Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

domingo, setembro 02, 2007

Contos avulsos - II

UM TIRO NOS CORNOS (PORQUE SIM)

No fundo, até sei porque lhe dei um tiro nos cornos. Não gostei do olhar dela.
Durante uns tempos, não pensei no assunto. Era só uma puta cara num cabaré barato. Não passava disso.Um tiro nos cornos pareceu-me uma solução lógica.Tão lógica que não me dispus a conceder-lhe mais do que três minutos fumados à traição num maço de Peter Stuyvesant.


Depois o acto desapareceu à velocidade do fumo. Ela ficou a sangrar, deitada na madeira poeirenta do "Ostra Rubi", lugar de cúpula entre os marginais que gostavam de cópula. A poça de O+ foi alargando como se fosse um mapa da Europa Comunitária, "sprintou" um pouco ao roçar um taco mais recalcitrante e deteve-se como polvo a abafar maternalmente uma formiga distraída com um grão de açúcar.


O Jarbas veio falar comigo duas garrafas de Tuborg depois. Geladas. Gosto da Tuborg estupidamente gelada. Da última vez que me trouxeram cubos de gelo a boiar no suco de lúpulo — à laia de náufragos do Titanic — não hesitei em enfiá-los pelo cu acima do empregado, que por acaso até era um rapaz "gay" de educação esmerada. Se eu fosse Confúcio, diria: "Há certos prazeres que se servem frios, como a vingança".
Bem, seja como fôr, o Jarbas veio falar comigo duas garrafas de Tuborg depois. Talvez três. Ou quatro. Não me recordo claramente. O certo é que acabei o maço de "Peters".
— Cheira-me a bófia — disse eu, descarado, à aproximação do Jarbas.
— Não te aproveites da nossa amizade para abusar — respondeu o Jarbas, com o ar seboso do costume e o olhar a pousar sobre uma gaja de mamas grandes que tivera um caso com a Pati. O Jarbas tinha olhares assim. Pousavam levemente sobre os corpos, como um helicóptero americano sobre uma aldeia vietnamita, depois de ter sido banhada em napalm.
A Pati, por seu turno, olhava para mim. Não via nada, mas olhava para mim. De modo que aquele azul todo fazia por me incendiar o cérebro. Cheirava-me a sangue, mas devia ser impressão. Sémen. Sim, sémen. Esse era o cheiro que a Pati me lembrava mais. Sémen misturado com lençóis rasca, bolas de naftalina, mofo e cálices de "Napoléon".

— Então?!?
— Então, o quê?!? Não se vê?!? Dei-lhe um tiro nos cornos.
O Jarbas suspirou, puxou uma cadeira e sentou-se, não necessariamente por esta ordem. Tinha um chapéu de feltro novo e sorriu-me com um dos molares a brilhar de excitação.
— Comprei hoje. Gostas?
— Estou-me marimbando para o teu chapéu. Paga aí outra Tuborg.
O Jarbas fez sinal ao Óscar, o tal do cubo de gelo pelo cu acima. O Óscar trouxe a Tuborg gelada à velocidade do vento, em dias de tempestade. Talvez não fosse tão "gay" como isso. Ou talvez o gelo lhe tivesse caído mal na fenda cloacal. Não se recusa uma última Tuborg a um homem que vai dentro.
O Jarbas tirou o Sony do bolso do casaco, meteu uma micro-cassette, carregou no botão de gravar, espreitou a ver se a luzinha vermelha tinha acendido, apontou o microfone na minha direcção, suspirou outra vez, ainda mais fundo que Jacques Cousteau quando estava com tesão de mergulhar, fez-me um sinal com a cabeça e disse:
— Vomita.
Vomitei. Não por necessidade. Mas porque uma confissão caía bem depois duma Tuborg gelada.
— Dá aí um cigarro dos teus — cravei o Jarbas.
— Só tenho Camel.
— Serve.
Como por magia, ouviu-se bossa nova no "Ostra Rubi". João Gilberto e as imbecilidades do costume: "É impossível ser feliz sozinho". Há gajos que viveram uma vida sem descobrir as virtualidades da masturbação. Embora a arte de esgalhar ao pessegueiro não esteja ao alcance de todos.

A história começou há cerca de dois meses. O "Ostra Rubi" recheado das maiores pérolas da marginalidade, como sempre. A noite ia alta, mas não tão alta que chegasse para desfilar nas "passerelles" da "Moda Lisboa" ou do "Portugal Fashion".
A aparelhagem debitava Clemente: "Vais partir, naquela estrada...". Havia gajas a alternar com boa vontade. Polacas, brasileiras, uma ou outra espanhola da posta restante. Nas casas de banho passava-se qualquer coisa. Coca, mais concretamente. Ao meu lado, o velho Regadas bebia o seu habitual Lipton, com um cheirinho de Absolut Citron, que lhe deixava o chá a resfolegar limão por todos os poros.

A Pati destoava daquela fauna. Puta cara. Outro andamento. Voz trabalhada na "Versailles", anúncio nas mensagens do "Público", três telemóveis, em 91, 93 e 96, dupla penetração, 60 contos, uma hora, vídeos, hidromassagem, Opel Tigra com pneus novos.
Sabia muito.
Eu ainda sabia mais.
Mas não sabia tudo.
Não sabia os lábios dela no meu coiso.

Um homem por vezes pára de pensar. E já não sabe se está ligado para Tóquio em interurbana ou se há uma gatinha com lábios de cetim a envolver-lhe a sarda em movimentos requintados de vaivém contínuo; já não sabe se está dentro de um Fiat Punto ou se ejaculou nos estofos de um Volvo último modelo; já não sabe se é possível uma miúda destas no "Ostra Rubi" ou se é apenas um E.T. que Spielberg chutou para canto, cansado das tangas de Hollywood.
Patrícia Coelho. Disse-me ela. Podia muito bem ser treta. Sem razão ou com ela. Apenas isso.
Pati. Nome de puta. Pátati, pátatá, p'ráqui, p'rácolá. Deu-me a volta.Tipo montanha russa da Disneyland. E até os mais sabidos vão no engodo, quando elas nos sabem falar ao coração e dão pirafos que metem um homem na lua, a dar pulinhos à Armstrong. Nunca percebi bem o que queria de mim.
Até ao dia em que me falou em "fazer" a Caixa Geral de Depósitos,edifício do Campo Pequeno, elevadores de filmes de terror, carpetas à maneira e pinturas do estilo paga o contribuinte.
A coisa podia ter corrido pior. Espatifámos o Alfa na fuga, mas deu umas "massas" valentes. Eu sabia como "limpar" o nartol.
Separámo-nos por uns tempos. A bem da Nação. Ela nas termas de S. Pedro do Sul, eu num hotel da Jamaica, desses do sexo. Deu-me um amoque e estive uma semana a ler o "Ben-Hur" e a beber rum com Coca-cola. Apanhei uma constipação de Verão que me ia gastando as fossas nasais, de tanto me assoar.
Voltei numa manhã de nevoeiro. O gajo ao meu lado no avião chamava-se Sebastião e era delegado de propaganda médica. Aconselhou-me uma porrada de anti-piréticos e disse que gastava muito dinheiro em jogos de vídeo.
Encontrei-me com a Pati dois dias mais tarde. Entrei na minha casa à confiança e dei com uma ruiva de olhos verdes a mamar-lhe no grelo.

Instintivamente, senti a cabeça mais pesada e apeteceu-me investir. Contive-me a custo, curioso em ouvir o orgasmo dela.
A ruiva de olhos verdes não era ruiva de olhos verdes. Era ajudante de cabeleireira, usava lentes de contacto, pintava o cabelo e era fufa por vocação. A Pati gostava que lhe mamassem no grelo por devoção. Isso já eu sabia.
Foi um choque, mas perdoei-lhe. E também lhe perdoei que tivesse cavado com a "massa" toda para as Bahamas, atracada a uma tia arraçada de Lili Caneças com o Grande Chefe Cochise, abaixo os caras pálidas, viva o "blush" e não há nada como a "rouge".
Inesperadamente, ou talvez não,os seus créditos bancários sofreram um súbito impulso ascensional. Sofreram é a gente a falar. Três ou quatro cruzeiros depois largou a tia mais depressa do que a tinha engatado.
Voltou a gatinhar para mim, conversa freudiana, fases complicadas da vida dela, crise existencial de contornos com identidade sexual, eu gosto é de ti, temos de endireitar a nossa vida, ela em cima de mim aos saltos, um banho de espuma, um beijinho na ponta do nariz, olhinhos azuis a galarem-me com toda a ternura. Tiro e queda, como nas barracas da Feira Popular. E pensa um homem que sabe tudo.

Ficou de vir ter comigo hoje, ao "Ostra Rubi". Apareceu atracada a uma chavalinha de 18 anos. Tinha tomado qualquer coisa. Estava ousada, provocadora. Ao ponto de se ter mandado aos lábios da amiga como gato a bofe. O que seria coisa de somenos no "Ostra Rubi" descambou para a violência devido a um pequeno pormenor. Quem a mandou sorrir para mim com ar gozão?
Dali até ao meu bolso foi uma questão de segundos. A "Parker 6.35" ergueu-se como uma naja na Índia e disparou-lhe pela última vez a canção do bandido.O resto já sabem. A poça de sangue, os olhos muito abertos, a olhar para mim. A amiga em fuga, o "Ostra Rubi" em transe. Gajas aos saltos como coelhos, tipos a espreitar por trás do balcão,o Reboredo (de avental às costas) a aproximar-se temeroso, para me tirar a arma:
— Calma, senhor Barnabé, calma...
Eu muito calmo. Dei a arma ao Reboredo. Ninguém me tocou. Ninguém me bateu. O Óscar trouxe-me as Tuborg, fumei os "Peters", chegou o Jarbas.
Ouvi um click no Sony. Tinha estado a falar meia-hora. E pensava eu que não havia muito para dizer.
— Dei-lhe um tiro nos cornos, Jarbas...
— Foda-se, Barnabé...deste cabo da tua vida...
— Se calhar...
A última coisa de que me lembro é do meu encolher de ombros. Não, não... a última coisa foi dos olhos azuis da Pati...









FIM




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