aproveitar. O meu marido que vá levar no cu.

E desapareceram no horizonte. Dick ficou a olhar para a lua, com um olho negro, sangue já seco no lábio e um toalhão completamente rasgado. Passou um cauteleiro:
— Olha o 69! Olha o 69! Há horas de sorte! Há horas de sorte!

(Era de comprar?)



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6 Comentários:

  • Às 7:39 da manhã , Blogger Geraldes Lino disse...

    Está com pilhas bem carregadas de humor. A cena está bem congeminada, com aquele imaginativo buraco na areia e as personagens a aparecer aos poucos. Dava uma boa banda desenhada.
    Abraço

     
  • Às 10:22 da manhã , Anonymous Luís Graça disse...

    Obrigado, Lino.
    E Já lá vão mais de dois anos, desde que escrevi este conto.
    Hoje apanhei o "Ver BD", na RTP2.

     
  • Às 1:25 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

    Tenho pena que o Golden Retrevier não te fosse à peida ao som do Hino do Sporting Clube de Portugal, enquanto o preto te fazia um tratamento estomatologico com o escroto e, desentupia-te a epiglote com a glande e, a Alice te vergastava com uma cana...
    Isso sim - era um cena lindissima.

     
  • Às 11:06 da tarde , Anonymous Luís Graça disse...

    Caro Anónimo:

    O conceito de cena lindíssima varia de pessoa para pessoa. Infelizmente, como se trata de ficção, não é possível satisfazer o desejo expresso, que tem algo de poético.

    Quanto ao desentupir da epiglote, tenho a informar que a humidade de Vale do Lobo, nos encontros nocturnos de ténis do Grand Champions, já me deixou a garganta arranhada. De modo que vim directo da farmácia (onde comprei um spray Tantum Verde) e estou num Cyber-Café a tratar da correspondência.

    E é sempre consolador encontrar eco às nossas prosas.
    Muito obrigado pela originalidade e pela imagética.

     
  • Às 3:03 da tarde , Anonymous Anónimo disse...

    De nada amigo Graça. sempre a considerar-te mas, um conselho somente: compra Locabiosol e faz 4 aplicações/dia e, acompanha com um anti-inflamatório enzimático - Aniflazime... 1 cápsula 3 vezes dia às refeições.

    As tuas melhoras.

    PS: Já agora, se em vez de um Golden Retrivier fosse um Grand Danoah... seria mais poético ou não????

    :-)))))

     
  • Às 11:42 da manhã , Anonymous Luís Graça disse...

    Já estou bom da garganta, obrigado. O tempo ficou menos húmido lá para os últimos dois dias do torneio de ténis.

    Ontem até me fartei de transpirar, dançando ao som dos sixties e dos fifties, acompanhado de uma irlandesa, de uma menina da Estónia e de um ex-presidente da Federação Portuguesa de Ténis.

    Quanto à sugestão do Grand Danois, só posso dizer que é excelente.
    Uma vez, numa revista (seria a Hustler?) vi um magnífico cartoon, com uma montagem de um falso anúncio com um Grand Danois, realçando as qualidades fálicas do canito.

    A primeira vez que me lembro de ver um foi numa exposição de cães, na antiga FIL. O Fernando Pessoa fez uma peça com um Grand Danois e deixou-se filmar com o cão em pé. Metia as patas nos ombros do Pessa e a cabeçorra passava uns bons centímetros acima da cabeça do Pessa.

    O meu Grand Danois favorito é o Arlequim, "equipado" à Dalmata.

     

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