Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

domingo, agosto 26, 2007

Contos do Dick Hard - XIII

DICK HARD E O BISPO ATESOADO

“O xadrez tem o tempo do Mundo”, disse Faye Dunnaway, enquanto simulava coçar o seio direito, mordendo de seguida o polegar esquerdo e disparando um olhar maroto na direcção da íris do olho direito de Dick Hard.
Dick Hard pensou, assim de repente: “Esta gaja está a tentar desconcentrar-me. Mas eu já vi o ‘Thomas Crown Affair’”. E o Little Dick ajudou à festa, gritando a plenos pulmões para o seu dono: “O que ela quer sei eu”.
As coisas não estavam brilhantes. Dick Hard não pagava há dois meses a renda da torre A8, já para não dizer que a torre de H8 estava a precisar de obras há mais que testículos.
A Associação de Proprietários das Torres dos Jogos de Xadrez (APTJX) tinha concordado em fazer obras de remodelação desde que as torres ganhassem algo com isso: ou seja, passassem a deslocar-se em diagonal (comos os bispos e as rainhas, por exemplo) e em L3, como os cavalos.
O problema foi que os cavalos protestaram de imediato, pelo relincho de Jolly Rocinante: “Mas o que é isto? A malta anda aqui alimentada a ração barata, sempre aos saltos para trás e para a frente e agora as torres têm os mesmos direitos? Isso é que era aveia! Já para não falar na questão das horas extraordinárias. Mal o jogo começa vai logo cavalo!”.
— A puta da tua égua! — disse logo um peão mais atrevido, da Associação dos Peões Auto-Sacrificados (APAS).
— Cala-te, idiota! Não tenho culpa que o teu pai te tenha inscrito na infantaria.
O presidente da APAS não teve tempo para dar a réplica, porque Faye Dunnaway aproveitou um momento em que Dick Hard fechou os olhos para se concentrar e “gamou” o peão preto, viciado em movimentos F7/F6. O seu maior sonho era um dia chegar a F5, mas se isso acontecesse quem lhe garantia que não era imediatamente integrado na Força Aérea Portuguesa (FAP)?
Quando Dick Hard abriu os olhos, deu logo por falta do seu peão.
— Atão?!? Onde é que está o meu peão preto?
— O peão preto?!? Qual deles? No princípio do jogo até tinhas oito.
— Pois tinha. Mas agora só tenho quatro. E tu também já perdeste esses três.
— Há imenso tempo. Foi em “Bonnie and Clyde”, com o Warren Beatty.
Ora bem, Dick Hard não tinha nascido ontem. Amandou-se à marada para cima da boca de Faye Dunnaway e enquanto lhe metia a língua com toda a força nos gasganetes (até deu para praticar um bocadinho de punching-ball com as amígdalas) aproveitou para introduzir dois dedos na gruta sensual da actriz.
Bingo!
Segundos depois, o peão preto saía da escuridão feminina para readquirir um lugar digno no tabuleiro de xadrez boavisteiro arlequinado.
— Foda-se! Esta merda é assim? Um homem anda aqui a trabalhar para avançar um quadradinho ou dois e quando dá por ele foi arrecadado na cona de uma gaja ordinária qualquer! Há regras! Há regras! — disse o peão, ainda estremunhado.
— Cala-te, estúpido, a miúda não estava no período, como é que há regras? — disparou-lhe de imediato um peão branco reguila, que estava há montes de décadas estacionado em E4.
— Vai para a cona da tua mãe. Estar aí à boa vida em E4 também eu estava. Menino da mamã, copinho de leite! Isto de sair de brancas também eu. É muito “in” começar a jogar e depois ficar a ver a paisagem.
— Olha, se eu fosse a ti nem falava de estar “in”. Tu é que estiveste dentro e ainda cheiras a bacalhau das docas.
Preocupado com o rumo que as coisas estavam a tomar, Dick Hard olhou para Faye e desafiou-a:
— Ó Faye, e se a gente jogasse sem peões?
— Por amor de Deus, ó Dick! Os peões existem para jogar.
— É assim mesmo, madrinha. Meta-o no cu! — apoiou o peão branco de E4, que não tinha educação nenhuma e só jogava a titular de xadrez porque um tio que era titular num jogo de gamão de Faye tinha pedido a um primo que era titular no Monopólio de Faye para meter uma “cunha” a um enteado que era titular a taco de golfe no Clube das Estrelas de Hollywood e Relva Aparadinha Reinação S.A.
O jogo prosseguiu, com Faye de pernas escandalosamente abertas por baixo da mesa, esfregando-se toda no clítoris com a cabeça do cavalo branco que iniciara a partida em B1 e já tinha sido tomado.
E enquanto Faye se deliciava com as protuberâncias da crina cavalar, o ofendido estava pior do que estragado. Ele que tinha entrado em “O sétimo selo”, de Bergman (até tinha almoçado com Max Von Sydow), estava agora reduzido a esfregador de clítoris.

E tudo porque o barrasco do Dick Hard não jogava um caralho de xadrez e tinha a mania de orquestrar a teoria de finais com torres e rainha, sacrificando alegremente os cavalos. E não havia veterinários que obstassem a este estado de coisas. Nesse momento, lembrou-se das palavras sábias do seu pai:
— Filho, eu posso ser muito cavalo, mas acho que não deves trocar a tua posição no circo de Billy Smart, que é uma coisa certa e apoiada pela família do Mónaco, por um lugar mais do que incerto nos tabuleiros de xadrez por esse mundo fora. Sabe-se lá onde é que podes ir parar. Se calhar, nas mãos de crianças que nem sabem mexer as pedras e te usam para brincar aos cowboys e índios. Tu és novo, estás cheio de sangue na guelra, o que é natural, porque és Peixes de signo, mas eu que sou mais velho tenho consciência de que a ração de cada dia custa a ganhar.
Dick Hard estava quase no final do seu terceiro vodka, mas o que se lhe deparou a seguir não tinha nada a ver com o abuso de bebidas espirituosas:
— Ó Faye, já não basta estar a masturbar-se com um prisioneiro de guerra, agora o seu bispo está a montar a minha rainha!
— Dick, não seja possidónio. O jogo está engarrafado desse lado. Deixe lá o homem divertir-se um pouco. Eu sou contra o celibato dos padres.
— Faça favor de não misturar religião com xadrez.
— O xadrez é sagrado, foda-se! — gritou o peão branco de E4, que estava constantemente a tentar exibir-se, como se fosse um caniche de exposição canina.
O cavalo preto sobrevivente de Dick Hard perdeu a cabeça e deu um grande coice no peão branco E4, que chocou contra uma torre, fez alcochete e ficou estatelado na carpete da sala, a escassos milímetros da lareira, cinematograficamente instalada em contracampo.
— Ó madrinha, o cavalo preto bateu-me!
— Dinis Maria, agora o menino fica aí sossegado um bocadinho, que a mamã tem de discutir uma coisa importante com este senhor!
— Mas a madrinha ainda agora estava a brincar com a passarinha...
— Não interessa, Dinis Maria. A madrinha pode brincar com a passarinha, jogar xadrez e discutir assuntos sérios, como a Constituição Europeia, por exemplo.
— Mas, ó madrinha...
— Shiuuu! Mau, mau, Dinis Maria. O menino já sabe como é a madrinha. A madrinha é muito boa, mas se lhe chegam os azeites, o menino sabe que a madrinha não é boa de assoar com mostarda no nariz!

Dinis Maria lá se aguentou à bronca nas proximidades do calor lareirense. E Faye resolveu bater em retirada intelectual com Dick, dando uma de democrata com o seu bispo:
— Reverência, o que é que o senhor prefere? Desmontar da rainha do Dick e ficar a jogar normalmente ou vir para dentro de mim intermitentemente?
— Minha senhora, até ia um bocadinho de cona! Faça o obséquio. Jogos de xadrez há muitos. Esta rainha é de PVC e cona de estrela de Hollywood não é todos os dias. Por quem é!
Dick Hard não gostou lá muito da atitude de Faye, dando uma de snob. Passou-lhe uma coisa pela cabeça, fez um voo à Batman por cima da mesa de jogo e deitou Faye ao solo.Torceu-lhe um braço, obrigou-a a ficar de costas e sacou de quatro pares de algemas (aos bocadinhos, claro, não foi tudo de uma vez).
Cena seguinte: Faye está solidamente algemada num cadeirão de luxo. As mãos atrás das costas e um par de algemas em cada tornozelo. Os leitores mais coisinho podem ler artelho, se quiserem.
Dick Hard rasgou-lhe a roupa toda de urgência. E quando ela estava completamente absolutamente mas realmente nua olhou-a bem nos olhos e disse, à fulminante de pistola:
— Agora é que vais ver como elas te mordem!
— Calma, madrinha, eu vou salvá-la! — gritou o peão branco reguila, que ainda começou a rastejar. Por acaso teve azar. Nessa altura entrou um S.Bernardo na sala (“Cujo”) e mandou-lhe uma esguichadela de mijo que o projectou para dentro da lareira.
Faye arregalou os olhos tipo “Laranja Mecânica” e gritou:
— Dinis Maria!
O peão começou a arder rapidamente, mas Dick ainda o ouviu tossir e sussurrar:
— Joana D’Arca, amor, vou ter contigo!
Dick Hard olhou para “Cujo”, tirou-lhe o barril de aguardente da coleira e disse para o cão:
— Podes lamber um bocadito de pachacha de estrela de Hollywood, se quiseres, enquanto eu tomo um copo.
Mas a vida reserva-nos surpresas. Em vez de uma boa aguardente do cantão mais alcoólico da Suíça, saiu-lhe na rifa Isostar.
— Ó “Cujo”, pára lá de lamber um bocadinho. Atão isto não é aguardente lá da terra?

“Cujo” parou de lamber a espapaçada rata de Miss Dunnaway, de onde escorreu um prodigioso fio de baba caracteristicamente neutral.
— O quê?
— És sempre a mesma merda quando te deixo trombar estrelas de cinema. Aguardente, caralho! Onde é que está a aguardente do barril? Já bebeste?
— Não, agora temos um patrocínio da Isostar.
Enervado, Dick dirigiu-se a Faye e intimou-a:
— Tu é que sabes. Vou dar-te uma última hipótese de te redimires: ou entras na versão da Broadway de “Adriana”, de Margarida Gil, ou fazes um bobó ao “Cujo” ou te sujeitas à tortura. O que dizes?
— Venha de lá essa tortura. Ainda estive indecisa entre o boca-doce e a versão da “Adriana” para a Broadway, mas agora, só para não seres campeão, quero ver como vai ser a tortura.
A tortura?
Bem... não se aconselha a almas sensíveis. Dick foi buscar todas as peças de xadrez e alinhou-as à frente de Faye. E depois começou a dar ordens:
— Peões brancos, atenção. Todos lá para dentro.
E o “Octeto Pureza” mandou-se de cabeça para dentro da amplamente mobilada racha de Miss Dunnaway. Parecia “Tarzoon, a vergonha da selva”, o celebradíssimo filme de animação de Marcel Picha.
Mas Faye não estava a sofrer. Dick começou a perturbar-se. Já lá moravam todas as peças (menos Dinis Maria, claro) e os orgasmos sucediam-se. Bem, desse lá por onde desse, o conto aproximava-se do final e ainda nada de mal lhe acontecera. Um bocado enjoado do Isostar, Dick pôs-de a provocar o autor. Erro fatal:
— Ó Graça, atão hoje não me acontece nada?
O conto até era para acabar bem. Mas não gosto de ser gozado.
Uma fada pára-quedista aterrou em cima do tabuleiro de xadrez,tirou o equipamento e concedeu três pedidos a Faye Dunnaway:
1) Dick Hard completamente nu, indefeso e algemado ao cadeirão, com o rabo espetado.
2) O S.Bernardo com uma grande erecção, ainda maior do que a do bispo atesoado.
3) Fica à consideração dos leitores.



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