Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

segunda-feira, setembro 03, 2007

Contos avulsos - III


NÃO SE MISTURA SAMBA COM ROCK & ROLL



— Eu tive um orgasmo, mas poderia ter sido muito mais intenso se não tivesses começado com palhaçadas!
E depois virou-se para o lado e não deu grandes hipóteses de discutir o problema.
— O que é que eu fiz ?
— Não quero mais conversas.
Fiquei para ali depositado, numa cama de dimensões médias, o sol do meio-dia filtrado em gomos na parede. A cheirar nos cabelos dela o champô delicado de Health Club de luxo. Apetecia-me dizer toneladas de coisas, vomitadas em jorros de uma alma injustiçada. Mas percebi que não valia a pena. O tempo era de ficar esticado no leito em silêncios de mármore. E porque não sabia o que era preciso fazer para sair daquela imobilidade envergonhada, fiquei com o preservativo enfiado num pénis quase tão murcho como o meu coração.
Já me tinham dito que as argentinas eram autênticos vulcões de Pompeia, mas só agora sabia bem o que queria dizer uma frase tão ejaculativa.


Maria de Jesus (Chus) era uma morena de fogo, nascida em Buenos Aires por acaso, filha de pais originários de S. Juan. Conhecemo-nos no Rio de Janeiro, mas envolvemo-nos no Recife. Encalhei por ali como poderia ter encalhado na Ingrid, uma dinamarquesa lasciva que me sorria lasers de malícia nos intervalos das picanhas, dos passeios, das praias, dos cocos.
Por acaso nem tive muito a ver com as tradicionais manobras de sedução masculinas. Estava o grupo todo num restaurante de luxo do Recife, fomos à casa de banho ao mesmo tempo, eu e a Chus. Quando eu ia a entrar para o WC dos cavalheiros, agarrou-me na mão, arrastou-me até ao WC das senhoras, meteu-me dentro de um compartimento e disparou, com os olhos em chispas:
— Tira a roupa toda. Já!

Fiquei aparvalhado. Não estava à espera de um fenómeno daqueles. Para dizer a verdade, acreditava que a coisa estava muito mais próxima de acontecer com a Ingrid ou com uma húngara de Budapeste, que ambicionava ser uma estrela porno e o dizia a plenos pulmões para quem a quisesse ouvir, no grupo excursionista.
Enganei-me.
Os homens enganam-se muito.
Aconteceu com a Chus.
Sentou-me na retrete, mordeu-me os lábios com a dedicação de um tornado, puxou-me os cabelos como se me odiasse todos os fins-de-semana desde o início dos séculos, montou-se em mim com raivas de malagueta e quando dei por ela estava a ejacular para dentro de um preservativo colorido que ela fez sair não sei de onde, até porque a sua camisa de padrão tropical nem tinha mangas.
Depois voltámos para a mesa e comi um gelado flambé, sobremesa mais típica de um restaurante chinês do que de um restaurante de luxo no Recife. Ela bebeu o seu café de um só trago, eu nem consegui beber café. Ainda transpirava por dentro toda aquela paixão.
Não era suposto envolver-me, mas aconteceu. Um mês mais tarde estávamos a viver juntos numa pequenina casa de Olinda. E percebi que a nossa vida sexual era um misto de desejo recalcado com violações rituais. Para quem não percebeu à primeira, eu explico. O violado era eu.
Chus gostava de beber Bacardi com Coca-cola e depois dava-lhe para ouvir tangos de Gardel até às cinco da madrugada. Eu preferia a pacatez da noite, mas não podia fazer nada. A pouco e pouco ia perdendo a concentração e a vontade de pintar os meus "carvões" com paisagens naturalistas. E pintar era a minha vida e o meu sustento. A Chus era hospedeira de bordo, mas estava com uma licença sem vencimento. Metera-se-lhe na cabeça que havia de escrever um livro sobre a "Crítica da Razão Pura", de Kant.

— Elas pensam que são atraentes, com as longas cabeleiras louras e os grandes decotes. É um engano. Por dentro é que interessa. Como é que podem ser atraentes se não leram a "Crítica da Razão Pura" e o "Novo Testamento"?

A Chus era uma morena de olhos verdes, mas odiava as louras com toda a raiva do mundo. Nem havia muitas louras em Olinda, mas era impossível proibir as turistas de andar pelas mesmas ruas que nós. Olinda não era assim tão grande. E se eu olhava muito naturalmente para uma delas, ou me limitava a sugerir-lhe uma rua para visitar, logo me saltava de garras afiadas a Maria de Jesus:
— Lá estás tu a devorar uma loura com os olhos!
— Bolas, não perdi mais de três segundos a olhar para ela!
— Não interessa. Vi-te o desejo nos olhos.
Não havia muito a fazer nestas alturas, por mais que ela não tivesse razão. Era só deixá-la esvaziar a pressão e esperar pela próxima pancada. Continuava nos seus Barcardis pela noite fora, entrava-me na cama à sorrelfa, raptava-me as almofadas, o travesseiro, gemia ruidosamente e adormecia com o meu braço violentamente colado ao seu seio.
Eu abandonava-me aos seus caprichos e nem sonhava em contrariá-la por um momento. E de manhã, ao acordar, espreguiçava-se, ia à casa de banho beber água, voltava para a cama. Ou dormia mais três ou quatro horas, ou então dava-lhe para ter sexo. A Chus não fazia amor. Tinha sexo.
A Chus digitalizava o seu clítoris com a polpa dos meus dedos, metia-me a deslizar pela sua fenda até a sentir com a humidade da floresta tropical. Num golpe de rins digno de uma pantera dos documentários da BBC, sacava de uma caixinha de preservativos "Trojan", rasgava a embalagem com um simples ranger de dentes e enfiava-me uma camisinha enquanto o Diabo esfrega um olho.
Depois montava-se em mim até ter um orgasmo, perfeitamente esquecida de quem estava por baixo dela. Por acaso era eu. Apenas por acaso.
Se me mexia pouco, era porque parecia um morto. Se ficava em silêncio era porque não tinha vontade nenhuma. Se falava era porque não estava a gostar, se dizia uma piada era porque não levava o amor a sério. E, num belo dia, saiu-se com o Guiness da Imprevisibilidade:
— Eu tive um orgasmo, mas poderia ter sido muito mais intenso se não tivesses começado com palhaçadas!

Palhaçadas?!? Por amor de Deus! Eu estava tão bem comportado por baixo dela. A única coisa que eu queria é que ela tivesse prazer. E ela por cima de mim.
— Presta atenção ao meu ritmo! Mexe-te!
Resolvi mudar um pouco de ritmo e penetrei em círculos, oscilando a ternura com estocadas mais violentas. Num ápice, desmontou-se de mim, virou-se para o lado e desabou-me num mar de protestos.
— Tinhas de fazer palhaçadas. Eu estava quase a ter um orgasmo muito mais intenso e tu começaste com essas coisas. Precisas de ver 300 vezes os filmes pornográficos, para aprender. Isto não é só inventar. Cada coisa tem o seu ritmo. Não se mistura o samba com o rock & roll!
Vinte minutos depois lá arranjei coragem para perguntar:
— Estás zangada?
Não estava. Nem tinha muitas razões para isso. Ela é que explodia. Eu ficava para ali a fazer figura de urso, esgotado nas tentativas de lhe dar prazer e ternura, cada vez mais baralhado.
Porque havia manhãs em que chegava ao orgasmo de forma perfeitamente satisfatória e depois saíam-lhe frases altamente machistas:
— Gostei do meu pequeno-almoço.
Está certo. Eu apenas era um produto para deglutir de forma sistemática e moderada.
— Os homens são todos uns crápulas.
Pronto. Está decretado. Eu andava por ali no meio da espécie e isso era como um estigma de que não me livraria nunca. À primeira coisa de que não gostasse atirava-me sem receios nenhuns:
— És um homem e chega.
Chegava. Mas também lhe sabia bem quando eu inventava uns heterónimos sexuais, para umas noites loucas.
— Compras-me um brinquedinho novo?
Eu comprava. Dava um pulo até à sex-shop mais próxima e tinha de descobrir uma novidade que a excitasse suficientemente. Porque até os vibradores lhe podiam provocar um anti-clímax. Um homem a comprar pilhas alcalinas, para dar mais "estalada", e ela:
— Eu não uso a vibração. Só quando já estou muito excitada. Se meter aquela vibração toda logo dentro de mim, perco a excitação toda.
Bonito !
E outras histórias de sinal contrário. Gostava de estimuladores de clítoris, pequeninos como uma lanterna de bolso, com quatro esferinhas Made in Hong Kong (ou seria China ?) e três capinhas da cor da pantera cor-de-rosa, com rugosidades várias.

— Ai, está a magoar, bruto! Tens de fazer devagarinho.
Olha que porra! Mais devagar desencaixava-se a porcaria do estimulador e era um trabalhão para o encaixar outra vez. Até que ela perdia as estribeiras e tomava o controlo absoluto da situação.
— Dá cá.
E depois finalmente dava o valor ao esforço alheio. Desencaixava o coisinho e percebia que a capinha dos bicos laterais fazia sempre aleijar. Não era mau. Só uma em três é que aleijava. As outras duas tinham uma extremidadezinha que parecia uma língua de serpente, a mexer em alta velocidade, como se tivesse visto um coelhinho.
E era "à coelhinho" que eu gostava de me vir dentro dela, o que lhe preechia o ego. A menina sempre conseguia dar-me prazer. E lá ficava eu a ofegar por trás das suas costas, tentando recuperar do esforço enquanto lhe fazia ternurinhas nas orelhas, sempre emolduradas por uns gigantescos brincos de pirata, que me hipnotizavam na hora em que lhe agarrava as nádegas e tentava acabar a sessão de uma forma oficial e prazenteira.
De todos os heterónimos criados para as noites loucas, o que mais prazer lhe dava era o "Dr. Luvinhas". Um heterónimo como qualquer outro, apenas muito dado a masturbações profundas com luvas cirúrgicas, previamente lubrificadas com pomada K.Y, preferencialmente utilizada para fins ginecológicos. Mas, em vez de Papanicolau, os testes eram outros. E permitiam experiências como masturbá-la com três dedos da mão direita, enquanto a esquerda ia fazendo vibrar suavemente um par de bolinhas chinesas, previamente introduzidas na sua grutazinha perene em penugens das pampas.


— Acho que tive um orgasmo.
— Ó minha ignorante. Então não sabes?
A Chus era mesmo assim. Variava uma violência verbal muito grande com uma inocência gaúcha que vinha não se sabe donde. E lá fomos fazendo a nossa vida em comum pela cidade de Olinda.
A Chus embirrava com o padeiro, protestava nos restaurantes, resmungava nos transportes, amuava em todo o lado, por dá cá aquela palha. Mas os habitantes de Olinda são pacatos, excepto nos quatro dias de Carnaval, quando dançam o frevo de uma forma possessa, por tradição cultural. Foram-se habituando à Chus. E eu também. De modo que me voltou a vontade de pintar, a Chus acalmou um pouco (contagiada pelo ritmo de vida de Olinda), começou a esforçar-se por ser meiga e, uma noite destas, enquanto me acariciava os genitais na cama, mirou-me de uma forma muito doce e disse-me:
— És mesmo um diabinho.

Levei aquilo como um elogio, dei-lhe um beijinho nos lábios, dei à luz mais uma árvore frondosa do meu "carvão", fiz amor com a Chus de forma arrebatada e adormeci tranquilo.
Afinal, na Argentina também há vulcões que se podem domar. Eu vivo em Olinda, numa casa simples, com um deles. E sou feliz.



Auto-publicidade Poético-erótica

1 Comentários:

  • Às 6:18 da tarde , Anonymous Luís Graça disse...

    Chavala, foram pelo menos três cabritos que não esfolaste, para me fazer um post que te deu tanto trabalho!

    E sabes que te digo isto com carinho...

    Só não achei piada ao Júlio Iglesias misturado com o tango.

    Mas se eu pedi à Rosy para linkar "As baleias" também tens o direito de "improvisar" com o Júlio Iglesias.

    Olha lá, aquelas bolinhas chinesas são as que tinhas há uns três anos, não são? Se não quiseres responder não respondas, que ninguém tem nada a ver com a tua vida.

    Tudo como antes, quartel general em Abrantes? Como vês, eu não escrevo palha. Tem piada, já não vou aí desde um final de etapa do GP Correio da Manhã, mas tive um colega da Faculdade que era de Abrantes. É meu consócio no Holmes Place. Dei-lhe um DVD da Madonna que ele ofereceu ao sobrinho. Foi o 12º prémio num concurso de frases criativas do Holmes.

    Recusei-me a receber e fiz declaração de protesto. Estou habituado a ganhar a nível nacional: já ganhei na RFM (discos dos Culture Club e fatos de treino da Virgin), na Cadbury (uma amiga a quem eu dei a caixa grande a pensar que estava vazia descobriu que havia uma "cave" cheia de bombons e gozou com o facto) e no "Sideways", o filme sobre o Brioloex, Oliveira do Hospital.

    "Aqui do pavilhão de Oliveira de Azeméis está a Oliveirense no ataque, Zeca perde a bola, Gentil recupera na intermediária, perde também..livre de canto.É agora o Sporting a atacar, Chana com o pequeno esférico, atrasa para Livramento, atrasa mais ainda para Rendeiro, Rendeiro dá para Bilros, Bilros atrasa para Ramalhete. Ramalhete bate com a bola no chão, chuta agora para a grande área do adversário. O bouquet cai no chão e Begónia é rasteirado. Livre de 7 metros.
    É João Sobrinho que estava desconcentrado e anda "ó tio, ó tio, ó tio".
    GOOOOLOOOO do 1º de Maio de Amor.

    Vou buscar uma Coca-Cola e meter um disquito dos Meat Loaf. Estou para aqui feito estúpido há uma hora e ainda nem comecei a trabalhar. São 6 e 11 e ainda não masturbei a tartaruga. É como num filme do Almodovar em que as freiras esgalhavam ao pessegueiro a um velhinho acamado.

    É assim, como se diz agora. Sou um humanitário.

    Chavala, se vieres a Lisboa nos próximos dez dias diz qualquer coisa. Podemos ir jantar, comer umas pipocas para as salas do El Corte Inglés. Ou foder. Pelo menos eu garanto que te fodo a cabeça. Quanto a mim, só se tu quiseres.
    Estás à vontade.

    Mas se estiveres aflita as casas de banho do El Corte Inglés não são muito más.

     

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial