Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Contos avulsos - I




TODAS AS PUTAS A SÉRIO TÊM BOM CORAÇÃO

Era uma morena vistosa e bem constituída. Dividendos que colocou ao serviço de uma vida de ataque. Sempre em busca do sustento que os filhos reclamavam, como pequenos cucos exigentes e desamparados, eternamente à beira do ninho, sujeitos a queda fatal ao menor sopro de vento.
Tinha um belo corpo, a morena. Um coração ainda maior. Não hesitou em sacrificar a sua dignidade ao bem-estar da prole. Que isto de ser puta ao serviço dos filhos tira a dignidade mas confere uma certa honra.
Fôra empregada de mesa dias a fio (debaixo da mesa também, em horas de literatura de cordel), camionista TIR pelas estradas da Commonwealth (tempo duro em que andava lá fora a rodar pela vida), funcionária de lavandaria com muita roupa suja (e lavou a alma pelo caminho).
Finalmente, esgotadas as propostas que as trivialidades do Destino lhe ofertaram, desembocou nas esquinas,exibindo provocantemente os últimos modelos de "lingerie". Coração de ouro, porque todas as putas a sério têm bom coração, aurículos e ventrículos a dançar o tango na tasca do Manel, nos intervalos da chuva e dos copos de tinto cartaxista.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Todo o tempo é feito de mudança. Deixou a rua, foi dançarina "topless", alternou em Espanha, sem grandes alternativas de emprego e sem alternativa de toureiro.
Por fim, conseguiu um pouco de estabilidade e radicou-se numa casa de meninas à antiga, em pleno centro de Lisboa. Horário certo, desgaste vaginal controlado, desgaste emocional quase nulo, apesar do bom coração.
Era uma morena vistosa e bem constituída. Sabia arfar. Qualidade rara no meretrício olissiponense quotidiano. Das sete colinas, talvez apenas em duas ou três haja prostíbulos de luxo onde se arfe com um mínimo de condições e amor à arte. Arfar em cima de um homem é uma mistura de aeróbica com kama-sutra, a que se deve juntar sem olvido uma gotinha de limão ou tabasco, à escolha do freguês.
Ela sabia arfar. "Demoiselle arfante de bom coração atende cavalheiros e cavalheiras. Possibilidade de show sáfico-lésbico e interactivo; Inter de uma mão ou mesmo Inter de Milete viáveis, mediante proporcionalidade de euro-alvíssaras". Anúncios por tudo quanto é sítio. Dos melhores jornais à Internet. He-Man e E-Mail incluídos. Com os filhos a acabar a Universidade, ainda ela estava a iniciar-se na casa dos quarenta, deu-se ao luxo de reduzir a sua carga horária ao mínimo, inversamente proporcional à carga financeira que cobrava, nunca se sujeitando a cargas de porrada. Sado-masoquismos que tratasse a população de Setúbal e os leopoldinos de Sacher-Masoch. Espancamentos só a Polícia de Choque, quando tal se justificasse pelo mau comportamento das claques de futebol ou dos trabalhadores sem nartol.
Estava eu a dizer que todas as putas de bom coração têm direito aos seus raios de sol, não tão numerosos como os raios de um pneu de bicicleta, mas mesmo assim ainda consideráveis, se os deuses não forem completamente insensíveis a quem ganha a vida com os fluidos do corpo e o "make-up" do rosto.
Ela resolveu gastar os raios de sol a ler a sina e a dar consultas astrológicas. Uma tara como outra qualquer, que lhe vinha de miúda. No que respeita a palma das mãos, ninguém lhe levava a palma, nem na Rua da Palma. Todos os riscos tinham o seu código, todos os códigos têm os seus riscos. Mas isso já todos nós sabemos, não é verdade ?
Durante dois anos as coisas correram muito bem, ao estilo dos balanços governamentais de esquerda, centro ou direita, para o caso nem interessa. Depois, o azar, sempre o azar, começou a minar uma vida que se estava a compor.
O filho de 24 anos emigrou para a Amazónia, depois de se ter formado em Belas Partes; ao fim de três meses foi dado como desaparecido. Três versões apresentaram-se na parada das hipóteses, à hora da inspecção: torturado às mãos dos ampliadores de cabeças (do falo); vítima de overdose de cautchu inalado; aderente à causa dos índios Truca-Truca, perdida tribo nos confins à esquerda de Manaus, comunidade poligâmica e tarada sexual, que doava esperma a troco de géneros alimentícios e revistas eróticas, preferindo as edições americanas e espanholas da Playboy, depois de ter tomado de ponta a edição brasileira, devido a uma reportagem de fundo intitulada: "A imoralidade dos índios Truca-Truca e a sua repercussão na sociedade brasileira trans-amazónica: uma leitura epidérmica de um fenómeno de culto".
A perda de um filho dói muito. Quer tenha morrido drogado ou esteja no bem-bom com alguma nativa truca-truca.



Voltou às esquinas, como mortificação. Esquanto esperava pelos clientes dedicava-se à leitura de Derrida, Proust e Walt Disney. No dia em que o rato Mickey fez 70 anos não deu a sua rata a ninguém: comprara um pequeno boneco da Minnie e por mais que lhe pedissem não se separou dela. Por fim, cansada de tanto assédio (há quem chague por pins, outros por pão), meteu a Minnie na sua rata, fazendo desaparecer do mundo dos visíveis o boneco cobiçado. Longe dos olhos, longe do coração. Piaget explicava bem isto, quando se referia aos estádios de evolução da criança.
E assim andou, a roçar-se nas esquinas, vendendo o corpo aos magalas, pirafando anarquicamente com marujos, hooligans e pré-universitários, dispensando afectos às damas da alta sociedade, oferecendo borlas a pilotos de cacilheiro e controladores de parquímetro. Era como calhava.
A cabeça já não estava boa. Não era só o filho perdido na Amazónia. Tinha sido deserdada pela família. O solar do Tâmega jamais lhe viria parar às mãos. Sim, o solar da parte nobre da sua família, a cargo dos seus pais, mais ou menos desde a altura em que decidira sair de casa, com 13 anos, muito boa vontade, espírito rebelde e um par de mamas que punha os tentilhões a chilrear em sol maior em menos tempo do que um disléxico leva a dizer erecção.
Enfim, os tempos vão maus para muito boa gente e bons para muito má gente. A tendência é esta. Não se pode ter bom coração. A par de uma boa sarda, é um órgão muito cobiçado.
Era uma mulher vistosa e de corpo apetitoso. Apenas teve azar na vida, sob a forma de ultrapenalizantes intermitências. É o que dá ser puta em Portugal, com filhos p'ra criar. Putas há que se perdem pelo vício. Ela perdeu-se pelo amor, que os seus filhos foram criados com a graça de Deus e muito desejo da parte do marido, que se emigrou na Legião Estrangeira devido às dívidas de jogo à sucursal da Mafia da Ilha da Armona, já a cheirar a Marrocos.
Mesmo assim ainda perdeu um testículo na fuga, vendido a um coleccionador de colhões que vivia no Principado do Mónaco por causa dos impostos e das condições climatéricas. Toda a gente sabe que o clima mediterrânico é aquele que mais convém a uma colecção de colhões bem conservada.
Também o Principado a acolheu durante uns tempos, como "cheerleader" oficial do Estádio Louis II, nos dias em que o Mónaco jogava em casa e tinha direito às presenças assíduas de Alberto e Rainier, que Carolina era mais do ténis e Stéphanie preferia as boxes da Fórmula Um ao cheiro dos balneários. Definitivamente, não era um homem do futebol.



De Monte Carlo saltitou até São Remo. Durante um semestre passou as noites a sair de bolos gigantes, em despedidas de solteiro que metiam sempre muito gin, cerveja, vibradores e polaróides.Mergulhada no âmago mais íntimo da devassidão do "jet-set", teve muita dificuldade em desmarcar o "jet-lag" para canto, na hora do regresso a Portugal.
Quando chegou ao seu modesto apartamento deparou-se com uma enorme montanha de folhetos publicitários que a incitaram à poesia. "Triste ? Desanimado (a) ? A poesia é a solução. Increva-se no curso por correspondência do Professor Asterónimo Pintado. Ficará a versejar em 7 dias. Se não ganhar o Nobel no espaço de uma década, devolvemos o dinheiro do curso".
Não se fez rogada, tomou um duche e um mês mais tarde saía para as livrarias uma bela edição de autor, cujo título era: "Eu dei o corpo ao Manifesto Comunista".
Era uma poética "engagée" e auto-esofágica, que se referia ao refluxo de Trendelemburg como a regurgitação ácida da não-assimilação total dos ideais marxistas. O poema "Barracuda" é bem esclarecedor:

Penei
mas não tenho pena
O silêncio esvai-me a alma cheia de gozos
saboreei a tua glande
no grande manjar
das alcaparras de Outubro
quando 1917 era o meu Potenkin de emoções
só tu podias antegozar no meu clítoris
as sebes de um tufo de ilusões
merda para Marx


A crítica teve uma atitude expectorante: primeiro tossiu, depois considerou um grande xarope, por fim levou a poesia da autora a peito e não hesitou em glorificá-la no Olímpia dos vates.
Acalentada no seu ego, afagada na alma como os grandes lábios da poesia portuguesa do novo Milénio, entregou-se de alma e coração (já sabemos que era bom) ao seu novel afã literário. Um ano depois de "Eu dei o corpo ao Manifesto Comunista" saiu para os Bancos, numa edição apoiada por várias entidades bancárias, a obra: "Eurosucções".
Extremamente bem acolhida pela crítica, foi traduzida em várias línguas e teve um poema transcrito nas paredes da estação do Metro da Gare do Oriente. Chamava-se: "Tolstoi não era meu pai".

Tolstoi não era meu pai
mas podia ter sido
o Destino não quis
foi um acaso
gosto de lamber o cheiro do orvalho nos poentes
rimar-te o olhar com chávenas de frio
sabes porque te amo em desvario
1980 foi um ano bissexto
Tolstoi não era meu pai


Do poema disse o grande crítico Eustácio Penalva:
"A poesia de 'Eurosucções' é um marco milenar na cultura literária portuguesa, ao desenhar novas rampas de exploração do signo, realçando uma trajectória exemplar de coerência por parte de uma autora que descobriu e se descobriu para a lírica, libertando-se do manto diáfano da fantasia, qual Salomé da capital lusitana. A sua construção vérsica entronca no neo-romantismo de Césario, cheira a Vila Viçosa de Espanca, roça por vezes os conceitos desintegracionistas de 65, para não se furtar ao travo amargo de uma geração de 61 e se fixar nas últimas colheitas de Beaujolais. Como o néctar dos socalcos durienses, a poesia desta autora vem convocar à reflexão um país poeticamente adormecido e inócuo. Haja da parte da recensão literária a auto-crítica necessária para se compreender que estamos em presença de uma poética filha da puta".
Quando se esperava que a poesia salvasse a nossa heroína, a pressão do público matou qualquer veleidade à nascença. Batendo Saramago em vendas, recolheu-se em Ibiza, mas a veia criativa tinha secado.
Foi a política que a salvou de um destino triste. Velho conhecido dos tempos de bordel, um amigo de um conhecido de um assessor do Ministro da Cultura convidou-a a ser amiga de um ministro periodicamente sem assessora. Pronto. Foi quanto bastou para recompor a sua vida. Sublimando a sua veia poética num terrível mas positivo afã legislativo, passou a despachar com fartura, movimentando-se com igual à-vontade em todos os gabinetes.
O ministro colheu os louros da ideia, mas foi seu o conceito de Bilhete Combinado, uma descoberta a todos os títulos notável. No campo do mecenato gastronómico nunca tal se tinha visto. Os restaurantes que patrocinassem a cultura tinham abatimentos especiais nos impostos. Sabe-se como o povo gosta de comer fora. Ficaram famosas as noites Gambrinus/CCB ou as "soirées" Tavares Rico/D.Maria II. Quem jantasse na Feira Popular com ementa turística ganhava um bilhete de cinema no Colombo e um bidão de pipocas.
Nos seus 43 anos ainda era uma morena vistosa e bem constituída quando se apaixonou por um surfista que conheceu no Guincho, na orgia nocturna mensal do Ministério.
O amor batera-lhe com força e nem a diferença de idades pareceu incomodá-la. Mas não se pode combater o Destino e os deuses invejavam-lhe o bom coração.



Ao fim de dois meses de uma história de amor digna das melhores telenovelas portuguesas ou mexicanas, acidentalmente descobriu que o jovem era o seu filho licenciado em Belas Partes, regressado da Amazónia, ainda a recuperar de uma amnésia profunda, causada pelo coco psicadélico-lissérgico da tribo dos Truca-Truca. Louro, com um brinco na orelha, sotaque de Manaus, como seria possível a uma mãe reconhecer um filho ?
Quantos e quantos orgasmos incestuosos não teve o desditoso casal de apaixonados ?
E voltou à estrada. Desta feita para uma digressão de Verão ao país real, mais o conjunto "Sardas de burro não chegam ao céu", um grupo algures entre a "boys band", uma milícia popular e um quinteto de "free-jazz".
Nunca conseguiu esquecer o seu filho. Dois anos mais tarde, encontrou-o a trabalhar como arrumador junto às Torres das Amoreiras e não resistiu. Tirou-o daquela vida, deu-lhe um bom banho e uma má sopa de abóbora e passaram a noite na cama: primeiro por motivos sexuais, depois a ler contos de Grimm.
A nossa história acaba aqui, mas podia continuar. Quem disse que o Destino não gostava das putas com bom coração ? Afinal, todas as putas a sério têm bom coração!




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