Ganda Ordinarice

Desabafo bem intencionado e imagético sobre o Salão Erótico de Lisboa.

domingo, setembro 30, 2007

Contos avulsos - VII

A QUESTÃO NÃO É ESSA

A questão não é essa. Posso perfeitamente torturar um ser humano sem que nada me aconteça. Por isso não me venham perguntar o porquê da coisa. Nem tudo precisa de ser racionalmente justificado. O facto é que gosto de torturar. Porquê? A questão não é essa, já disse.
Temos assim como perfeitamente natural o cenário deste Domingo de manhã, chuvoso, cinzento, frio por dentro e por fora. A chuva bate na janela em duetos de vento, embalando sinfonias de folhas que se desprendem das árvores em dissidências militantes de um Outono travestido de Inverno pró-siberiano.
O meu saguão é mais amplo que um saguão normal. Mozart toca na aparelhagem. No chão, um pequeno fio de sangue intriga consideravelmente uma barata, bastante indecisa quanto ao rumo a tomar. Vermelho e preto, preto e vermelho. Lembrei-me de Stendhal. As voltas que esta cabeça não dá...
Estou desconcentrado. Nem torturo como deve ser. As pessoas merecem ser torturadas com profissionalismo.Não é preciso ter estado ao serviço de Henrique VIII para se ser um bom profissional. Mesmo para quem tortura por mero prazer, como eu.Desculpem, ainda não fui ao cerne da questão e ando para aqui às voltas. A torturar também sou assim.
Temos então uma jovem de 23 anos, solidamente amarrada por cordas de nylon a uma cadeira. Está aqui no saguão desde ontem à noite. Hoje não dormi. Passei pelas trevas a ouvir a chuva e Mozart.Com pedacinhos de tortura nos iogurtes que fui comendo.
Chama-se Maria Teresa, mas passei a noite a tratá-la por Teresinha. Corpo apetitoso. Aliás, se assim não fosse, que motivo me levaria a torturá-la ? O prazer advém da degradação dos corpos belos, o que já é uma explicação para as minhas actividades. A questão não é essa.Já vos tinha avisado.
O medo salienta-lhe a beleza dos olhos verde-acinzentados. Ainda tem lágrimas por chorar, depois de uma noite de tortura. O corpo humano sempre me intrigou. Apanhei-a a passear um caniche no jardim. Estrafeguei o cão sem grandes problemas, junto ao escorrega. Tossiu um bocado. Parecia engasgado. A chuva não convida a sair à rua e não havia vivalma. Convencia-a de que o cão tinha desmaiado de repente e trouxe-a para casa, a pretexto de telefonar a um veterinário ou de levar o cão no meu carro. Jaz na minha banheira, rodeado de formigas. A banheira tinha um bocado de doce de morango. Gosto de comer torradinhas com doce e ler BD na banheira, com música jazz em fundo.
Dei-lhe um mata-coelhos na nuca, mal ela entrou em casa. Caiu redonda. Acordou nua da cintura para baixo, só com os sapatos de salto alto. Inicialmente, o olhar foi de espanto.
Como gosto de intrigar, comecei por lhe dar prazer às doze badaladas da meia-noite. Ela não se transformou em abóbora. Fui insinuando a minha língua por entre as suas pernas. Precisei de vários compassos arraçados entre o prazer e o medo para a conseguir descontrair, ao ponto de lhe ter provocado um orgasmo dez minutos depois.
A seguir, fui cortando o pullover às postas. Riscando de dor o seu torso, dando autógrafos de bisturi nos seios. Gosto de estiletes. Sempre gostei. Lembram-me as cidades italianas do Renascimento,com os seus "condottieri" sempre prontos a despachar os incautos numa zona mais escura de Veneza ou Florença.
O sangue foi escorrendo de mansinho até tingir de púrpura o seu púbis de pombinha indefesa. A ideia trouxe-me outros planos. Fui comprar maçarocas. Agora tenho uma enfiada no seu belo ânus e outra atracada na sua fenda vaginal. Já nem sei se teve prazer. A do ânus provocou-lhe dor. Disso estou certo, porque as lágrimas escorreram-lhe com mais força e o sangue subiu-lhe à cabeça. Tive de deitar a cadeira, para poder introduzir a maçaroca.
Agora são dez da manhã e o sol não rompeu.
Por isso, rompi eu o soutien, que ainda estava amarrado à cintura, já bastante tinto de sangue, embora não empapado. Um soutien normal, nada de particularmente apelativo, ao contrário dos seus seios bem desenhados.
Já gastei os Marlboro quase todos. Ela tem aí umas quinze marcas de cigarro no corpo. Ah! esqueci-me de vos dizer que ela não pode gritar porque tem as cuecas na boca, presas com fita adesiva. Sendo mais específico: gritar ela até grita, mas o som não sai. Fica abafado. Devo explicitar: "acuecado".
Os cabelos são pretos, sedosos, compridos. Tem franjinha egípcia à frente, deixa cair em anfiteatro até ao princípio das costas. É muito bela. Há duas horas fui buscar o caniche cheio de formigas e abri-lhe um buraco no estômago. Deixei o cão pingar um pouco para cima dela. Caíram três ou quatro formigas. Uma delas pôs-se a cirandar de um lado para o outro da maçaroca e acabou por entrar no túnel. Os olhos dela encheram-se de um pânico profundo. Do mais profundo que eu vira nas últimas horas. Por fim, a formiga saiu. Ela pareceu aliviada. Foi o que a perdeu.
Fui buscar doce de morango à cozinha. Retirei a maçaroca.Abri-lhe amplamente a vagina. Besuntei com doce de morango. Ela deve ter percebido a intenção, porque tentou guinchar bastante.Com jeitinho, trouxe dez ou quinze formigas da banheira. Pareciam trapezistas de circo, entretidas a passear no púbis como artistas sem rede, entrando no túnel como funcionários do Metropolitano.
Por fim, chateei-me.Usei um silenciador e dei-lhe um tiro na nuca. É quase meio-dia. Talvez vá à missa. Claro que não se trata de pedir perdão. A questão não é essa. Gosto de ver reunida tanta gente com medo da morte. Faz-me sentir Deus.


FIM

domingo, setembro 23, 2007

PORRA, LÁ SE FORAM OS JOGOS OLÍMPICOS!



Dick Hard foi para o Jamor ver o Portugal-Itália de hóquei em campo, num sintético que está um miminho. Se os responsáveis são os da Opsa, os meus parabéns (www.opsa.pt).
Dick Hard foi para o EuroHockey 2007, que decorreu entre 9 e 16 de Setembro no relvado sintético do Complexo Desportivo do Jamor.


Dick Hard viu a selecção portuguesa levar 3-0 da Itália num jogo equilibrado. E lá se foi o sonho de aceder ao torneio de qualificação para os Jogos Olímpicos. Como se isso não bastasse, a selecção portuguesa (“os Linces”) ficou em sétimo lugar (o penúltimo) e desceu de escalão. Mas ainda marcou três golos aos justos vencedores do campeonato, os polacos (3-8).

Se o Portugal-Itália foi fraquito (depois de ver o Europeu no Eurosport uma pessoa fica habituada a caviar e estranha a sandes de torresmo), o Polónia-Áustria da final foi bem bom.
E o jogo acabou com o triunfo da Polónia no último segundo, já com o cronómetro a zeros, na sequência de um canto curto.

Vitória justíssima, de uma formação que exibiu excelente hóquei e podia ter resolvido a partida na primeira parte, apesar dos gritos do seu guarda-redes, que não se calava nem à lei da bala. Estavam os polacos a ganhar por 2-1 e ele relatou o contra-ataque austríaco “em directo e ao vivo”. Segundos depois estava em silêncio, com a igualdade restabelecida, com um golo por entre as pernas.
Do outro lado, o guarda-redes austríaco apresentava o curioso tique de dar stickadas nas suas perneiras com tanta força que o eco chegava às piscinas onde decorreu o Mundial de Piscina Curta.

Aqui o Dick Hard assistiu ao Portugal-Itália bem acompanhado: Rogério Teixeira (ex-diácono, ex-colaborador do Record na modalidade de que falamos, ex-jogador), Barão (ex-internacional), o inconfundível e omnipresente Zé, o benfiquista mais conhecido do Glorioso, ex-sócio do ano (já entrevistado para o Correio da Manhã pelo Dick Hard, através do seu heterónimo jornalista, Luís Graça) e Gema (ex-internacional).

— Ele é “lagarto” mas é boa pessoa — disse o Zé.
E o resto da “troupe” adoptou-me.


Na final de domingo, o Rogério Teixeira veio ter comigo e disse-me que tínhamos aparecido no jornal.

Mas qual jornal? Um gratuito que eu desconhecia totalmente e de que reproduzo o texto que saiu sobre o campeonato, bem como a foto de Jorge Caseiro.

O “Ripa Desporto”, o 1º semanário desportivo gratuito.

À frente da Redacção o conhecido José Carlos Soares, que deu agora à estampa um livro a relatar os seus tempos de desemprego, de três noites seguidas sem dormir, da vergonha de aparecer na casa dos pais, das crises de confiança.

Na bancada, da esquerda para a direita, Rogério Teixeira (de chapéu), Barão, Dick Hard, Zé e Gema, durante o Portugal-Itália (0-3).

Tarde bem passada: entrega dos troféus ao som de “We are the champions” e “Staying Alive”. Os polacos aos saltinhos a cantar: “Campeones! Campeones! Campeones!”. E os austríacos, que ganharam o troféu do Fair-Play a felicitá-los no final, contentes com o segundo lugar e conformados com o golo sofrido no último segundo.

A Escócia completou o pódio (4-3 à Suíça) e seguiram-se-lhes as seelcções de Gales, Itália, Portugal e Ucrânia.

Na “poule” de Kazan, na Rússia, a classificação ficou assim ordenada: Rússia, Bielorrússia, Croácia, Azerbeijão, Dinamarca e Suécia (Nations Challenge Men I).
Na “poule” de Predanovici, Eslovénia, a história foi esta: Eslovénia, Turquia, Sérvia, Lituânia, Eslováquia, Bulgária, Finlândia (Nations Challenge Men II)

Curioso salientar a debilidade finlandesa, uma das grandes potências mundiais de hóquei sobre o gelo. Bem, Portugal também é muito bom no hóquei em patins.

(Parece que já estou a ouvir os protestos, face à classificação no último mundial).

Resta dizer que gostei muito de conhecer os meus camaradas de O JOGO, a Marta e o Rémulo Jónatas. E consegui conter-me. Apetecia-me fazer uns elogios à Marta que poderiam ser considerados brejeiros.

(LUÍS GRAÇA — Pá, tem juízo, tens idade para ser pai dela...
DICK HARD — Tens alguma coisa contra a pedofilia?
LUÍS GRAÇA — Vai mas é falar com o Carlos Cruz...
DICK HARD — Por acaso vi o gajo no lançamento do “Pão com Manteiga” (Oficina do Livro).
LUÍS GRAÇA — Isso é que era um programa de rádio.
DICK HARD — Pois era. A Oficina do Livro merece as mais vivas felicitações por ter editado a obra.
LUÍS GRAÇA — Só estás a dizer isso porque deste uma ganda seca ao António Lobato Faria, a Cristina Ovídio e o Marcelo Teixeira.
DICK HARD — Estás parvo! Os gajos até gostam de mim. Olha, o Marcelo até contou uma muito boa: as telefonistas da editora passam a vida a atender telefonemas deste estilo: “Está? É da Oficina do Livro? O que é preciso fazer para me arranjarem um livro?”

MAS ISTO TEM ALGUMA COISA A VER COM HÓQUEI EM CAMPO?

Claro que sim. O problema legal da pedofilia é os graúdos andarem à stickada aos putos enquanto eles são canininhos.
Antigamente, a pedofilia em Portugal disputava-se em campos pelados. Era só poeira. Hoje não. O sintético do Jamor estava um miminho. Vi montes de crianças agarradas às bolas. E os adultos todos satisfeitos, prazenteiros mesmo.
— Vá, larga-me o stick, vai agarrar nas bolas.

O que para ali ia de nomes estrangeiros no grupo dos apanha-bolas.

ATÃO E AS GAJAS DO SALÃO DE PORTIMÃO?
Muita calma! Muita calma! Muita calma! Não estrilha, senão não se publica mais foto nenhuma das meninas...
Agora o Dick Hard vai em digressão poético-literária. Boticas, Espanha, Beja. Com Comunidade de Leitores pelo meio. Porra, até parece mesmo um escritor...



Auto-publicidade Poético-erótica

quinta-feira, setembro 20, 2007

8ª Festa do Cinema Francês 2007




8ª FESTA DO CINEMA FRANCÊS com Cine-Música

Inauguração no dia 3 de Outubro de 2007 no Cinema São Jorge em Lisboa.
É um festival de antestreias. Um fogo de artifício de longas-metragens, 25 ao todo, que apresenta as mais importantes obras francesas do ano. Filmes para o "grande público", mas também filmes independentes, primeiros filmes, de todos os estilos e géneros, apresentados pela sua qualidade, originalidade, modernidade e potencial cultural.

3 a 15 Out Lisboa, Cinema São Jorge e Instituto Franco-Português
25 a 28 Out Porto
10 a 12 Out Évora
15 a 19 Out TAGV, Coimbra
19 a 21 Out Almada
24 a 27 Out Faro.

Nesta edição um novo evento paralelo: Cine-Música.

(para ampliar, clique na imagem)



CINEMATECA PORTUGUESA-MUSEU DO CINEMA
1 a 31 de Outubro de 2007
De Segunda à Sexta-Feira às 15:30

UM PAÍS, UM GÉNERO: A FRANÇA E O POLICIAL
(22 títulos diferentes)

O filme policial, ou polar, é um dos géneros mais perenes do cinema francês, sendo praticado há quase um século. Houve realizadores especializados no género, mas alguns dos mais ilustres nomes do cinema francês também o abordaram, como Renoir, Chabrol, Becker e Melville. Grandes vedetas como Jean Gabin, Alain Delon e Lino Ventura participaram de inúmeros polars, por vezes como criminosos, outras vezes como policiais. Neste ciclo, poderemos ver filmes realizados entre os anos 30 e os anos 90, numa autêntica retrospectiva, composta por grandes clássicos, como Touchez pas au Grisbi, Le Samouraï, Quai des Orfèvres e Le Passager de la Pluie e algumas obras menos vistas. As diversas mitologias criadas por este género cinematográfico poderão ser percorridas ao longo deste mês na Cinemateca, no âmbito da Festa do Cinema Francês.

1/10: LA NUIT DU CARREFOUR (Jean Renoir)
2/10: L'ASSASSINAT DU PÈRE NOËL (Christian-Jaque)
3/10: QUAI DES ORFÈVRES (Henri-Georges Clouzot)
4/10: DEDÉE D'ANVERS (Yves Allégret)
8/10: PANIQUE (Julien Duvivier)
9/10: LA MÔME VERT-DE GRIS (Raymond Borderie)
10/10: TOUCHEZ PAS AU GRISBI (Jean Becker)
11/10: DU RIFIFI CHEZ LES HOMMMES (Jules Dassin)
12/10: CLASSE TOUS RISQUES (Claude Sautet)
15/10: MÉLODIE EN SOUS-SOL (Henri Verneuil)
16/10: LE PASSAGER DE LA PLUIE (René Clément)
17/10: POLICE (Maurice Pialat)
18/10: POULET AU VINAIGRE (Claude Chabrol)
19/10: NEIGE (Juliet Berto)
22/10: BOB LE FLAMBEUR (Jean-Pierre Melville)
23/10: LE DOULOS (Melville)
24/10: LE DEUXIÈME SOUFFLE (Melville)
25/10: LE SAMOURAÏ (Melville)
26/10: LE CERCLE ROUGLE (Melville)
29/10: UN FLIC (Melville)
30/10: L 627 (Bertrand Tavernier)
31/10: L'HUMANITÉ (Bruno Dumont)

quarta-feira, setembro 19, 2007

GANDAS ORDINÁRIOS: FECHARAM A “PREMIÈRE”





É ao som dos meus amigos do Dixie Gang (Pimenta da Terra, Live, Valado de Frades) que escrevo esta crónica.
Porque faz todo o sentido celebrar a morte da “Première” com uma marching band. Os funerais em New Orleans podiam ser uma celebração do que de bom o falecido tinha alcançado.

Sou português, escritor, 45 anos. Não me chamo Bernardo e não sou de Santarém, mas vou pegar o touro pelos cornos. Preparem-se porque vem aí “bernarda”, ao som de “Bourbon Street Parade”. E talvez esteja mesmo no bourbon (bebido em doses industrais) o segredo para compreender o encerramento da “Première” a quatro número de chegar à centésima edição.

É preciso estar muito bêbedo, muito drogado ou ser muito incompetente para fechar a única revista de cinema que existia neste pequeno rectângulo à beira-mar plantado.
É preciso estar muito bêbedo, muito drogado ou ser muito incompetente para desaproveitar uma equipa da qualidade da “Première”, começando pelo director José Vieira Mendes, prosseguindo no redactor principal Luís Salvado e continuando no resto de uma equipa que todos os meses se esforçava, com paixão, para dar o melhor possível ao leitor.

É isso que vos falta, senhores: paixão. Falam de globalização, falam de “a vida é assim”, “os tempos mudaram”. Em verdade, em verdade vos digo: quando os vermes estiverem a comer o vosso corpo putrefacto, gostava de saber para que vos serviu a globalização, a implementação, o dowsizing, a deslocalização, a descontinuidade. O vosso problema é este: não gostam de cinema, não sabem falar português e preocupam-se mais com a gravata que vão usar ao almoço do que com as estreias da semana.

Para vós, cinema é pipocas e Coca-Cola, é bidões de jovens que se desabituaram de pensar e que gastam mais dinheiro nos produtos derivados do que nos cinemas. Para vós, cinema é um produto.



Senhores: vós desrespeitais os leitores; vós desrespeitais a equipa da “Première”, vós desrespeitais o serviço público que é manter a única revista de cinema existente. Plataformas digitais? Net? Não brinquem comigo. Citando o meu amigo Miguelanxo Prado, glorioso autor de BD, arquitecto e homem de bem “se pudesse levar o computador para a praia ou para o jardim, tudo bem”.

Não dá lucro? Como não dá lucro, com os números que são apresentados no PÚBLICO pela voz do editor José Vieira Mendes?
Se não dá, é porque o vosso filme é outro. Tendo um “produto” bem distribuído, recheado de potenciais sinergias, com uma equipa dedicada e de alto gabarito, como é que CONSEGUEM que não dê lucro?

O fim da “Première” americana em papel é grotesto; o zumzum do fecho da “Première” francesa é assustador, o fim da “Première” portuguesa é um escândalo.

Não se trata as pessoas como sacos de lixo que se colocam à porta da Luís Bívar, para serem removidos pela camioneta do lixo, de madrugada. Por mais argumentos que adiantem, só vos posso dizer: sois mais do que medíocres, sois vocações naturais para a incompetência. Sois os vossos piores inimigos. Não sabeis o que fazeis. Pior: nem existe no vosso espírito a menor suspeita. E suspeito mesmo que nem sequer sabeis o nome do realizador de “A suspeita”. Vós apreciais outro tipo de comboios. O comboio das aparência, o comboio das reuniões depois do almoço, o comboio dos sorrisos amarelos.

Vós sois um cruzamento de Frankenstein com Pedro Santana Lopes: monstros da “gaffe”, titubeantes nos passos desajeitados, inventores de razões para ir com a maré.

Sois felizes? Se sois, é porque não gostais de cinema.

Quem está a mais no cinema não é a “Première” e a sua Redacção. Sois vós.



Sou muito devedor da “Première”. Primeiro, da francesa. Depois da portuguesa. Porque não deve ter havido um único artigo sobre cinema que tenha escrito para a revista de bordo da Portugália (PGA Magazine) sem pedir um conselho ao Luís Salvado, sem ouvir uma opinião do José Vieira Mendes. O Luís Salvado poupou-me horas e horas de buscas na Net. O Luís Salvado em 30 minutos dizia-me tudo o que eu precisava de saber.

Sou muito devedor ao Luís Salvado por todo o empenho e dedicação que colocou na semana em que organizámos o “Filotoon”, um festival de cinema de animação que decorreu de 7 a 13 de Outubro de 2002 na Sociedade Guilherme Cossoul. Todos gastámos o nosso dinheiro e o nosso tempo: eu, o Luís Salvado e o Gastão Travado.
E ganhámos mais uma gloriosa memória da nossa amizade. Comigo a sair de casa em cima da hora das sessões, porque a selecção de voleibol de Portugal estava a fazer um brilharete no Mundial.

Sou muito devedor ao Luís Salvado por me ter apresentado ao Michel Picha, há meses, no Maria Matos, a seguir à projecção da sua última longa-metragem de animação. E por ali ficámos durante duas horas e meia, a falar de cinema, a falar de Hergé, a falar da vida.

Conheço o José Vieira Mendes há mais de 20 anos. Conheço o Luís Salvado há pouco menos do que isso. Claro que sou amigo deles, mas isso não influencia o que escrevo. Vós haveis desaproveitado a qualidade, a troco não se sabe bem de quê.

Tende a decência de me processar, para eu ter o prazer de aparecer em tribunal com António Garcia Pereira, se ele tiver tempo e paciência de aturar um antigo aluno numa causa tão “pequenina” como esta.

E podeis ter a certeza de que vou levar muito tempo a falar.



Deixem que vos confesse uma coisa: sou da fornada 1975/1980 do Liceu Camões; sou neto do comandante Ayres Nunes, que saía da barra da Ilha de Moçambique a dar com um estoque na cabeça dos tubarões que seguiam na esteira da lancha que ia recolher os náufragos dos navios afundados pelos U-Boat alemães. Mas se eu vos falar de Wolfgang Petersen vocês pensam em cinema e em submarinos? Ou acham que é um novo modelo de uma aparelhagem da Bang and Olufsen?

Haveis acabado com a “Première”. Haveis acabado com considerável parte da vossa dignidade. E dai graças a Deus por Eduardo Prado Coelho ter falecido. O seu “Fio do Horizonte” por certo vos reduziria a estilhas. Eu disse estilhas, não disse pastilhas. Parem de pensar nos produtos que podem vender nos bares dos cinemas.

Pensem cinema!
Sabeis quem foram os irmão Lumière? Suspeitais?
Eu suspeito que nem com Thomas Alva Edison e os Lumière bem juntinhos havia luz suficiente para abrir o vosso espírito.

Acabar com uma revista é fácil. Tão fácil como acabar com a vossa dignidade. E nem vos conheço. E se pensarem em me chamar nomes, não se esqueçam que a Dra. Cristina Rosa me entrevistou para chefiar um dos vossos projectos em finais dos anos 90, já num processo de selecção final.
Não devo ser assim tão bronco e ressabiado.

Porque não fui escolhido? Porque não avancei com uma proposta financeira. Porque é muito possível que tenham arranjado uma pessoa mais indicada. Porque a “Première” ainda não existia na altura e a “Quo” não era propriamente “my cup of tea”. E eu não tinha filhos para criar.

Eu hoje estive na sala de Redacção da “Première”. E assisti a uma enorme lição de dignidade dada pelos presentes. Uma serenidade enorme, um espírito de dar o máximo até ao fim. Meus senhores, eu aposto dobrado contra singelo de que vendem 100 mil exemplares da “Première” numa semana, no número de Outubro. Se se derem ao trabalho de fazer essa tiragem.



Eu sei que se os deixarem, o José Vieira Mendes, o Luís Salvado e o resto da equipa vão fazer um último número a todos os títulos memorável. Mas se calhar não há interesse nisso.

Viva o Cinema! Viva a “Première”! Abençoados os pobres de espírito, porque é deles a noite da 24 de Julho e não vão para o King Triplex, a Cinemateca ou para o Quarteto perturbar as sessões de quem gosta de cinema.

Eu sei que o mundo está a mudar. Mas Dick Hard não é silenciável. Dick Hard é neto do comandante Ayres Nunes. Dick Hard leu muita BD. Dick Hard tem a fúria de Ardente em “A trompa de névoa”, Dick Hard tem a cabronice de Corto Maltese em “Fábula de Veneza”. Dick Hard tem tanto fascínio por cinema quanto Dirk Bogarde pelo pequeno marujinho.

O vosso espírito economicista está como os canais dessa Veneza pestilenta: à espera da morte. Adornado na Ponte dos Suspiros.

Meus senhores, chamo-me Dick Hard, para vos servir. À espada, à pistola, à estalada, à cabeçada no céu da boca. Aguardo que nomeiem o fantasma de Marlon Brando como vosso padrinho. Perceberam o trocadilho ou apenas conhecem a Angelina Jolie e o Brad Pitt?

Moro nas Avenidas Novas. Sou facilmente detectável e abatível.
Aproveitem agora, que eu estou de costas.

Mas a “Première” não conseguiram vocês matar. Ficou para a história do cinema em Portugal.

Não sou um leão, não sou uma estrela, não sou um leão ao vento, nem tudo o vento levou. Sou um homem que gosta de cinema e desabafou.

Calmamante. Vocês nunca me viram chateado. Furibundo, eu até sou homem para ver três vezes seguidas um filme de Manoel de Oliveira e simular que não doeu nada.

Sem rancores, deliciem-se com a vossa mediocridade. Já sei que o vosso sono não é perturbável por nada. Para isso era preciso ter consciência.

Dick Hard, 18/9/2007, no meu bunker das Avenidas Novas.



— Adolfo, Pequim já está a ferver?
— Não, os Jogos são apenas em 2008. Há tempo.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Ganda pinta, ó Jorge!


Estava eu a descer o Chiado e resolvo entrar na Bertrand. Olho para a direita e vejo o meu "De boas erecções está o Inferno cheio" ao lado do "O poeta nu" do Jorge Sousa Braga, uma das minhas grandes influências poéticas assumidas, desde que li uma crítica no "Expresso" ao seu livro "De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu".
Ora bem, o Jorge não apareceu no bar "O Manel", em Santa Cruz. Muito naturalmente, porque uma coisa é ir de Lisboa a Torres Vedras e outra é vir do Porto para Santa Cruz. Falhei o homem, que deu falta de comparência. Mas tive o prazer de assistir a uma das melhores noites poéticas da minha vida (uma madrugada-maratona de excelente nível, organizada pela Margem D'arte e com o Luís Filipe Cristóvão a declamar muito bem o meu "Generalizações", já popularizado pelo Rui Unas).
Olha que porra! Falhei o Jorge Sousa Braga. Um dos meus ídolos, daqueles que ficavam "de abraço" numa noite. Digo eu.
Um dia será, certamente.

Luís Filipe Cristóvão


Mário Lisboa Duarte


Gonçalo Veiga


Ter o meu livro ao lado da antologia dele já me dá um gozo ejaculatório do caraças. E estou de consciência tranquila porque comprei já uns 15 "O poeta nu", para dar aos amigos. Só da Fenda foram uns dez, daqueles de que fala o Pedro Mexia na crítica que fez no PÚBLICO. E da Assírio e Alvim já vou nuns quatro, com o prazer de dar a descobrir o poeta a uma série de gente.

E ainda dialoguei com o Mário Viegas, no "Portugal não, Europa nunca" a propósito do "Portugal". O Mário não estava à espera de que houvesse alguém na Sala Estúdio que conhecesse o poema. Disse-me:
— Muito bem.
E seguiu para bingo com o espectáculo.
Dia 29 vou ver "As vampiras lésbicas de Sodoma" ao Pax Júlia, a Beja, onde estarei a declamar ordinarices no Festival do Amor. Mas já avisei o pessoal em Lagos (onde eles foram fazer "As obras completas de William Shakespeare em 97 minutos"), portanto eles estão preparados psicologicamente.

Na voz de Luís Gaspar:

domingo, setembro 16, 2007

Teatro

UM NATAL ESCALDANTE
OU
É NATAL, NINGUÉM LEVA A MAL


(Um Auto de Natal nas Seychelles)




PERSONAGENS:

Pai Natal — Um velhinho gordo e muito bêbedo, de nariz vermelhusco. Um gorro de Pai Natal na cabeça, botas de Pai Natal nos pés. Calções de banho à Pai Natal.
Menino Jesus — Atleta louro, de cabelos aos caracóis e olhos azuis, praticante de windsurf.
Diabo — Criatura subversiva, com um panamá na cabeça, por onde lhe saem os corninhos. Umas bermudas às florinhas.
Deus — Ser de longas barbas e uma túnica branca.
Belmira — uma stripper contratada.
Arménio — Proxeneta da Belmira.


por


DICK HARD





(Ilhas Seychelles. Areia e palmeiras em fundo. O Diabo está deitado numa rede, a ler a Playboy. O Pai Natal está sentado numa cadeira de praia, muito bêbedo, com um copo de Margarita numa mão, sonolento. Tem uma arca frigorífica ao seu lado. Deus está de volta de um grelhador, a assar salsichas. O Menino Jesus chega da água, com uma prancha de windsurf. Ouve-se música hawaiana)

MENINO JESUS — (a arrastar a prancha com uma certa dificuldade) — Ouve lá, ó Deus, podias dar aqui uma mãozinha...
DEUS (sem olhar para o Menino Jesus, a cuidar das salsichas) — Obrigado. Já não tenho idade para essas coisas...
MENINO JESUS — Não te faças de novas. Sei muito bem o que fizeste. És muito engraçadinho !
DEUS (a disfarçar) --- Sabes muito bem que não fiz nada.

(O Menino Jesus afasta-se e sai de cena, com a prancha. O Diabo pára de ler a Playboy e dirige-se a Deus)

DIABO — És terrível. Então isso faz-se ao Menino Jesus ?!?
DEUS — O que é que eu fiz ?
DIABO — Não te armes em sonsinho. Eu vi-te muito bem a abrir as águas quando o miúdo içou a vela. Coitado do puto, as miúdas todas a olhar e ele em seco.
DEUS — Oh, isso ! Uma brincadeira inocente. A praxe de Coimbra é muito pior. Já para não falar em Barrancos. Se o Menino Jesus é homem para fazer windsurf também é homem para aguentar uma brincadeira. É Natal, ninguém leva a mal.
DIABO — E depois eu é que sou mau.
DEUS — Não, sou eu !!! Quem é que meteu piri-piri na "Margarita" ali do velho ?

(Aponta para o Pai Natal, que está a ressonar como um porco. Faz-se uma pausa, para que se possa ouvir o ressonar do Pai Natal, severamente amplificado)


DEUS — Este "man" não acorda nem à lei da bala. Ele bebeu a "Margarita" com o piri-piri ?
DIABO — Que nem ginjas. Também já tinha despejado três minis, duas Super Bock e uma garrafa de tinto do Cartaxo. Mais piri-piri menos piri-piri vai dar ao mesmo.
DEUS (prova uma salsicha) — Eh! pá, mas dá um mau aspecto do caraças. Temos uma imagem a defender. Passam aí as pessoas e o Pai Natal ali a roncar que nem um lorde, todo esparramado na cadeira. Já viste o exemplo para os miúdos ?
DIABO (atira a Playboy para a areia, levanta-se, vai direito a Deus, tira duas salsichas e espeta-as nos corninhos) — Esta porcaria nunca mais está pronta. Tenho de meter isto na cabeça, para ver se despacho as coisas. E quanto aos miúdos, não te preocupes. Estás nas Seychelles. Isto é só gajas de mamas à mostra, não vale a pena preocupares-te com a moral.
DEUS — Desculpa lá, mas eu criei toda a gente nua. O mal foi a Eva ter desaquietado o Adão.
DIABO — Não sejas moralista. Deixa lá o velho beber uns copos. Nunca mais passo férias contigo ! Estava tão bem lá no Inferno. Ainda por cima iam lá tocar os "Iron Maiden" e os "AC/DC". Tu és todo cheio de nove horas, não deixas ninguém gozar as férias como deve ser.

(Faz vozinha de falsete)

"O Menino Jesus já fez a digestão? Ainda não pode ir ao banho. o Menino Jesus já penteou os caracóis? O Menino Jesus para aqui, o Menino Jesus para ali". Eh! pá, deixa o puto. És todo coisinho e depois pregas-lhe partidas indecentes.
DEUS — Desculpa lá, mas não te admito lições sobre a forma de educar o meu filho. Além do mais, tu foste expulso do Céu porque davas maus exemplos aos outros anjos. Se te convidei para vir passar férias com a malta foi só para fazer a vontade ao puto, que tinha saudades tuas. Mas se te começas a portar mal, fica sabendo que te lanço uma praga e te transformo em sapo.
DIABO — Ai que medo! Pensas que me metes muito medo? Era só esperar que uma gaja qualquer me desse um beijinho para eu me transformar num príncipe.

DEUS (dá outra dentada na salsicha) — Então está bem. Vai fazendo das tuas e depois queixa-te.
DIABO — Tu estás com a mania que és o Deus do Antigo Testamento. Não é nada disso. Estamos no século XXI, velho. É preciso acompanhar os tempos.
DEUS — Eu até já tenho e-mail, vê lá tu: http://www.Godsavethe wales.com.
DIABO — Isso não quer dizer nada. O Pai Natal, que é um velho bêbedo e carunchoso, também tem um e-mail.

(O Pai Natal acorda, estremunhado. Atira fora o copo, mete a mão à arca frigorífica, abre a tampa, tira uma lata de cerveja, abre a tampa, arrota grandemente, dá um gole, vira-se para o outro lado e adormece instantaneamente. Põe-se a roncar em stereo)

DIABO — Este gajo é uma autêntica esponja.
DEUS — O alcoolismo é muito triste. O homem ficou assim depois de um acidente de trenó, na Noite de Natal de há cinco anos.
DIABO — Não soube de nada.
DEUS — Passa aí umas cervejas que eu conto-te.

(O Diabo dirige-se à arca frigorífica do Pai Natal e tira duas latas de cerveja. Quando a tampa se fecha, o Pai Natal acorda e vira-se)

PAI NATAL — Ahn?!? O que é? Está na hora do jantar ? É mais um Jameson com duas pedras de gelo, se faz favor.

(Vira-se para o outro lado e volta a adormecer)

DIABO (leva as cervejas. Dá uma a Deus e bebe a outra. Vêm os dois à boca de cena, enquanto dialogam) — Está de todo.
DEUS — O homem sofreu o seu bocado. Como eu te estava a dizer, o tipo teve um acidente de trenó, há uns cinco anos. Ia a voar ali pelas bandas da Costa da Caparica, chocou com um disco voador cheio de marcianos. Ele não sofreu nada, mas uma das renas bateu de cabeça e ficou-se logo. As outras três ficaram perturbadas. Uma meteu-se na cocaína e até dava pena ver aquele nariz sempre a pingar. Não durou seis meses. Além do mais, caiu um pacotinho de cocaína no presente dos miúdos, numa chaminé...

DIABO — Ai ela ainda trabalhou um Natal?
DEUS — Pois, o acidente foi no Verão. Andavam a exprimentar uma melhorias que tinham feito no trenó. Das renas que sobraram, uma meteu baixa psiquiátrica e a outra ficou-se com uma cirrose. E o Pai Natal começou a beber também. Até hoje.
DIABO — Isso é uma história dos diabos!
DEUS — O quê, também têm disso, lá no Inferno?
DIABO — Não, foi força de expressão. Mas bebe-se bastante, por acaso. Sabes como é. O calor puxa. E depois é tudo malta com muitos pecados. Puxa à bebida.
DEUS — No Céu também andam a fazer abaixo-assinados. O movimento mais forte é o S.P.T.
DIABO — O que é isso?
DEUS — É um grupo de pressão favorável à sangria. "Sangria Para Todos".

(O Menino Jesus regressa à cena, a ler uma revista de surf)

DIABO (para o Menino Jesus) — Então, ó puto, tens engatado muitas gajas?
MENINO JESUS (distraído) — O quê?!?
DIABO — Gajas, miúdo, gajas !
MENINO JESUS (baralhado) — Gajas, o quê?
DIABO — Ai, valha-te Deus, que é como quem diz, valha-te o teu pai. Estás mais tenrinho que um bife do lombo depois de levar com o martelo.
MENINO JESUS — Não percebo nada do que estás a dizer.
DIABO (para Deus) — Ouve lá, o teu filho está um bocado envergonhado para a idade. Não achas que lhe devíamos arranjar uma miúda para ele se iniciar nas lides ?
DEUS (zangado) — Deixa o miúdo em paz. Não quero cá orgias infernais. Viemos passar o Natal às Seychelles para descontrair, não foi para armar confusão.
DIABO (persuasivo) — Mas qual confusão ! Isto não dá confusão nenhuma. Miúdas giras é o que não falta por aí. Talvez haja uma ou duas que não interessam nem ao Menino Jesus, mas o resto é tudo material de primeira.


MENINO JESUS (volta a sair de cena, aborrecido com a conversa) — Vou mas é ler a minha revista de surf. Vocês só têm conversas porcas.
DEUS (surpreendido, para o Diabo) — Estás a ver isto ?!? Tu é que estás para aí a dizer baboseiras e o meu filho vira-se contra mim.
DIABO — A culpa é tua. Reprimes o miúdo em demasia. Eu sei que não dou o exemplo, mas a tua forma de ver as coisas é demasiado exagerada. O miúdo está a precisar de ir à tropa, para se fazer um homem. Onde é que já se viu ? Está todo apanhadinho pelo surf, não liga às miúdas...
DEUS — Não te preocupes com isso. As coisas acontecem quando tiverem de acontecer. Além do mais, sou contra a tropa.
DIABO — És é um grande hipócrita. E o Serviço Celestial Obrigatório?
DEUS — Só te fez bem.
DIABO — Duvido muito. Seis meses a ir à missa todos os dias, a entoar salmos, ajudar as velhinhas a atravessar a rua. O pior de tudo foi a semana de campo, passada na Assembleia da República, a dar apoio espiritual aos políticos.

(Ouve-se um arroto monstruoso. O Pai Natal acorda. Levanta-se da cadeira, espreguiça-se. O palco fica todo escuro, com um holofote a incidir exclusivamente sobre o Pai Natal. Ouve-se "Noite Feliz". O Pai Natal dá saltinhos a ritmo, de um lado para o outro do palco. Dois minutos depois, a luz regressa. Deus e o Diabo estão à volta das salsichas)

PAI NATAL — Então, esse jantar, é para hoje?
DIABO (tira uma salsicha dos corninhos e come-a) — Aqui não há criados. Queres jantar, ajuda na cozinha, ó chulo das crianças !
PAI NATAL (irritado) — Ó Diabo, tu não me irrites! O que é isso de estar a chamar-me chulo das crianças?
DIABO — É o que tu és, minha esponja bêbeda equipada à Benfica. Tanta fome no Mundo, tanto analfabeto...e o que é que tu fazes uma vez por ano? Vais distribuir brinquedos. Abre os olhos ! Para que é que servem os brinquedos na Etiópia? Devias era arranjar fundos da UNICEF, para acabar com a pobreza. Os miúdos querem lá saber dos presentes.
PAI NATAL (abraça-se a Deus, a chorar. Deus faz-lhe festinhas na cabeça) — Não é verdade, não é verdade. Ele está a mentir, não está?
DEUS — Está, pois. Deixa lá que ele é mau. Vai para o Inferno, quando acabarem as férias.


PAI NATAL (voz de miúdo birrento, para o Diabo) — Mau, vais para o Inferno.
DIABO — Isso dá-me cá um abalo do pífaro. Não me aquece nem arrefece.

(Regressa o Menino Jesus, com outros trajes. Vem de camisa às florinhas, bermudas às florinhas e uns ténis)

MENINO JESUS (para o Diabo) — Já há jantar?
DIABO — Mau, agora o puto também pensa que eu sou a sopeira de serviço. Olha lá, enquanto tu andas a fazer surf, há pessoas a trabalhar para ti. Vê lá mas é se tens juízo...
MENINO JESUS (muito queque, embaraçado e humilde) — Desculpe, tio. Não queria ofender. É que a fome já vai apertando.
PAI NATAL — Tenho sede.
DIABO — G'randa bêbedo ! Passou a tarde toda a mamar e a roncar, mal acorda já está com sede. Velho inútil. Chulo das crianças !
PAI NATAL (dirige-se ao Diabo, perturbado e começa a desabafar) — Madraço! Palhaço! Não sabes o que custa a vida. Com sete anos já eu andava nos Restauradores a vender balões às crianças. Sou órfão de pai e mãe. Trabalhei nas minas da Panasqueira, embarquei para a Noruega, na pesca do bacalhau. Tu não sabes o que custa a vida. Não cheguei a Pai Natal à custa do nome de família. Dei no duro. Tudo o que tenho saiu-me do corpo. Palhaço !
DIABO (levanta-se, vai direito ao Pai Natal, encosta-lhe a cabeça à fronte, dá-lhe uma turrinha à futebolista) — Vê lá se não te dou com os cornos ! Não te admito que me insultes, estás a ouvir, ó velho carunchoso?

(Menino Jesus mete-se no meio, a separar. Nesse momento chega uma miúda toda boazona, chamada Belmira)

BELMIRA (voz insinuante) — Desculpem. Eu não queria incomodar. Este é que é o bungalow 666?
DIABO — Sim, porquê ? Posso ser-lhe útil?
MENINO JESUS (para ela) — É a menina Belmira, não é?
BELMIRA — Foste tu que me chamaste, fofinho?
MENINO JESUS (dá-lhe dois beijinhos na face) — Exactamente. Tenho o prazer de te apresentar o Pai Natal...
PAI NATAL — Desculpe, não tenho prenda nenhuma para si. Não me avisaram que havia visitas...
BELMIRA — Ora essa! Eu é que sou o vosso presente de Natal, não é, querido? (para o Menino Jesus)
MENINO JESUS — Nem mais. Este senhor aqui de barbas é o meu pai, mas podes tratá-lo por Deus. E aquele ali de panamá e corninhos ao sol, tipo caracol, é o Diabo.
BELMIRA — Olá, simpático.
DIABO (aproximando-se do Menino Jesus e segredando-lhe) — Olha lá, pelo preço que combinaste achas que dá direito a uma geral?
MENINO JESUS — Ó tio, não é nada disso. A Belmira veio só para fazer um showzinho de strip e nada mais. Só para tirar um pouco da melancolia da noite, estão a perceber?
PAI NATAL — Eu quero é ponche! Quero ponche no sapatinho!
DIABO — Os cornos do meu pai é que tens ponche. Não bebes mais nada hoje, odre das antiguidades.
DEUS — Por amor de mim, parem já com a discussão, que esta menina até fica mal impressionada connosco. Então, qual é a sua profissão, se me é permitido perguntar?
DIABO (para o Menino Jesus, em surdina) — O teu pai ainda não percebeu nada, pois não?
MENINO JESUS (para o Diabo) — Não te preocupes, que não demora nada.
DIABO — Vai ser bonito.
BELMIRA (para Deus) — Eu tiro a roupa.
DEUS — É alfaiate ?
BELMIRA — Não é bem.
DEUS — Costureira?
BELMIRA — Quase.
DEUS — Estilista?
DIABO (para o Menino Jesus) — Lá estilo não lhe falta, lá isso é verdade.
DEUS — Desisto.
DIABO (provocador, para Deus) — Tens a mania que sabes tudo.
DEUS (para o Diabo) — Cala-te. A conversa não chegou à cozinha.
BELMIRA — Eu sou uma striper.
DEUS — É uma... striper. Aqui? Nas Seychelles, onde toda a gente faz topless? Qual é a lógica?
BELMIRA — Foi o seu filho que me contratou, para alegrar a noite.
DEUS (para o Menino Jesus, fazendo um gesto imperioso) — Ó filho, chega aqui, se faz favor.

(O Menino Jesus aproxima-se, surpreendido e leva logo um estalo. Deus põe um dedo à frente do nariz e admoesta-o)

DEUS — O que é que eu te disse sobre o dinheiro mal gasto? O que é que eu te disse? Em segundo lugar, quem é que pediu para contratar uma striper? Esta noite é dedicada à família. Temos de estar todos juntos. Foi o cabo dos trabalhos para nos juntarmos e tu fazes logo isto. Deixei o S. Pedro aflitíssimo no Céu, praticamente sem pessoal, o Diabo deixou o Inferno sem ar condicionado, o Pai Natal só vai distribuir os presentes amanhã e o menino contrata uma striper, uma estranha, numa noite tão especial?
BELMIRA (embaraçada, para Deus) — Desculpe, eu não queria causar incómodo. O melhor é ir-me embora...
DEUS (agarra Belmira por um braço) — Não vai nada, a menina não tem culpa nenhuma. O meu filho é que é um desmiolado. A menina vai fazer o seu trabalho, com toda a dignidade. Mas o meu filho vai amargá-las.
(Para o Menino Jesus)
Olha lá, posso saber como é que pagaste à menina?
MENINO JESUS (cabeça baixa, muito comprometido) — Passei lá pela Tesouraria e pedi um adiantamento.
DEUS — E quem é que deu o adiantamento ao menino, quem foi?
MENINO JESUS — Foi o S. Tomé.
DEUS — Ó pá, isto é ver para crer! E o S. Tomé deu-te o adiantamento sem mais nem menos?
MENINO JESUS — Eu disse que era para fazer um grande festival de windsurf natalício e ele colocou na rubrica "diversos".
DIABO — Nós temos uma ilha nas Caraíbas só com empresas da tanga, para limpar dinheiro. Evitam-se estas confusões todas.
BELMIRA — Ai, não discutam mais por minha causa. Nem me sinto bem.
DEUS — Tem muita razão. Já acabou. Quando quiser, pode começar o seu trabalho.

(Deus, o Menino Jesus, o Diabo e o Pai Natal sentam-se nas cadeiras. Belmira começa a tirar a roupa, ao som do coro infantil de Santo Amaro de Oeiras: "Pra todos um bom Natal, pra todos um bom Natal, desejo um bom Natal, para todos nós". Belmira acaba o strip e Deus põe-lhe uma manta pelas costas)

DEUS — Ponha lá qualquer coisinha em cima de si, que isto à noite arrefece um bocadinho.
PAI NATAL — Por isso é que convém tomar um groguinho, está a ver?
DIABO — Cala-te, semáforo alcoólico!
BELMIRA — Então, então, o meu strip não os pôs mais bem dispostos?
MENINO JESUS — Então não pôs?!?
PAI NATAL (bêbedo, levanta o braço em sinal de virilidade) — Isto um gajo quando é novo...
DEUS — Olhe, tenho pena de a deixar ir sozinha pela noite fora. Porque é que não passa o Natal cá com a gente?
BELMIRA --- Muito obrigada. Não estava à espera. Nem sei o que dizer.

(Sentam-se todos à volta de uma fogueira. Ouve-se a música: "Os meninos à volta da fogueira...")

DIABO (para Belmira) — Quer dizer, isto nem na noite de Natal é dia de folga, pelos vistos?!?
DEUS (para o Diabo) — Não sejas malcriado, mafarrico de uma figa. A menina Belmira é nossa convidada.
DIABO (para Belmira) — Ó menina Belmira, não me diga que se ofendeu...
BELMIRA (sorridente, para o Diabo) — Não, não...esteja à vontade. Uma mulher com a minha profissão está habituada a ouvir tudo. E cara alegre.
MENINO JESUS (tentando moderar o Diabo) — Ó tio, veja lá se consegue ser um bocadinho decente com a Belmira, está bem?..
DIABO (chateado) — Sou sempre eu, sou sempre eu...uns são filhos, outros são enteados...

PAI NATAL (a gritar, de um momento para o outro) — Quero ponche! Quero ponche! Quero ponche! Hoje é noite de Natal ou não é ? Que merda de noite de Natal é esta em que não há ponche?
DIABO --- Ai, o caraças! O raio do velho está de todo. Pensei que estava quase a dormir, voltou a dar-lhe! Queres o quê, ó reservatório sem fundo?
PAI NATAL (levanta-se, a esbracejar) — Ponche! Ponche! Ponche!
BELMIRA (muito estúpida) — Um cliente meu tem um carro desses. Um Ponche 911 S, um bocado antigo, mas muito bonito.
PAI NATAL (olha para Belmira, espantado) — Isso bebe-se? (desequilibra-se e cai no colo de Belmira)
DIABO (para Menino Jesus) — O velho está a fazer-se mais bêbedo do que está. (Depois, para o Pai Natal) Ó velho, table dance é paga à parte, não aproveites para roçar as bermudas na menina, estás a ouvir ?
PAI NATAL (volta a levantar-se e desata a saltar a pés juntos, furioso) — Ponche! Quero Ponche!
DIABO (levanta-se e vai buscar uma garrafa, que dá ao Pai Natal) — Levas uma Super Bock morna e já vais com sorte, para ver se te calas. Porra que o homem é chato!

(Entra em cena o proxeneta de Belmira, ARMÉNIO de seu nome. Usa um chapéu à Humphrey Bogart, um bigodinho ralo, um palito nos dentes. Casaco branco, calças pretas, camisa branca, gravata vermelha, sapato preto bicudinho, envernizado. Nos dedos, uma data de "cachuchos". Andar gingão e modos desafiadores e rufias)

ARMÉNIO — Desculpem lá, isto aqui é que é as ilhas Seis-Reles?

(Ficam todos espantados a olhar para ele. Niguém responde)

ARMÉNIO (ar de "pintas" ) — Ai que isto começa mal, ó bacanos! Para já, estão aí no bem-bom com a minha funcionária e eu não tenho népias nartol nos bolsos. Para começar, tá mal. Vamos ver se a gente endireita as coisas já, para esta janaria toda não dar porcaria.

(O Diabo levanta-se e dá uma cabeçada no Arménio, que cai para o solo e desata num berreiro, a fazer-se de vítima)

ARMÉNIO — Ai a minha cabecinha! Ai a minha cabecinha! Coitadinho de mim que sou um infeliz. Toda a gente me quer fazer mal e eu que sou incapaz de fazer mal a uma mosca. Venho dar com a minha namorada no meio duma festa e sou logo agredido. Eu vou matar-me! Eu vou matar-me!
BELMIRA (levanta-se e vai acariciá-lo no solo, preocupada) — Ai, estás bem, amor? Magoaram-te muito?
DIABO (mãos nos bolsos, ar enfastiado) — Foi só uma marradita de nada...
ARMÉNIO (para Belmira) — Também não vales nada, Belmira. Vieste esfolar uns cabritos para as ilhas Reles e faltaste ao caldinho que eu tinha preparado em Fornos de Algodres, para os amigos...
BELMIRA (carinhosa, a afagar Arménio) — Ó amor, não foi por mal, mas sabes que esses teus amigos nunca pagam nada e passam a noite toda a apalpar-me e a mandar bocas foleiras. Amor, isso não é Natal, não é nada...e sabes que tenho de estar em forma para a noite do "ribeirão"...
ARMÉNIO — Qual ribeirão, qual carapuça! É "réveillon" que se diz, minha ignorante. Tu nem sabes que Paris é a capital da França!
BELMIRA (ofendida) — Sei, sim senhor. Até falam lá todos francês e tem aquela coisa muito grande, a Torre de Fel.

(Arménio levanta-se, tentando readquirir a dignidade. Belmira sacode-o. O Diabo aproxima-se, só para gozar, mas Arménio está desconfiado)

BELMIRA (voz meiga, para Arménio) — Ó Armeninho, não vale a pena zangares-te, que estes senhores são gente de bem. Vê lá que nenhum deles me tentou apalpar. Ofereceram-me a ceia da noite suada e uma manta para me cobrir, depois do "show". Olha, ali é o Menino Jesus, que foi quem me contratou, o papá dele, que é Deus, o senhor Diabo e o senhor Pai Natal...
PAI NATAL (aproxima-se de Arménio, que continua desconfiado. O Pai Natal abraça-o e Arménio protege a cara, com os braços, receoso) — Dá cá um abraço. És cá dos meus. Por acaso não tens ponche, pois não?
ARMÉNIO (perplexo, para Belmira) — O que é que ele quer?
BELMIRA (encolhe os ombros) — Quer um carro. É de telhas... tem estado toda a noite nisto. Não ligues, que ele está um bocadinho bêbedo.

PAI NATAL (exasperado) — Bêbedo são os cornos do teu pai, ouviste, ó vaqueira...remadora...rameira, rameira é que é ! És uma rameira e tu és um chulo, ó Adérito. E podes levar as duas gémeas contigo. Não valem uma orelha das minhas falecidas renas, estás a perceber ?
ARMÉNIO (baralhado) — Renas, mas quais renas? O bacano tem renas a render?
MENINO JESUS (conciliador, para Arménio ) — Ó senhor Arménio, não vale a pena estar a arranjar problemas numa noite tão bonita. Porque é que não se senta e toma uma bebida connosco, para descontrair?
PAI NATAL (quer ir bater a Arménio, mas o Menino Jesus agarra-o) — Não bebes mas é nada, meu g'anda cabrão! Não trazes ponche, não bebes nem mais uma pinga. Vai beber para a tua adega, ó labrego! Eu estou aqui muito sossegado e não gosto do teu focinho. Hoje é Páscoa e eu quero licor de ovo ! Quero ponche! Quero ginginha! Quero...

(Pai Natal adormece de repente e cai para cima de Belmira, a roncar. Ouve-se novamente o ronco supersónico, desta vez ainda mais amplificado)

BELMIRA (pede ajuda a todos, quer ver-se livre do Pai Natal) — Ai quem me ajuda? Ele é tão pesado...
DIABO (continua a um canto, muito chateado, de mãos nos bolsos) — Ainda dizem que o álcool se evapora...
BELMIRA (atira o Pai Natal para o solo) — Livra! Isto não é tudo álcool. Há p'ráqui muita carne!
DIABO (chateado, para Deus) — Mania de vir passar o Natal para as Seychelles, só podia dar barraca. A esta hora podia estar no quentinho do Inferno, eu e as minhas labaredazinhas...
DEUS — O que é que eu tenho a ver com esta confusão toda?
DIABO — Ora! Se és omnisciente, omnipotente e omnipresente tens as pastas todas dos problemas. Tudo é contigo!
DEUS — Essa é uma bonita maneira de ver as questões, não haja dúvidas.
DIABO (muito convencido) — Eu cá não tenho dúvidas nenhumas.

(Belmira e Arménio retiram-se)

BELMIRA — Se não me levam a mal, eu e o Arménio vamos andando...
DIABO — Vão pela sombra...
DEUS — Apareçam!
MENINO JESUS — Qualquer coisa, tem o meu contacto!
ARMÉNIO (entredentes, para Belmira) — Vamos embora, antes que o bêbedo acorde e o outro me dê uma marrada.

(Saem. Menino Jesus, Deus e o Pai Natal voltam a sentar-se ao pé da fogueira e ficam a dialogar filosoficamente)

MENINO JESUS (para o Diabo) — Ó tio, para si o que é o Natal?
DIABO — O Natal é o grande encontro dos povos.
DEUS — Não, senhor. Isso são os Jogos Olímpicos e o Mundial de Futebol, que são de quatro em quatro anos. O Natal é todos os anos.
DIABO (malicioso, tentando apanhar Deus em contradição) — Explica lá uma coisa. Se o Natal é quando um homem quiser, não és tu que podes fixar a data...
DEUS — Vê-se mesmo que não queres perceber o significado da frase.
DIABO — Então explica-me.
DEUS — O Natal deve ser todos os dias.
DIABO — Isso era óptimo para o comércio. Aliás, quando o Pessoa dizia que o melhor do Mundo são as crianças estava a cometer uma grave imprecisão.
MENINO JESUS — Então porquê, tio?
DIABO — Já viste bem todo o egoísmo que as crianças põem no Natal? Em primeiro lugar, são umas materialistas da pior espécie. Passam semanas a babar-se só a pensar no Natal. Depois, não possuem pinga de espiritualidade. Querem lá saber do nascimento de Cristo ! Depois, ficam todas invejosas dos brinquedos dos outros meninos. O Natal é um grande estímulo para a hipocrisia, para o surgimento de um espírito de liberalismo selvagem.
MENINO JESUS — Ó tio, quando eu nasci foi tão bonito. Eu na manjedoura, uma vaquinha e um burrinho a tratarem de mim...
DIABO — Se fosse na Alfredo da Costa poupavas na vaca e no burro...
DEUS — Tu gostas é de dizer mal. Devias ir para político.
DIABO — Safa! Farto deles estou eu, lá no Inferno. Não se pode dar um passo que aparecem logo aos pares. Agora andam em campanha, a concorrer para Satanás-mór, vereador das Superfícies Ardentes e governador do Departamento de Queimados, Marginalizados e Mal Pagos.

(Pai Natal acorda. Levanta-se, aproxima-se da boca de cena, espreguiça-se. Menino Jesus, Deus e o Diabo observam-no. O palco fica às escuras e um foco incide apenas no Pai Natal, que inicia monólogo final, com voz muito meiga, virado para o público em tom cúmplice)

PAI NATAL — Era uma vez um país onde todos os dias eram Natal. As pessoas não gostavam todas umas das outras, mas disfarçavam bem. Havia dias de chuva, mas a esperança do sol nunca morria. O Mundo não era perfeito, mas todos tentavam esquecer esse problema...

(Acende-se outro foco. Pausa. Pai Natal cala-se. Pouco depois, Arménio ocupa o lugar do foco)

ARMÉNIO (voz grossa e decidida, panfletária) — Não devemos ser chulos do Natal. O Natal é dar.
BELMIRA ("entra" para outro foco, aparece agarrada à cara) — O Natal é receber. Ai, amor, foste tão bruto...
MENINO JESUS (mais um foco) — O Natal sou eu.
PAI NATAL — E eu.
DEUS e O DIABO (em coro) — Então e nós?
PAI NATAL — Vocês têm o resto do ano. O Natal é um balde de ponche!

(O grande final. Menino Jesus canta "P'ra todos um bom natal"; Pai Natal canta "Jingle Bells"; Deus canta "Noite feliz, noite de paz". Dura dois minutos. Pára. Foco incide sobre Diabo, que canta Meat Loaf, do álbum "Bat out of hell" : In a hot summer night would you offer your throat to the wolf with the red roses ?. Diabo abana-se por todo o lado. Saem todos. Cai o pano. A assistência começa a aplaudir. Pausa de dez segundos. Sobe o pano. Aparece Belmira, sozinha, em playback de George Michael: "Last Christmas I gave you my heart, but the very next day you gave it away...". Arménio, Menino Jesus, Diabo, Deus e o Pai Natal chegam-se à boca de cena, dão as mãos e acabam a cantar: "É Natal, é Natal, e todos lá vão, vão comprar os seus presentes ao Conde Barão).


LAST CHRISTMAS - G...

Meatloaf - Bat Out...





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sábado, setembro 15, 2007

MAMBO AT THE BEACH




Chanel 27 como blogger, desde Julho de 2007. Apenas fotos da menina. Valem a pena: chanel27sexystar.blogspot.com.
E também há o site oficial.

Curtam lá um bocadinho de “Italiano para principiantes” (fabuloso filme que vi no King Triplex, uma comédia de pôr a alma a ejacular sonetos de Bocage).

Visita il sito ufficiale di Chanel 27.

(Convite feito em www.margosexy.com/stars.asp?uid=01g80)

Guarda il video di Chanel 27 al Margò Sexy Disco.

(Guarda, Seia, Manteigas, era onde ela quisesse)

Margò Sexy Disco – Lap Dance – Tortoretto – Teramo — Map — Gallery – Home.
É clicar e toma lá com um mapa com nomes como Colle Imperatore, Marina Seconda, Montone, Maggi (tudo o que a Maggi faz, faz melhor), A14, E55... já lá estou. Vou de trotineta, a assobiar melodias de sempre.

Erotika Tour 2007? Mas o que vem a ser isso?

Successo oltre le previsione per il primo appuntamento di Erotika Tour 2007.
Pronti alla sfida con il Misex di Milano.
Annunciatti dagli organizzatori la seconda tappa del Tour 2007.

(Então não é o Giro?)

Soddisfazione di Agostino Di Giuseppe per il successo della prima tappa di Tortoretto: 2/18 Agosto 20007.

ATENÇÃO, ALENTEJANOS!
PRÓXIMA PARAGEM: Nizza, 21-23 Setembro, Melany Moore e Symba. E depois Barcarena. Não? É Barcelona (3/7 Outubro) ?
E Nizza não é no Alentejo?
Então desculpem.

Está? Não estou a ouvir bem... falta-me rede... estou no trapézio e só tenho uma mão para falar ao celular... o quê?!? Sim, a Chanel 27 faz parte da equipa de Riccardo Schicchi. O quê? É um site porno italiano, desde 1997. Eles dizem que são os maiores. Só um momento... tenho de me cruzar com dois trapezistas que vêm na brasa... pronto, já passaram...
O nome do site porno? Diva Futura.
Pois, vão ao site da Chanel. Já cheguei à plataforma. Entrem lá no site.

Bellezza, personalità, love, sex and money, sensualitá, fantasia, class, fascino, magia.

Podem bater-me. Estive três dias em Portimão, passei por ela um ror de vezes e nem uma palavra troquei, para além dos cumprimentos de cortesia. Só sorrisos. Teve algo a ver com as “directas” involuntárias, com a fadiga, com outras histórias.

Há mais Chanel no horizonte? Pois há. Lá estaremos.






Auto-publicidade Poético-erótica

SEXY 2007


4º Episódio - Lição de italiano


Chanel 27. O doce perfume transalpino. Se os anjos fossem loiros, italianos e tivessem sexo, seriam todos como Chanel?
Sonho de mulher? Mulher de sonho? Pesadelo de todas as mulheres casadas? Menina bonita que se transforma em Diabo? Maçã do pecado em palco de tentações?
Chanel 27. Um canal que podia muito bem ser de Veneza. Um canal que nos prende, como os cárceres da Ponte dos Suspiros. Podemos todos muito bem suspirar por Chanel 27.
Lisboa já a viu. Lisboa já suspirou por ela, de chapéu de vaqueira na cabeça, americanizada no seu bikini. Inocente de todos os crimes, mesmo quando nua de preconceitos se auto-invadia com objectos de prazer.
Portimão já a viu. De bikini preto-e-prata. Volteando à volta do varão.
Chanel 27. O sorriso cândido. O ar de quem sabe o sexo como assunto natural. Perfeita. Suave. Sem protestos. Como um robot “raimundizado”, obediente às ordens do Sargento Raimundo, a mandar dançar, a mandar parar, a mandar para o palco.
Chanel 27. Na Itália, em Espanha, em Portugal.
Bonequinha perfeita, razão para acreditar em Deus, modelo para todos os pintores, motivo para Rodin sair do túmulo e esculpir uma vez mais.
Chanel 27.
Que pena eu não poder, num passe de magia, comprar um Chanel 5, tomar o 27 e mergulhar com este sonho doirado nas águas do Tejo, em frente ao Estádio do Restelo.
Chanel 27. Canto de sereia. Boca de pecado. Lábios de tortura.
Naturalmente.
Provavelmente o melhor sonho do Mundo.
Estupidamente fresco. Estupidamente quente.
Chanel 27, a hospedeira perfeita no último voo para o Céu, valquíria de seda com dedos magnéticos.
Chanel 27. O Diabo à solta sem ninguém dar por ele.
Chanel 27.


Leva-me ao altar. Enlaça as tuas pernas/compasso de flamingo nas minhas pernas peludas de Sumol de Satanás.
Diabinha marota. Não tens um lugarzinho na tua cama para um diabinho quarentão?
“Olá, Chanel. Chamo-me Dick Hard, português, escritor, 45 anos. Corta-me o coração às fatias, arranca-mo à dentada, faz-me subir ao Machu Pichu, leva-me a todos os altares, prega-me na tua cruz favorita. À minha direita Sonia Baby. À minha esquerda Dúnia Montenegro”.
E um legionário romano, de pilum em riste a espetar-me a carne, a vomitar-me olhares de ódio.
E eu, feliz, a exalar o último suspiro gravando com o meu derradeiro olhar o sorriso de Chanel, de joelhos no solo, a lavar-me as feridas, como uma Madalena.
Se todos os calvários fossem como tu, talvez o Mundo fosse melhor.




Eurythmics - There...



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quinta-feira, setembro 13, 2007

SEXY 2007


3º Episódio - A “LOVESIL” EQUIPOU AS MENINAS DA LIFE




Andava eu pelas ruas de Portimão, a regressar da “Baleia Encalhada” para o centro da cidade, quando me deparo com uma montra agradável.
“Lovesil”. O Sil é de Silva e também de Sedução, Intimidade, Lingerie. Bonito. Entrei. E falei com a sócia-gerente.
A loja começou na Internet e há três meses tem o espaço físico que o Ganda Ordinarice mostra.


Está a correr bem e foi o sucesso on-line que permitiu o salto para o espaço físico. Mas Portimão ainda é um espaço não muito amplo. Pelo menos em termos de abertura ao glorioso mundo novo. As fantasias de enfermeira e outras que tais tiveram de recuar no terreno de jogo, porque chocavam as pessoas mais puritanas.
“Tivemos de esconder as fantasias, pô-las cá mais para trás”.

No início, as pessoas entravam na loja com alguma inibição. Mas parece que agora já se habituaram. Há muitas noivas a comprar “trapinhos” para a noite de núpcias. Aconselham-se com quem as atende, experimentam, saem satisfeitas.

Na loja on-line, a sócia-gerente da Lovesil tinha muitos produtos que via em sites americanos, de que era compradora frequente.
Agora começou a ir aos fornecedores. A experiência de mais de um ano on-line permitiu-lhe avançar para este espaço físico com uma certa dinâmica e um certo “conforto”, como hoje se diz.
E a expansão está prevista.

Ficámos de nos encontrar no stand das meninas da Life, que a Lovesil equipou. Mas a confusão na zona do Swing era tanta (adjacente ao stand da Life) que nunca calhou cruzarmo-nos, até porque não podíamos entrar no stand sem mais nem menos.

Fica aqui o beijinho de despedida que acabámos por não dar e os desejos de que as coisas tenham corrido bem.










QUEM É, QUEM É?

Qual é a menina, qual é ela, que quando cai no chão fica amarela?
Por acaso sou mentiroso. Aquilo era laranja, mas os focos de luz deram este tom.
É a Symba!
No stand da Melany Moore.




E estas duas sereiazinhas simétricas são as romenas Aline e Melany Moore, numa pausa do trabalho, que não faltou durante os três dias. O Raimundo estava sempre em cima do acontecimento.





CORGIS - EVERYBODY...


Acabou por hoje.
Obrigado.



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quarta-feira, setembro 12, 2007

Contos avulsos - VI




UM RAMO DE FLORES

O sr. Bush Flowers era um cidadão proeminente de Moura. A dignidade do seu rosto desfigurado constituía prova evidente. O cadáver jazia de ventre protuberante a apontar o céu, como se quisesse elevar-se de forma mais ágil.
O dia não estava de facilidades para Ruy Ojuara, o detective privado que a recém-viúva Flowers contratara para desvendar o caso com prontidão e elegância investigativa. O calor não era pouco. Quarenta graus de tédio e mosquitos a zumbir à volta do sr. Bush Flowers, numa dança de sedução pornográfica.
— Não falta aqui sangue — disse Ruy Ojuara.
— Pois não — respondeu Diniz Pinto, o chefe da polícia de Moura.
A transpiração descia-lhes pela coluna. O sol batia na cara com uma violência injusta para quem não fosse alentejano, caso de Ruy Ojuara, que nunca pusera os pés em Moura e passava a maior parte do tempo enfiado no seu escritório de Lisboa. “Ruy Ojuara. Investigador. Facilidades de pagamento”.
— Há suspeitos, chefe?
— Você é que veio de Lisboa para investigar. O crime ainda está fresquinho e vem-me você com perguntas dessas. Calma. O Flowers já não vai a lado nenhum. Ó Viegas, então essa carrinha para levar o corpo, é para hoje?
A carrinha chegou hora e meia depois, aos solavancos, protestando nos amortecedores a sua condição de veículo com demasiado asfalto de qualidade duvidosa no currículo.
Viegas (o graduado mais importante de Moura, depois de Diniz Pinto) olhou de forma enjoada para Roussado, o sacristão de uma aldeiazinha adjacente, proprietário da carrinha e ligado a Diniz Pinto por vínculo familiar, através da irmã mais nova. A mulher do chefe, Patrícia “Alta Somítica”, na alcunha colada pelo povo, perdera-se de amores por Diniz Pinto na sequência de uma noite de tinto e comichões no púbis, à beira-rio. Coisas da juventude que acabam por se pagar no altar. Por vezes, o vagar para decidir as coisas é tanto que acaba por se fazer a primeira inspiração que nos vem à cabeça. E casaram-se. Para infelicidade de Diniz Pinto, que todos os sábados de manhã se queixava de mototonia conjugal.
— Quantos varões tem este jogo de matraquilhos, aqui do meu lado? — inquiria aos amigos.
— Tem quatro, homem dum cabrão!
— Pois olhem, já é mais do que as posições que a Patrícia usa quando está comigo.
Cinco da tarde. Bem aviadas. Viegas cumprimentou Roussado com os dedos peganhentos de uma sandes de presunto, para enganar a fome, enquanto as diligências decorriam no local da morte.
Jorge Simeão (“Fotografia de Qualidade.Casamentos e Baptizados”) aproveitava para estrear a sua nova máquina digital, sorrindo a cada ângulo novo. Quase contagiava o rigor mortis do Sr. Bush Flowers. Faltava-lhe um sapato, que um pássaro levara para cima de um chaparro sem que ninguém soubesse, logo após o crime, pelo fresco da madrugada, enquanto o sol não tinha autorização para rasgar o dia e abrir o expediente.

— Ó Simeão, vê lá se isso funciona. Não estou a ver essa máquina a disparar nada. Depois de levar o corpo já não há nada a fazer. Fica aqui uma poça de sangue para as formigas tomarem banho e mais nada. E de certeza que o presidente da Câmara me vai chatear à brava...
— Calma, chefe Pinto. Estas coisas japonesas nunca falham. A gente agora nem precisa de passar isto para o papel. Vai logo do meu computador para o computador da Polícia.
— Pois, mas deixa-te lá dessas modernices. Eu quero fotos de jeito. Amanhã ou coisa assim aparece uma foto a escorrer sangue na “Gazeta da Planície” e se calhar para a Polícia não há um grande plano como deve ser.
— Ó chefe, por amor de Deus! Sabe como eu sou. Primeiro a Polícia. A “Gazeta da Planície” nem me paga nada. É só porque a minha mulher deve favores ao chefe de Redacção. Eu vivo é dos casamentos e baptizados. Então, agora, em Agosto, com as férias dos emigrantes...
Duas horas depois, tudo estava consumado. Toda a gente fora de cena.
No dia seguinte o céu estava menos azul e a temperatura descera dois graus, por especial favor. A viúva Flowers, regressada de Nova Iorque no primeiro voo (Nova Iorque é um excelente pretexto para ser inocente de um crime ocorrido em Moura), almoçou com Ruy Ojuara no melhor restaurante da terra, o “Água na Boca”.
— Conte-me tudo, senhor Ojuara. Quero saber o nome do criminoso quanto antes. Não olho a despesas.
Quando os supremos de porco preto chegaram à mesa com óptimo aspecto e cheiro assaz convidativo, Ruy Ojuara fitou os olhos verdes da bem nutrida viúva quarentona que ia ficar ainda melhor na vida. O sr. Bush Flowers negociava em diamantes, possuía sete montes no Alentejo, um apartamento em Manhatan, uma casa recuperada em Lisboa (perto do Hotel da Lapa) e uma quintarola em Viana do Castelo.
Se isto, por si só, não bastasse para atrair Ágata Cristina (que chegara a vender amor nas estradas das cercanias de Amarante, entre os 13 e os 15 anos, de forma tão discreta que a situação nunca transpirou para além dos arrabaldes), o sr. Bush Flowers apresentava ainda algumas qualidades absolutamente excepcionais: 65 anos, um coração a tender para o fraco, hipertensão assídua e militante, uma propensão para tomar Viagra nas viagens de “negócios” ao Brasil, de Porto Seguro até Belo Horizonte, com passagens pelo Rio ou S. Paulo.
Ágata Cristina, quer dizer, a actual viúva Flowers, ex-Madame Flowers para as pessoas de Moura, casou de sorriso rasgado em Las Vegas e depois estabeleceu-se de armas e bagagens no coração do sr. Bush Flowers, decidido a esquecer as origens texanas (“Bela terra, Houston, bela terra”).
Foram cinco anos felizes para o sr. Bush Flowers, graças aos dólares (“Claro que o dinheiro traz felicidade”), ao Viagra e aos dotes sexuais da viúva Flowers, que não se poupava a esforços no sentido de conseguir ao marido, o mais rápido possível, um “voucher” para a Barca do Inferno. E o coração a resistir. Não só à fogosidade de Ágata Cristina mas também às sessões reforçadas com as meninas brasileiras. Pensava o velho Flowers que era tudo às escondidas da mulher. Nunca suspeitou de que ela o fazia seguir para todo o lado por John “Mad Dog” Roberts, ex-funcionário da CIA. E entre as múltiplas incumbências de “Mad Dog” constava no cardápio o encaminhamento de “garotas de programa” para os braços peludos e ainda rijos do velho Bush Flowers.



Quando a viúva Flowers regressou das compras em Manhatan e entrou no hotel, o recepcionista olhou-a visivelmente constrangido. Ágata Cristina abriu o envelope e subiu de imediato para o seu quarto. O raio do velho finalmente morrera. Mas ela não tinha tratado de nada. E havia muito sangue do lado de fora do corpo, já para não falar no rosto completamente esfacelado. O telegrama era taxativo. Crime, disse ele, o telegrama.
“Mad Dog” podia tratar do caso, mas era melhor não arriscar. A viúva Flowers tomou o primeiro avião e ainda no aeroporto de Lisboa pediu uma lista telefónica. Apostou no maior anúncio que encontrou nas Páginas Amarelas: “Ruy Ojuara. Investigador. Facilidades de pagamento. 24 horas ao seu serviço. Especialista em crime e adultério nas mais famosas capitais mundiais. Poliglota. Os mais recentes métodos de investigação, apoiados em tecnologia da mais alta ponta”.
E ali estava ela a comer uma salada mista, enquanto Ruy Ojuara, olhar maroto e vivo, estatura média, deglutia com visível prazer a dose generosa dos supremos de porco preto, regada a tinto da casa. E toda a gente dizia à viúva Flowers que era muito cedo para se saber alguma coisa.
Ruy Ojuara pediu-lhe uma semana. A viúva Flowers prometeu-lhe um bónus. Receava que as mafias de Leste a pudessem chantagear. Podiam muito bem ter despachado o pobre do Francis. Ou os chineses. Sim, podiam ter sido as tríades. E ela não ia abdicar dos montes sem mais nem menos. Ou o velho Flowers andava a traí-la com alguma moçoila de Moura? Será que “Mad Dog” fazia jogo duplo e escondia alguma coisa? Seria ela mesma um alvo a abater?
Ágata Cristina queria ver o caso resolvido. Não olhava a meios. Prometeu uma casa nova ao presidente da Câmara, o dr. Pedro Braganza Assis (emérito violinista e fanático de Chopin), “untou as mãos” do chefe Diniz Pinto e ainda lhe passou os lábios em zona carenciada (transportando-o ao planetário do céu alentejano), comprometeu-se com uma nova carrinha para o sub-chefe Viegas.

O homem que tinha a chave da questão voara de Lisboa para o Texas logo a seguir à morte acidental de Francis Bush Flowers. Chamava-se Hercule Marple e tinha andado na escola, em Houston, com o velho Flowers. Chegara sem avisar a Moura, ao monte, com um presente-surpresa. Uma pantera negra, de nome Filomena.
O velho Flowers ficara radiante com o presente e saiu para os campos no Suzuki Samurai 4x4, de cor branca. Não quis que ninguém fosse com ele. Ou melhor, ele a guiar, Hercule ao lado e a Filomena presa pela trela, na caixa aberta da “pick up”. Tirou duas pequenas garrafas de Jameson do “tablier” e as memórias desfiaram-se ao longo de duas horas.
Filomena tinha calor, tinha sede e estava a ficar aborrecida da trela apertada. Certo que era uma pantera negra amestrada, mas do zoo de Houston para os montes de Moura ainda vai uma diferença, com viagens de avião e camioneta pelo meio. E depois, só por brincadeira (e muita bebedeira), Hercule dera-lhe cocaína a cheirar.
O velho Flowers rematou a faena puxando o rabo a Filomena, mal saiu do Suzuki Samurai, aos ésses e na galhofa com o seu velho amigo Hercule. Filomena levou a mal e solucionou a questão em 15 segundos afiados e supinamente rosnados.
Hercule meteu-se no carro, deixou-o na garagem do velho Flowers, chamou um táxi para o centro de Moura, meteu-se na camioneta para Lisboa e tomou o primeiro avião para Houston. O melhor era não dizer nada a ninguém. Mandou um ramo de flores.




ADIAFA As Meninas ...




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Contos do Dick Hard - XIV

DICK HARD NO “NACIONAL” DE SURF


Os anos começavam a pesar no bandulho precocemente acervejado de Dick Hard. Ele nunca tinha sido esquisito e as “loiras” muito cedo conquistaram um lugar no estômago do detective, com passagem breve pelo apeadeiro dos afectos.
Antigamente, quando ele era novo, ainda conseguia correr atrás de um adúltero, dar um par de sopapos numa puta reles, coisas assim, do banal quotidiano. Agora, os tempos eram outros. Já não se sentia homem para correr atrás de um “rebenta” em pleno Parque Eduardo VII. Até para apanhar um cisne precisava de estar inspirado. E o esturgido nem sempre lhe saía apurado.
Tudo isto para dizer que os anos passam e não se pode fazer nada. O tal PDI (puta da idade). Mas se a idade vai caminhando a passos largos, a “pica” ainda não faltava. Graças a Deus ou ao Diabo. Por isso, Dick atirava-se a todas as miúdas que pudesse. Era uma maneira de retardar o envelhecimento.
Clarimunda era uma namorada do mais improvável, uma “chavala” pescada na lota de Cascais. O pai era pescador e a miúda deu em surfista e puta amadora. Quer dizer, para além de foder o dinheiro que o pai ganhava com o sal do mar e o suor do corpo, fodia com todos os pescadores que pudesse. Era um bocado chato para o pai, que saía para o mar nas chatas em vias de extinção e apanhava conversas cruzadas entre a rapaziada:
— A filha do Peres é que tem boa boca...
— Isso não é garganta tua?
— Pelo contrário. É garganta dela.
Mas Clarimunda não era má rapariga. A sua generosidade de carnes estendeu-se ao meio do “surf” e era vê-la, qual tieta do agreste, a levar com os ventos frios do Guincho na tromba, a calcorrear timidamente as areias da Ericeira, a fazer-se às praias mais recônditas deste nosso querido Portugal. Um “bico” ao Chico Dingue-Dingue atrás de uma duna, uma canzana como manda a lei recebida a conta-gotas atrás de uma barraca das farturas em Azenhas-do-Mar, uma fodita à missionário quando o ânimo já não era muito e o pôr-do-sol estava de luas.
Dick sabia que a miúda não controlava muito as emoções e parece que as calcinhas lhe escorregavam pernas abaixo. Deixá-lo! Ele também não tinha um futuro radioso para lhe oferecer. Limitava-se a aproveitar o que a maré trazia. E Clarimunda era uma belíssima trancada, ora pois!

Sendo assim, Dick metia-se muitas vezes no Lotus Europa rosa-choque, a cair aos bocados, e ala até Cascais. Uns “shots” com a Clarimunda no John Bull, um peixinho nos restaurantes aprazíveis da cidade, uma punheta bem tirada num canto escuro, uns meles, uns beijos ou até uma pinocada clássica em casa da miúda, com o pai no mar atrás dos sargos. As sardas em terra atrás da miúda, a miúda atrás das sardas e o pai em pleno mar, armado em pargo, aos sargos.
Dick por baixo, Clarimunda por cima.
Ah! pois, a vida não está para grandes aventuras.
Dick deixava a miúda cavalgá-lo segundo as regras do manual da instrução primária e punha-se a olhar para o tecto e a pensar: “Já dei muito o cabedal. Ela que trabalhe. Logo à noite vou comer uma feijoada à transmontana à tasca do Nicolau”.
E foi assim que deu com ele em pleno “Nacional” de surf. Clarimunda tinha uma amiga colombiana que se tinha reformado de “mula” (havia concorrência como o caraças para andar a transportar droga no bandulho e três viagens bem sucedidas tinham-lhe dado um pé-de-meia jeitoso), naturalizara-se portuguesa e tinha uma carruagem-bar no Estoril. Para passar o tempo, dedicara-se ao surf. Ficava quase sempre em última, mas o surf era uma paixão e a vida corria bem. Todos os meses mandava umas massas para Bogotá.
Maria del Mercedes (“Cocas” para os amigos) era uma morena vistosa, de 28 anos. Boa de mamas, cu atrevido, tipo sextante a procurar sarilhos.Olhos muito negros, acarvoados, cabelos lisos e longos. Transpirava promessas por todos os lados.
Chegou ao Guincho com a prancha debaixo do braço e um sorriso de fazer inveja ao sol. Acabou a prova em penúltima, mas isso agora não interessa nada. A disposição não se alterou. Era gargalhada que até fervia, enquanto emborcava cerveja atrás de cerveja. A única coisa que a aborrecia era os chatos dos putos surfistas pensarem que ela tinha “produto”, só por ser colombiana.
— Vaya, tio! No tengo, puta madre, no tengo!
E não tinha mesmo. A Maria del Mercedes não era como os irmãos Dalton. Quando se reformava era mesmo a sério. Não era preciso o Lucky Luke atrás dela, para a meter na choldra.
Já o sol estava a dizer adeus, abraçado ao horizonte numa de fechar o expediente, seriam umas nove da noite que estava a chegar, Maria del Mercedes pôs-se a segredar risinhos para a Clarimunda, enquanto um burrié lhe arrefecia na mão lustrosa.

O bar “Surfa-me Neste, Leste e Oeste” era um local acolhedor e Dick estava pleno de calmarias. Era um belo final de domingo e no outro dia tinha uma vigilância a uma advogada que andava a meter os cornos ao amante com o marido.
Vai-se a ver, aqueles risinhos da colombiana não eram mais do que a elaboração de um plano de ataque. Começaram as duas a olhar para Dick, com matreirice. E ele a pensar: “Olha-m’estas”. De estômago aconchegado pelas cervejinhas, os burriés e os percebes, Dick nem estava assim a pensar em grandes festas, mas o que tem de ser tem muita força. O seu pai tinha-lhe dito, no dia da primeira comunhão: “Um português nunca se nega”.
E lá foram os três a caminho do mar. A colombiana pediu uma prancha emprestada a um amigo e Clarimunda levou-a. Maria del Mercedes seguia ao lado, com a sua prancha. Dick ia atrás, de mãos nos bolsos das bermudas e um panamá da Macieira na cabeça, a assobiar.
Fizeram-se ao mar com a noite quase a cair. Já não havia pranchas na água. Clarimunda e Mercedes subiram para uma prancha e montaram Dick na outra.
— Vá. Nada. Vamos para ali — disse Clarimunda, apontando uma zona mais calma.
Aquilo já estava a dar um bocado de trabalho e o senhor Hard não fazia surf há um testículo de tempo, mas pronto, está bem, só para fazer a vontade às miúdas. No regresso a terra previa-se festa, por isso não lhe custava nada ser educado.
Bem, a coisa afinal não foi bem assim. Quando estacionaram numa zona de calmaria, a colombiana passou para a prancha de Dick e mandou-o deitar-se de costas. Dick não percebeu muito bem qual era a ideia, mas aceitou. Eis senão quando, qual Neptuno, Clarimunda mergulhou. Nesse mesmo instante, Del Mercedes agarrou nas mãozinhas de Dick e meteu-as na água.
Dick não se perturbou quando se sentiu agarrado, porque imaginou que havia muito mais possibilidades de ser Clarimunda do que Jaws. Apesar disso, sentiu uma coisa a morder-lhe nos punhos e ouviu um “clic” bastante metálico. Puxou os braços e percebeu que estava algemado por baixo da prancha. Um momento de pânico. Sabe-se lá do que são as gajas capazes. Estavam bem bebidas. Não lhe apetecia nada ficar algemado de costas, à deriva, no mar do Guincho. Se se virasse era morte certa. Então e as cervejolas, os tremoços, os jogos do Belenenses, as stickadas ao raiar da manhã, as punhetas nos banhos de espuma a pensar nas mamas da Bo Derek?

Felizmente, não era nada disso. Tudo estava sob controlo. Clarimunda veio ao de cima, agarrou-se à borda da prancha, sereia loira de olhos verdes, cuspiu um bocado de água, deu uma gargalhada, e disse para Dick:
— Aposto que isto ainda não te tinha acontecido.
Depois cruzou olhares com Del Mercedes. A Mercedes não era SLK, nem Clarimunda pensou “e se ela o capa?’”. Porque Clarimunda sabia muito bem o que se ia passar. O plano tinha sido esboçado em devido tempo, em terra firme. Pelo menos tão firme como o little dick do senhor Hard, que foi crescendo em dimensão humana à medida que os lábios de seda de Mercedes lhe percorriam o circuito da ponta da cabecinha às bases dos adjuntos.
Dick rendeu-se ao climax dez minutos depois. E deu graças pelo trabalho conjunto das bocas lindas de Mercedes e Clarimunda, duas miúdas com boa boca. Tanto comiam burriés como mamavam nos vigorosos.
O surf era uma modalidade plena de virtudes.





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domingo, setembro 09, 2007

Contos avulsos - V



SILVA STORY

Imaginei uma caneca de cerveja a deslizar no balcão de madeira. Nada disso aconteceu. Um barulho de fundo martelava-me os neurónios, que sentia a dissolverem-se no fumo das frustrações sugadas no filtro ranhoso dos cigarros. Eu mesmo tacteava docilmente um SG, os dedos em V de vitória transversal, adormecidos por um comodismo melancólico e cinzento.
Não era eu no espelho, mas alguém que tivera oportunidade de conhecer em tempos idos. Um rosto vagamente familiar, com rugas agrárias a sulcar uma derme disfarçada de face. O fumo continuava a subir até ao tecto e a impregnar-me os nervos de um sentido de decadência meramente instintivo.
As omoplatas estremeceram. O meu tronco projectou-se na direcção do balcão. O peito tocou ao de leve na caneca e a espuma já adormecida mergulhou de boa vontade e desenhou o mapa de um país com cheiro a cerveja. O empregado automaticamente limpou esse estranho e novo país do mapa de madeira quase lisa, com menos rugas do que eu. Sorriu-me.
— Prontinho. Assim está melhor.
Mal sabia ele que apagara inconscientemente um país em que eu gostaria de viver e onde tudo era ainda possível. Uma voz contornou o espaço e penetrou directamente no meu cérebro.
Era o Ludovico, que acabara de se sentar ao balcão, fazendo sinal para que lhe trouxessem uma caneca de cerveja. Jovial, expansivo, sempre às palmadas nas omoplatas dos pobres diabos como eu.
Conheci o Ludovico no futebol. Em Alvalade, mais concretamente. Chovia a espaços e o jogo ia passando num écran de relva, nos intervalos da pluviosidade, dos insultos ao árbitro e do voo das gaivotas em terra, entretidas em raides perdidos com os Airbus da TAP, a ameaçar aterragens em plena grande área do adversário, luzinhas a piscar seduções nunca concretizadas. Tinha plena consciência de não estar no santuário de Fátima, mas aqueles milhares de chapéus-de-chuva a abrir e fechar lembravam-me sem remissão um ritual sagrado de desfloramento de cogumelos negros com espasmos sexuais.
— Muito prazer. Ludovico Ferreira.
Estendeu-me a mão sem medo nenhum e o sorriso estava fora-de-jogo no contexto meteorológico do dia. Se eu fosse uma máquina de fotografar, decerto seria luz a mais para o meu rolo.Foi assim que o fotografei mentalmente.Ao intervalo, fomos tomar uma"bica" no meio de um magote de fanáticos, entretidos a caluniar o técnico do Sporting. Um problema qualquer de pontas-de-lança, centrais e progressão atacante, ao que parece. Recordo-me vagamente que a solução estava no último terço do terreno. Não percebi porquê.
Soube-me bem o café, apesar de suspeitar do grau de limpeza da chávena e de ter sofrido várias cargas de ombro ilegalíssimas, que o árbitro não puniu com o cartão amarelo por se encontrar no balneário. Exibi quinze minutos de uma apatia programada involuntariamente. Afinal, sempre estava a sair pela primeira vez com o actual namorado da minha ex-mulher. São coisas que deixam um sujeito abalado, mesmo que não se queira. Depois, que raio de ideia travar conhecimento num jogo de futebol.Foi o Ludovico que me descobriu no meio da confusão, já íamos com vinte e cinco minutos da primeira parte.Tínhamos combinado por telefone que eu levaria um enorme chapéu-de-chuva encarnado e branco. Não gostei muito da ideia de levar um chapéu dessa cor para Alvalade, mas as coisas acabaram por correr menos mal. Eu nunca o tinha visto mais gordo, mas o Ludovico folheara o álbum de fotos lá de casa,por isso já fazia uma ideia de mim. Álbum de fotos lá de casa é uma maneira de falar, porque eu estou a viver numa pensão manhosa há uns cinco meses, o tempo que eu e a Manuela levamos de divórcio. Nunca chegou a haver separação. Entrou lá em casa com os papéis e disse:
— Assina aí. Ando com o Ludovico e já não gosto de ti. Vê lá agora se queres complicar as coisas.
Não quis. Sou um gajo simples.Estupidamente simples.Tão simples que até parece estúpido.Além de estúpido.Como é possível ficar na cavaqueira com o homem que nos roubou a esposa, no nosso primeiro encontro, no futebol ?
A questão é tanto mais surrealista quanto se sabe que aquilo nem era cavaqueira. Ele falava e eu ouvia. Eu e mais dez ou doze adeptos do Sporting, que comiam batatas fritas de pacote e bebiam cerveja. Confesso que o tema era aliciante para terceiros.
— Silva, é o que lhe digo. São azares, é o que é. Você tem ali uma mulherona! Desculpe lá... não foi por mal.Tinha ali uma mulherona... mas olhe que não fui eu que a pressionei para pedir o divórcio.Para lhe ser franco, já tínhamos um caso desde há dois anos, mas só agora, há uns meses, não mais que isso, é que a coisa se tornou verdadeiramente séria. Você não notou nada, ó Silva? A sério?!?
Não disse nada. Paguei as "bicas" e dirigimo-nos de regresso à bancada.O Ludovico continuava a falar. O jogo decorria, mas nós os dois estávamos noutro mundo. Ouvi, ouvi, ouvi.
Não sei como, ficámos amigos. Eu sou engenheiro electrónico, o Ludovico é vendedor de livros. Eu não gosto de futebol, o Ludovico é maluco por futebol e doente do Sporting.
— Mas não sou fanático, que isto de ser do Sporting não dá para ser fanático há dezasseis anos.
Eu tenho 1 metro e 60, o Ludovico é uma bestinha de 1 e 85, mal contados. Eu sou um bocado careca, o Ludovico tem uma trunfa loura de fazer inveja ao Robert Redford, nos seus bons tempos. Eu tenho 37 anos, o Ludovico faz 27 para o mês que vem. Resta dizer que a Manuela tem 35. O que será que ela viu nele ?
Para ser franco, eu também vi, quando fomos os dois aos urinóis, no fim do jogo. Mas os homens não se medem aos palmos. Há o amor, o carinho, a compreensão, o diálogo...
Basicamente, no meu caso há um grande par de cornos. Mas nem sequer quero mal ao Ludovico. Fiquei um bocado sentido com a Manuela. Sempre foram nove anos de vida em comum, a partilhar a cama.

******

— Ah! grande Silva! Desculpa lá ter entornado a cerveja. Então como vai isso?
Encolhi os ombros. As conversas com o Ludovico eram sempre um bocado para o retórico. Quem se dava muito bem com ele era o Armando, o dono do bar. O Ludovico até lhe fizera um preço especial na colecção "Vampiro", nos calhamaços da Agatha Christie.
Bah! Nem tudo era mau. O Ludovico pagava-me sempre o dinheiro que pedia emprestado. Aí com umas semanas de atraso, mas pagava. Claro que eu também lhe pagava umas canecas valentes e uns vodkas furtivos, nas noites do Bairro Alto, quando íamos laurear a pevide e ele tentava animar-me:
— Acorda, homem. Andas zonzo!
O barulho de fundo continuava a martelar-me os neurónios, agora misturado com a voz do Ludovico. Lá fora chovia a potes, o que não parecia incomodar o Ludovico.

O ranger da porta atraiu a atenção de quem estava sentado ao balcão. No caso, um bêbedo profissional que funcionava a J.B. com duas pedras de gelo (em balão) e um advogado especializado em divórcios, que já metera conversa comigo várias vezes e insistia sempre:
— Se nos tivéssemos conhecido antes, outro galo cantaria no seu divórcio.
O homem até podia ser bem intencionado, mas a cara dele não me agradava. As gravatas eram demasiado "in" e o sorriso cheirava a artificial e a oportunismo.
Seja como fôr, quando a menina da meteorologia entrou, toda a gente convergiu os holofotes sobre a figura e um estudante do 12º Ano disparou, como quem está de raivas contra o Marçal Grilo:
— Olha o que chove!
Ela ouviu e esboçou um ligeiro sorriso, quase imperceptível. Aposto que pensou para com os seus botões: "Sou muito puta, mas tenho de parecer fina por fora". Também pode ser que eu estivesse a pensar como um porco chauvinista. Carências, não invejas.
Continuei a fumar e a beber cerveja, tentando identificar o canal televisivo da menina do tempo. Em vão, o estilo é semelhante de canal para canal, algures entre a estrela porno em ascensão, a vedeta de Hollywood e a executiva de sucesso. A ideia confortou-me.
O fumo já não me martelava os neurónios. As rugas tornaram-se mais suaves. Sorri para o Ludovico. Clark Kent estava a travestir-se de Super-Homem. Virei-me no balcão. A menina pedira um "Irish Coffee" e cruzara as pernas de maneira a que se pudesse ver a "lingerie" negra deliciosamente provocante. Consultava a agenda com um ar atarefado, mas não disfarçava a sensação de quem sabia todos os olhares em cima de si pousados; tais como abutres convertidos à abstinência sexual por uma seita mista de elementos das Testemunhas de Jeová, Igreja Universal do Reino de Deus e Mórmones.
Ganhei coragem. Pedi ao Armando um "shot" de tequilla.
— Armando, um "shot".
O Ludovico olhou para o Armando. O Armando olhou para o Ludovico. Veio o "shot". Saí do balcão.Crescendo um pouco, cheguei com boa vontade ao metro e 70, comecei a puxar a cadeira de braços, fiz o sorriso à Bogart, com travo de Brad Pitt imediatamente pós-coito, e arrisquei:
— Posso?
Ela soprou o fumo por cima da minha cabeça. Sorriu. Fez sinal que me sentasse. Não sei como, acabei na casa dela, amarrado à cama por cintos de robe e "collants". O sexo foi bom para cima de óptimo, numa montanha russa de seios flutuantes em desalinhos de coxas de cetim. O ritmo freneticamente sincopado, em delícia rítmica de regata Oxford-Cambridge. Distraído com os seus lábios carnudos, com os meus ouvidos transformados em dolby-stereo dos seus gemidos, só me orgasmizei quando nada mais foi possível fazer pela Humanidade. O melhor de tudo foi a forma como ela suspirou e atirou o cabelo para trás. Claro que o sorriso compôs a situação, como numa tela de Rubens a invadir-me o cérebro.
No outro dia, cheguei ao bar do Armando ao fim da tarde e tinha parado de chover ao meio-dia. Ia ser promovido no trabalho e começava a perceber o chilrear dos passarinhos. Um raio de sol rasgava a neblina como um viking e dei o boa-tarde mais sonoro da minha vida.
O bêbedo do J.B. pediu um duplo sem gelo, o advogado engasgou-se e o Ludovico ficou a olhar para mim, com cara de Sporting campeão nacional, bestialmente aparvalhado. Pedi o telemóvel emprestado ao advogado, marquei o número da Manuela e aguardei. Finalmente, apareceu o atendedor de chamadas:
— Era só para te dizer que já estou a gozar a vida outra vez, minha vaca! Só para saberes!
Desliguei. Dei o telemóvel ao advogado, agradeci, pedi um "peppermint" Get 27, saquei de uma cigarrilha e olhei para o espelho. Clark Kent mirou-me com ar severo e deu para lhe ler os lábios:
— Estás a abusar.
Nessa altura veio-me uma cefaleia das antigas, senti o barulho de fundo a martelar-me os neurónios e aquela sensação de impotência a tomar conta de mim. Felizmente, nessa altura entrou a Patrícia (a menina da meteorologia) com uma mini-saia alegórica ao desejo e senti uma pequena erecção a manifestar-se discretamente. Dei uma palmada nas costas do Ludovico, entornei-lhe a cerveja, disse "até amanhã" e fomos para casa da Patrícia.
Tem 19 aninhos. Eu podia ser pai dela. Sabem duma coisa? Não me importo nada...

HAPPY ENDING
(até ver)







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